Carlito – remando contra a maré (Capítulo II)

Capítulo II: Malabarismo (parte 2 de um total de 4)

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Carlito, ex-atleta do Flamengo – Foto: Acervo Pessoal

O´Grandbery, nomeado em homenagem ao bispo John Cowper Granbery, líder da introdução e expansão do metodismo americano no Brasil ainda no final do Império, reforçava a condição de Juiz de Fora como cidade de grande importância no cenário brasileiro de então. Em meados do século XIX, havia se tornado o principal centro cafeicultor da Zona da Mata mineira. Já na República ganhou iluminação pública elétrica, telefone e linhas de bonde, contando ainda com telégrafo e imprensa. Nos anos em que Carlito estudou lá, de 1911 a 1913, se transformara num incipiente polo industrial, o maior de Minas Gerais até a década de 1930.

Sebastião Cruz não fazia muito gosto no ensino religioso, mas a visão progressista de O´Grandberry, com seu lema “inspirar a vontade de pensar e ser livre para pensar”, e a infraestrutura de Juiz de Fora foram decisivos na escolha. Carlito, em regime de internato, chegou a tomar parte dos grêmios literários e se interessou pelo aspecto esportivo da pedagogia. Onde houvesse atividade física, o adolescente que consolidava seu estirão próprio da idade participava e fazia bonito. E assim passou seus três anos na cidade estudando, se exercitando quando podia e aprendendo um pouco da teoria e da prática da Odontologia.

O curso possuía três séries, sendo a primeira constituída de física, química mineral, anatomia descritiva e topografia da cabeça. Na segunda série estudava-se histologia dentária, fisiologia dentária, patologia dentária e higiene da boca. E por fim, na terceira, terapêutica dentária, cirurgia e prótese dentária. Umas das bíblias dos alunos era o “Manual Odontológico”, publicado em 1900 por Augusto Coelho e Souza, considerado o pai da Odontologia brasileira, livro que ajudou a formar milhares de cirurgiões-dentistas nos anos seguintes.

Carlito, ao que tudo indica, não foi um entusiasta da nova e promissora profissão, mas fez o suficiente para passar em tudo e se formar. Assim, no dia 28 de novembro de 1913, o jornal O Pharol, que circulou de 1872 a 1939 em Juiz de Fora, publicava uma matéria registrando a realização das festas de colação de grau dos formandos daquele ano, que aconteceriam às 19 horas do dia 16 de dezembro no Theatro Juiz de Fora com discursos oficiais e dos paranymphos. A notícia informava ainda que haveria uma solemnidade no domingo, 30 deste mez, ao meio dia, com um sermão official do reverendo José Ferraz, na egreja Methodista. Entre os 42 formandos em Odontologia, incluindo Carlito, havia três Franciscos, cinco Josés e quatro mulheres, que começavam a ingressar no mercado – Mina, Onira, Tatiana e Theotonia. Menos do que 10%, mas já um avanço para aqueles idos embora a indicação é que apenas atendessem a clientela feminina.

Aqui já não há mais registros do destino de Carlito até se mudar para o Rio de Janeiro, mas somente referências e vagas lembranças. Tudo indica que não quis se estabelecer na pujante Poços de Caldas que decolava sob a batuta do prefeito Escobar e onde um filho do seo Cruz, se ali abrisse um consultório, teria plenas condições de prosperar. Ele e o pai se dariam bem? Ou o autoritarismo patriarcal típico da República Velha, muito opressor quando exercido numa convivência próxima, inibia os sonhos do jovem que queria extravasar e seguir caminhos que não passavam por um consultório de dentista? Sebastião deve ter insistido e estimulado o filho a tentar a profissão, e a solução foi encontrar uma cidade próxima com a demanda crescente por serviços odontológicos. Perto de Poços, a cerca de 100 km, está Alfenas, que também possuía sua faculdade de Odontologia, fundada em 1914, e, ao lado desta, a pequena Machado, que havia se emancipado de Alfenas em 1881. E para lá foi o jovem Carlito com um consultório novinho em folha presenteado por seo Cruz.

Os primeiros pacientes até chegaram a receber tratamento dentário, mas o que chegou na cidade e chamou a atenção do iniciante Dr. Carlos da Gama Cruz foi um circo. A magia, malabarismo, acrobacia e equilibrismo das trupes que viajavam pelo interior de Minas naqueles tempos encantavam as cidadezinhas por onde passavam. O circo desembarcou no Brasil no século XIX por meio de imigrantes italianos e de ciganos vindos da Romênia e da Iugoslávia, e eram compostos por famílias com sobrenome Stancovichs, Stevanovichs, Wassinovichs ou Robattinis. Eram circos-teatros formados por parentes que passavam o ofício e a tradição de pai para filho. Naquela segunda metade da década de 1910, enfrentavam dificuldades financeiras em razão da 1ª Guerra Mundial que também afetava o Brasil.

E quando uma destas trupes estacionou em Machado e lá montou uma lona, o entediado Carlito foi lá conferir recordando-se que na infância se divertia bastante quando os pais o levavam junto com os irmãos nos circos que apareciam em Poços. Os malabarismos, as apresentações de força e equilíbrio o fascinavam. Mas o que lhe chamou mesmo a atenção no picadeiro foi uma moça bonita e de olhar sensual que ajudava o tio, o dono do circo, na preparação do espetáculo e na execução de alguns números, principalmente com o palhaço, que também era da família. Depois de três dias assistindo às sessões, tomou coragem e convidou a artista para tomar sorvete.

Ela era um pouco mais velha, alfabetizada praticamente sozinha, e dizia coisas bonitas. Ele se apaixonou e ficou incomodado porque o circo iria embora em duas semanas. Carlito, com o seu ímpeto para descobrir o desconhecido, não pensou duas vezes. Conversou com o dono do circo para saber se poderia participar de alguns números que envolviam força e que ele já andava treinando no quarto da pensão em que morava, conseguiu negociar o consultório com um dentista de Alfenas e partiu com a trupe por um roteiro de cidades do sul de Minas. E claro, não falou uma palavra com a família.

No circo, do qual passou a ser sócio com o dinheiro da venda do consultório, se sentia à vontade e feliz, exercitando-se todos os dias, tomando parte de algumas apresentações e ajudando na gestão de seu novo empreendimento notadamente pouco lucrativo. Mas a namorada e a liberdade compensavam, e o moralismo não era regra naquela trupe de origem cigana. Enquanto pôde, manteve os pais alheios à empreitada em rápidas visitas a Poços ou enviando mensagens genéricas de que a vida em Machado corria bem. Mas não demorou muito para seo Cruz descobrir a nova vida circense do seu primogênito e não ficar nem um pouco satisfeito com o rumo tomado. Foi ter com ele de surpresa exigindo o imediato abandono do circo e o retorno para Poços de Caldas. Acabrunhado, Carlito arrumou suas coisas, se despediu da namorada e retornou para a casa dos pais.

A mãe, Dona Celina, sempre o protegeu e o acolheu depois das travessuras. Aquela era apenas mais uma. Houve uma tentativa de encaixá-lo nos negócios da Casa Cruz, mas ou Carlito não se envolvia de forma adequada, ou agia de maneira inconsequente ou se desentendia com o pai. Queria ir embora. E a solução foi enviá-lo para o Rio de Janeiro, cidade que se desenvolvia com rapidez, atraía gente de todo o Brasil e oferecia oportunidades, onde seo Cruz tinha conhecidos e Carlito também possuía alguns contatos dos tempos de Juiz de Fora. Já um rapaz robusto, disse para o pai que gostaria inclusive de treinar remo na capital federal. Há tempos acompanhava pelos jornais as regatas e seus resultados, uma paixão nacional na virada do século, e nas poucas vezes em que pudera remar sentira afinidade e motivação com o esporte. Já tivera inclusive a chance de assistir a competições quando em férias no Rio de Janeiro. Seu clube preferido era o Flamengo.