Remando contra a maré – histórias de Carlito

Carlito (primeiro de quatro capítulos)

Remando contra a maré

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Carlito, ex-atleta do Flamengo – Foto: Acervo Pessoal

Introdução

A foto antiga e em preto e branco, confesso, sempre me impressionou desde garoto. Um jovem másculo, bonito, com um olhar expressivo e vestindo uma camiseta de remador do Flamengo. Expressa força, vitalidade, sucesso. É Carlito Gama Cruz, irmão de minha avó Carola cuja casa em Poços de Caldas frequento desde que vim ao mundo em 1966. Dona Carola, nascida em 1906 e que faleceu aos 98 anos, algumas poucas vezes se vangloriava ao lembrar e falar a respeito do irmão mais velho segurando sua foto nas mãos. Não economizava nos elogios: que ele era um bom dançarino, que havia se formado muito jovem como dentista, que fez muito sucesso no Rio de Janeiro como atleta do remo, que tinha sido até dono de um circo.

Carlito morreu em meados dos anos 70, solitário, sem nunca ter sido casado. Sua trajetória também foi marcada por algo trágico e determinante: uma dependência de cerca de 50 anos da morfina. Ele mergulhou neste vício no incrível e pulsante Rio de Janeiro dos anos 20, tão bem retratado pelo notável escritor Ruy Castro no recém-lançado livro “Metrópole à beira-mar”, que me permitiu entender o ambiente que levou Carlito a se enveredar por raias tão glamourosas quanto perigosas.

Nos meus primeiros anos de infância, é possível que eu tenha encontrado Carlito alguma vez, na espaçosa e centenária casa de meus avós em Poços de Caldas. Ele chegava pela entrada de serviço, comia alguma coisa na cozinha e ia embora – talvez tivesse vergonha de se misturar aos demais parentes na sala de estar ou de jantar. Dizem que era educado e ainda conservava, nos seus anos derradeiros, alguma vitalidade apesar do longo período de uso contínuo da droga.

Por algum motivo, este personagem enigmático me arrebatou nas últimas semanas cutucando minha mente e atiçando a curiosidade. Quem foi ele? Como viveu? O que sentia? No campo da fantasia, gostaria de ter uma hora de prosa com ele hoje, para sorver o máximo de informações sobre sua trajetória de vida pouco falada e conhecida na família. Dada a impossibilidade deste diálogo, tratei de conversar com quem o conheceu. Carlito morreu há 44 anos e quem de fato foi mais próximo dele também já se foi. Restou-me buscar informações com seus sobrinhos, ou sobrinhos-netos, ou seja, meus pais, tias, primos distantes e ler e pesquisar em livros, arquivos e na internet fatos e dados que me ajudassem a recriar um pouco de suas remadas ao longo de mais de sete décadas.

Como jornalista, procurei me ater ao que de real se passou. Mas a realidade é difusa e permite interpretações. Como candidato a ficcionista, proponho uma narrativa mais flexível, baseada em conclusões e adaptações às vezes criativas. Vamos a ela!

Capítulo I: A largada

Poços de Caldas era, na virada do século XIX para o XX, uma cidadezinha em plena expansão. Crescia em parte de terras que, em 1820, havia sido destinada a uma sesmaria concedida a um dos ramos da família Junqueira. Joaquim Bernardes da Costa Junqueira, conhecido como Sesmeiro, e alguns aparentados doaram em 1872 uma gleba para formação do núcleo da futura cidade onde brotavam as águas vulcânicas e de reconhecidas qualidades medicinais. Em pouco tempo Poços de Caldas passou a atrair forasteiros de diversas partes do Brasil e do mundo em busca da cura para seus males antes do advento da penicilina ou de oportunidades de trabalho.

D. Pedro II apareceu por lá para inaugurar o ramal ferroviário em 1886. A partir daí, começaram a chegar em maior número os imigrantes, em especial os italianos, e gente de todos os cantos para usufruir das águas termais curativas, do jogo de carteado nos cassinos e dos ares europeus da nova estância hidromineral. Paulistanos endinheirados, como Martinico Prado, ergueram na cidade palacetes para temporadas de veraneio, simbolizado pelo casarão onde hoje funciona o Museu Histórico e Geográfico do município, construído em 1898.

Quase 800 quilômetros distante de Poços de Caldas estava Campos de Goytacazes, a primeira cidade do país a receber luz elétrica em 1883 e terra natal de Nilo Peçanha, que presidiria o Brasil de 1909 a 1910. Lá também vivia a influente família Cruz, entre eles dois irmãos que tinham perdido a avó envenenada por uma escrava, revoltada pela decisão dos donos de não deixá-la ficar com o filho que ainda carregava no ventre. Um deles, Godofredo, chegou a ser presidente da equipe do Americano, time de futebol criado em 1914 e que construiria seu estádio próprio em 1954, batizado de Godofredo Cruz – esta tradicional arena do futebol carioca viria a ser demolida em 2014. O segundo chamava-se Sebastião da Gama Cruz.

Ali pelos anos 1890 este último chegou em Poços, que ganhava fama nacional, para uma estação de águas que aliviasse problemas respiratórios. Sebastião, ou seo Cruz, como muitos o chamavam, gostou do clima ameno e próspero daquele pedaço da Mantiqueira e resolveu ficar. Tinha tino para os negócios e para o comércio, e logo estava empreendendo, ganhando dinheiro e participando da política. De vida encaminhada, faltava ao novo morador uma esposa.

Dizem que numa festa em Caldas, cidade vizinha a Poços, mais antiga e que aos poucos perdia sua hegemonia sobre o novo polo que se desenvolvia ao lado, seo Cruz observou uma moça atraente, Celina, que dançava de forma exuberante. Do interesse demonstrado ao casamento, ali por 1895, tudo se passou de forma rápida. No apagar das luzes do século XIX, o casal se estabeleceu em Poços, onde Sebastião se mostrou aguerrido adversário dos Junqueiras que dominavam a política local e logo tiveram que dividir o poder com os forasteiros que chegavam, entre eles seo Cruz e o médico Faria Lobato.

Celina logo engravidou e o rebento, antes mesmo de nascer, se menino, já tinha nome: Sebastião. Não vingou e a criança morreu. Veio uma segunda gestação e novamente o nome antecipado de Sebastião. E mais uma vez o neném nasceu sem vida ou morreu dias depois. Na terceira gravidez, Celina avisou ao marido: “Desta vez não será chamado de Sebastião, dá azar!”. O menino parido em 1897 desta vez surgiu forte e saudável, e passaram a lhe chamar de Carlito, apelido de Carlos da Gama Cruz.

Deve ter sido mimado, primeiro filho, homem, bonitinho. Depois, na esteira e sem maiores sobressaltos, nasceram os irmãos Cylio, Ciloca, Anita, Carola e, finalmente, um Tião que vingou. Empreendedor, seo Cruz investiu também na compra de uma área ainda pouco explorada da cidade e que viria a se transformar, depois de loteada no futuro, no tradicional bairro da Vila Cruz. Homem de recursos e letrado, leitor dos jornais trazidos do Rio de Janeiro e vereador atuante, seo Cruz deve ter proporcionado a melhor educação disponível na cidade ao primogênito.

A Casa do Cruz, ou Casa Cruz, instalada a partir de 1906 na Rua Paraná, artéria principal de Poços e que futuramente seria rebatizada como Assis Figueiredo, interventor da era varguista, ia de vento em popa. Vendia de tudo, de ferragens a louças europeias. Em 1908, no 1º Centenário da Abertura dos Portos, um júri da exposição comemorativa realizada no Bairro da Urca, na capital federal, conferiu a Sebastião da Gama Cruz uma honrosa “Medalha de Prata”. O evento, além de apresentar ao Brasil e aos estrangeiros o novo Rio de Janeiro remodelado pelas obras do prefeito Pereira Passos, homenageou empresários nacionais e seus negócios.

Enquanto isso, no sobrado a poucos passos da Casa Cruz, residência da família, Carlito crescia com os irmãos. Arisco, brincava e se divertia como os garotos da época e já demonstrava que a força e a agilidade seriam companheiras de vida. Para instalar energia elétrica na casa sem pedir permissão aos Junqueiras de crescente desafeto, Sebastião usou a madrugada para fazer, com seus empregados, uma conexão subterrânea de fiação entre a loja e o sobrado. E foi lá que Carlito deve ter recebido as primeiras letras e aprendido as operações básicas em aulas particulares.

O garoto era ligado nos sucessos editoriais. Em 1905 surgiu a revista infantil O Tico-Tico, publicação que chegou a imprimir 30 mil exemplares semanais distribuídos para todo o Brasil e que às quartas-feiras, ao menos no Rio de Janeiro e cidades ligadas por trem à capital, fazia a alegria da garotada com as histórias em quadrinhos do “Chiquinho”, a seção “Lições do Vovô” e concursos infantis. Na edição de aniversário de um ano da revista, publicada em 10 de outubro de 1906, lá estava o nome de Carlito, então com 9 anos, como um dos garotos da lista que havia enviado por correio as soluções corretas para um concurso identificado como de número 69.

O menino virou adolescente e era hora de encaminhá-lo para uma Educação mais formal e qualificada que, infelizmente, Poços não oferecia naqueles tempos. A cidade até vivia um auspicioso ciclo de desenvolvimento na gestão do prefeito Francisco Escobar, que governou o munícipio de 1909 a 1918. Culto e dinâmico, interlocutor de Rui Barbosa, que fez estação em Poços após a Campanha Civilista de 1910 quando foi derrotado por Hermes da Fonseca, e também amigo de Euclides da Cunha quando este escreveu parte de “Os sertões” enquanto construía uma ponte em São José do Rio Pardo, Escobar liderou uma reforma urbanística implantando novas praças e avenidas. Um dos destaques de sua administração foi a construção do Teatro Polytheama, onde a irmã de Carlito, minha avó Carola, chegou a se apresentar no palco, ao piano, ainda criança.

O Brasil crescia e com ele seus centros urbanos gerando novas e inúmeras necessidades a seus habitantes. Uma delas, odontológicas. Era preciso cuidar dos dentes das pessoas que consumiam cada vez mais açúcar. O país ganhou no início do século XX uma série de faculdades de Odontologia para capacitar estudantes e práticos a lidar com os desafios bucais com mais ciência e conhecimento. Surgiram as unidades de ensino superior, entre outras, em Niterói (1912), Alfenas (1914) e Juiz de Fora. E, por alguma razão, seo Cruz decidiu matricular o adolescente Carlito nesta última, na Escola Americana O´Granbery de Odontologia, criada em 1904 na então mais robusta economicamente cidade mineira, localizada na Zona da Mata. Carlito tinha 14 anos – naquela época, um curso superior podia ser feito em idade tão imatura. Se o garoto tinha pendores para o ofício, se quis seguir aquela profissão ou se o pai lhe perguntou o que desejava, arrisco dizer que a resposta é “não”.

Apesar da rigidez de seo Cruz, Dona Celina tinha moral nos destinos da família. Quando o marido construiu naqueles anos uma linda e espaçosa casa numa esquina da Rua Rio Grande do Norte, a apenas algumas quadras do movimento da rua principal e próxima à futura Igreja Matriz da cidade, erguida a partir de 1937 tendo meu avô Haroldo como engenheiro da obra, a esposa se recusou a se mudar para lá: “Muito longe”! – justificou ao marido.

Não houve como seo Cruz convencê-la do contrário. Antes de vender o imóvel por volta de 1920, chegou a alugá-lo, inclusive para abonados que faziam estação de água em Poços. Uma delas, Iria Junqueira, a rainha do café de Ribeirão Preto, uma cliente do seo Cruz cujo sobrenome não o incomodava por ser oriunda de outra região. A casa, de grandes janelas e espaçosa varanda com pé direito alto, teria um destino histórico antes de ser demolida há duas décadas: foi lá que Antonio Candido, o maior crítico literário brasileiro falecido em 2017, chegou a morar e passar longas temporadas a partir de 1930 de inesgotáveis leituras e produção de textos clássicos.