Será que uma entre as mais famosas frases de Marx é bem compreendida?

A 11º tese sobre Feuerbach, de Karl Marx, “Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert; es kömmt drauf an, sie zu verändern”, deve ser traduzida assim: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diversas maneiras; eis o busílis, de mudar o mundo”.

Infelizmente, traduzem errado por aí. O erro se dá por conta da expressão “es kömmt drauf an”, que mudou de sentido do século XIX para cá, no próprio alemão.

O tal “es kömmt drauf an” (e hoje o “kommt” até perdeu o trema), naqueles tempos do século XIX, tinha o sentido de “x da questão”, “eis o busílis”, “aí que a coisa pega”.

Os dicionários do século XIX traziam este sentido, hoje alterado para “depende”, “o que importa”.

Veja que Marx não diz “es kommt aber drauf an”, que seria “mas depende” ou “mas o que importa”. Ele vai direto no “eis a questão”, “eis o busílis”, “aí que a coisa pega, na hora de mudar o mundo”.

Nem os alemães de hoje talvez consigam mais entender o sentido antigo, que se tornou obsoleto. A questão então passou despercebida?

Marx tem razão no sentido que conferiu à sua tese em alemão do século XIX. Se a interpretação do mundo é precária, ou seja, se o quadro do mundo é redutivo ou distorcido, claro que sua mudança será prejudicada.

Esta tese de Marx não trata apenas da práxis revolucionária, mas das dificuldades hermenêuticas – lembrando que hermenêutica é toda condição e possibilidade filosófica na compreensão de como interpretamos o mundo.

E não é para se abrir mão de mudar o mundo. Pelo contrário, sem utopia não há projeto. Faz parte da essência do homo sapiens filosófico, artístico e científico a imaginação de um mundo diferente daquele que existe de fato. Todas grandes obras partem de uma utopia, digo, as obras que inauguram o que permanece e fundam a História.

Só que esta mudança para melhor, do mundo, depende de uma boa hermenêutica, que é o fundamento incondicional de toda ação/invenção de fato fecunda.

Resumindo, estamos condenados à interpretação e correndo o risco de não poder melhorar o mundo por conta do evidente fracasso hermenêutico. Aliás, com uma má compreensão do mundo podemos mesmo destruí-lo sem piedade.