Por histórico de síndrome rara, idosa fica sem vacina contra Covid-19 em Ribeirão Preto

Após mostrar laudo médico que recomenda a não aplicação da vacina AstraZeneca, paciente foi informada de que não havia mais doses de CoronaVac na cidade e que não poderia escolher qual imunizante seria aplicado

Pixabay

Uma idosa de 67 anos, com uma série de comorbidades, teve o acesso à vacinação contra a Covid-19 negado em Ribeirão Preto, após mostrar um laudo de recomendação médica para que não recebesse a vacina AstraZeneca, da Oxford. Ao alertar os agentes de saúde para o fato, a paciente foi informada de que não havia mais doses de CoronaVac na cidade e que não poderia escolher qual imunizante seria aplicado. Desde então, o caso segue sem ser solucionado. 

Antonieta Aparecida Nowicki Boaretto conta que foi à Unidade Básica de Saúde (UBS) Vila Lobato, no bairro Jardim Antártica, no dia 22 de abril, após a vacinação para sua faixa-etária ter sido liberada pela Secretaria da Saúde. A idosa sofre de comorbidades como diabetes tipo dois, obesidade e hipertensão, além de ter um histórico de Síndrome de Guillain-Barré, que contraiu em 2013, possivelmente como um efeito colateral da vacina de Febre Amarela. Por causa da doença, o médico infectologista que acompanha o caso da paciente recomendou que ela tomasse apenas a vacina com vírus inativado, a CoronaVac. 

Veja o laudo na imagem abaixo:

Foto: Cedida pela entrevistada

Com o laudo em mãos, a idosa explicou a situação aos agentes de saúde da UBS, mas afirma que nem assim foi ouvida. Antonieta conta que foi informada de que teria que tomar a dose da AstraZeneca, mesmo com a recomendação contrária, pois aquele supostamente era o único imunizante disponível para sua faixa-etária. A mulher se recusou e foi mandada embora sob a afirmação de que escolher a vacina a ser aplicada não era uma opção. 

Desde então Antonieta luta para conseguir o imunizante recomendado pelo médico, a CoronaVac. A mulher chegou a ligar, mandar e-mails e até ir pessoalmente à Secretaria da Saúde de Ribeirão Preto, mas diz que a situação ainda não foi resolvida.

“Tudo começou em abril e  ainda se mantém, apesar dos vários contatos telefônicos e visita presencial à Secretaria da Saúde, onde fui muito maltratada, com respostas grosseiras, dizendo que não havia atendimento presencial e, novamente, que eu não poderia escolher a vacina. Os funcionários repetem que eu devo tomar a vacina disponível para a minha idade, a Astrazeneca, e desconsideram totalmente as informações que presto. Sequer analisam o documento feito pelo médico infectologista que me orienta no caso”, desabafa. 

A idosa já chegou inclusive a mandar diversos e-mails para a Ouvidoria da prefeitura, mas desde então segue sem nenhuma resposta. Em um deles, o marido de Antonieta, Marcos Boaretto, relata o ocorrido, inclusive a sensação de desrespeito por parte dos funcionários, frente à situação exposta pela mulher. “Além de não conseguirmos sensibilizar as pessoas que nos atenderam, não tivemos acesso a nenhum coordenador, e, na maioria das vezes, fomos tratados de maneira muito descortès, com total ausência de empatia para a questão que apresentamos”, afirmou o homem. 

No e-mail, Boaretto pediu ainda por respostas para o pedido, antes de tornar o caso público, mas o apelo continuou sendo ignorado. “Antes de darmos publicidade através da mídia aos fatos aqui mencionados, sem prejuízo da adoção das medidas judiciais cabíveis contra os responsáveis, visto de vida humana com elevado grau de risco no caso de infecção pelo Coronavírus, vimos a sua presença para solicitar que seja disponibilizada a minha esposa o imunizante recomendado pelo médico infectologista, com a urgência que a situação de Pandemia requer”.

Outro lado 

O Grupo Thathi entrou em contato com a Secretaria da Saúde, mas não obteve confirmação e nem mesmo uma negação a respeito do caso. Em nota a pasta disse: 

“A Secretaria Municipal da Saúde informa que segue as determinações do Plano Nacional de imunização (PNI)  e do Estado de São Paulo”.

Guillain-Barré

A  Síndrome de Guillain-Barré é uma doença autoimune que se caracteriza por um ataque do próprio organismo ao sistema nervoso periférico, conta o especialista em neurologia, professor Wilson Marques Júnior, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP). De acordo com o pesquisador, a síndrome pode se desenvolver após uma infecção prévia gastrointestinal ou respiratória, além disso, ela também pode ser desencadeada por cirurgias, traumas e vacinas. 

O professor conta que os sintomas vão desde fraqueza e perda sensitiva progressiva, até o comprometimento da respiração, em casos graves. A doença é autolimitada, ou seja, pode se curar mesmo sem tratamento, porém, “fase de instalação é de no máximo 30 dias, seguindo-se uma fase de plateau e depois de recuperação, que pode demorar meses e ser incompleta, deixando sequelas”. De acordo com o especialista, atualmente a mortalidade é 5%.

Questionado sobre a recomendação de que pacientes que tiveram Guillain-Barré não tomem a AstraZeneca, Marques Júnior afirma que ainda não existem dados bem estabelecidos sobre as diferenças entre as vacinas e que uma explicação possível seja a quantidade de pessoas que desenvolvem sintomas colaterais após a aplicação da vacina de Oxford. 

“Talvez tenham mais medo da AstraZeneca porque muitas pessoas têm uma reação transitória no período pós-vacinal imediato. De qualquer forma, a recomendação continua sendo vacinar, porque o risco da Covid-19 é maior que o da Síndrome de Guillain-Barré”, conclui.

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