Venezuela caipira

Como costuma dizer o brilhante José Simão, o Brasil está mais para a Venezueira que Venezuela. Na primeira semana de fevereiro (Pê pê rê rê rê rê pê pê), o poder público de Ribeirão Preto deu gritantes mostras de uma potencial veia cômica.

Pelo menos, não seria tão preocupante quanto a conclusão que este vos escreve, o Boca do Inferno caipira -obrigado, vereador!, atingiu: a maior parte dos componentes eleitos e comissionados da cidade, tanto câmara, quanto prefeitura e secretarias, não tem a menor ideia das suas atribuições ou a mais (palavrão) noção de planejamento público, gestão e política. Explicarei abaixo. Tenha em mente, prezado companheiro de sofrimento, que somos nós que, com o nosso suor e sangue, sustentamos incontáveis cones comissionados ou eleitos.

Exagero? Quem dera. Somente a lastimável -eufemismo- situação da saúde pública de Ribeirão Preto legitima a perspectiva acima. É de conhecimento até de Kim Jong-un, ditador norte-coreano, que o município padece anualmente, nos períodos de chuva constante, de surtos de dengue. Supõe-se, então, que o poder público deveria ter planos eficazes de combate à proliferação desse pernilongo do inferno, vulgo Aedes aegypti, com o passar dos anos. Idealmente, o poder Executivo deveria ser expert no combate à proliferação do mosquito e, consequentemente, em campanhas de conscientização e fiscalização.

Não é nada mais que lógico. (Palavrão, palavrão e palavrão), tal preparo era o mínimo esperado. O básico. Vejo-me cada vez mais incapaz de manter esta coluna. Abordar tal assunto sem disparar uma AK-47 de impropérios, insultos e palavrões é um exercício hercúleo. É enlouquecedor. Ademais, as fuças feias multiplicam-se. Não que isso importe, pelo contrário, irrita pois tomam como algo pessoal. Birras, egos e vaidades. Minha finada avó Thereza, que Deus a tenha em um bom lugar, costumava dizer que temos de chamar o burro de burro, caso contrário olhará a ferradura e concluirá que é um alazão. Impossível ser mais claro que isso.

Novamente, o questionamento sobre exagero é inevitável, entendo. Provo que não. Ribeirão Preto conta hoje com treze inoperantes equipamentos para hemodiálise, demandando manutenção. São quatro unidades de eletrocardiógrafos sem uso pelo mesmo motivo. E com quantos o Sistema Único de Saúde ribeirão-pretano conta? QUATRO! Vinte e uma unidades de reanimadores pulmonares permanecem, também, no aguardo do  técnico de manutenção hospitalar, que aparenta estar em extinção. Há outros tantos, tão importantes quanto, ociosos. Vale o esclarecimento: são equipamentos pertencentes ao município, não ao HC ou entidades privadas. Palavrão?

Não obstante, -ah, a Venezueira never ends- a secretaria da saúde resolve, nos 45 minutos do segundo tempo, resolver a problemática das UPAs inoperantes. Uma delas, a oeste, é um prédio vazio, sem equipamentos, profissionais e recursos. Fica pior: a norte, 52% conclusa, custará ao contribuinte, via licitação, dois milhões de reais. Obviamente, é algo que já deve ser feito com urgência.

Enquanto isso, as UBDs e a UPA Treze de Maio permanecem abarrotadas, sobrecarregadas. O secretário Sandro Scarpelini deve, inequivocadamente, explicações dos motivos pelos quais foram necessários três anos para que alguma atitude fosse tomada.

Os dedos chegam a tremer, mas infelizmente resumi apenas metade da história. Quais são os responsáveis por fiscalizar, cobrar e debater problemáticas como essa? Os indivíduos eleitos que hoje ocupam a monstruosidade faraônica que abriga seus gabinetes, os representantes mais próximos da população (em teoria), os vereadores.

Em outros artigos, já expressei a verossimilhança de uma plenária com um zoológico. São poucos eleitos ali que se salvam. Por exemplo, o vereador Boni (Rede), que escancarou a culpa da legislatura no atraso de um ano nas obras. O motivo? É de responsabilidade legislativa a aprovação do orçamento executivo. Em 2017, esse averbamento foi vetado. Logo, em 2018 não houve possibilidade de concretização. A celeridade das discussões parlamentares durou até o fim de 2018. Preto no branco, foram dois anos de atraso. Amnésia de tribuna?

Na mesma interminável sessão legislativa de quinta-feira, votou-se para que se aprove uma outra votação de convocação do Secretário de Saúde. Enquanto alguns babuínos eleitos trocavam acusações, vereadores como Paulinho Pereira (Cidadania) e Maurício Gasparini (PSDB) questionaram tal requerimento, pois o mesmo secretário já foi convocado e comparecerá para prestar esclarecimentos à Comissão de Seguridade Social (saúde, assistência social e previdência), a qual é presidida pelo vereador e médico Jorge Parada. Qual então a finalidade da comissão se ela sequer pode exercer sua prerrogativa? 2020, eleições e holofotes, claro. É o fiscalizador ignorando o fiscal. Ou, como costuma dizer uma querida amiga, é o muro andando em cima do gato.

Por fim, esse bovinismo legislativo invalida a necessidade de esclarecimentos? Não. Nem a urgência das obras e a tomada de ações emergenciais contra a epidemia de dengue. Também não joga a atual administração municipal na lata do lixo, embora haja erros exaustivos e certa dificuldade em assumi-los. Destaco, por exemplo, o trabalho feito na educação municipal.

Quanto ao legislativo, amigo leitor, tudo indica que 2020 continuará o ano dos babuínos -repito que há boas exceções.  Aposta certeira no jogo do bicho. Viva a Venezueira do Maduro bariátrico! E a Venezueira não tem limites! Pipoca e refrigerante na espera da UPA e na Câmara. Só assim para suportar as filas e os discursos inflamados por erros de português. Aliás, cadê meu Rivotril?