Um grupo onde você só pode dizer ovo

Nesse ano de 2019, o debate público em nosso país está bastante cansativo. Já está assim há algum tempo, uns vão dizer. Pode ser, mas pelo menos nos anos anteriores tínhamos um norte, um marco que prometia ser a season finale – o impeachment da Dilma, a renúncia de Temer, que nunca ocorreu, a prisão do Lula, as eleições. Havia sempre no horizonte um evento que prometia dar fim ao desesperador hábito que é acompanhar de perto a política no Brasil.

Agora, já não há nada do tipo; a imprensa e os analistas políticos debruçaram-se ansiosamente sobre o governo Bolsonaro assim que o homem assumiu, uma sensação estranha de que alguma coisa muito relevante, e provavelmente terrível, possivelmente irreversível para a imagem do governo, estava na iminência de ocorrer. Passado quase um semestre, é evidente que estávamos todos enganados. Como disse Marcos Nobre na piauí 151, o governo Bolsonaro tem o caos como método, isto é, é eficiente na medida em que deixa, de um lado, a população confusa, e do outro, a mídia descabelada, tentando entender e explicar o que se passa. Esse estado perpétuo de indignação, uma indignação que não se consuma jamais, é justamente o que pretende o governo.

Assim sendo, creio que, pelo menos por ora, não só para respirarmos um pouco, como também para deixar de acatar a esse jogo, seja útil seguir o conselho que uma de minhas professoras da pré-escola, a Tia Adelaide, dava aos alunos quando um dos colegas da turma engatava numa birra que impedia o andamento normal da aula: “finja que ele não existe.” Ademais da eficiência pedagógica desse método, e também à revelia de acusações de passividade, é algo que deveríamos pelo menos experimentar.

Por isso, eu gostaria, nessa coluna, de falar da coisa mais inútil na qual consigo pensar, que é no momento uma cultura emergente no facebook que é provavelmente o fenômeno mais lúdico e inocente com que me deparei recentemente, e que põe por terra também o mito de que a condição para o humor, por definição, seja a ofensa: são os grupos da parte boba do facebook. Parte essa que estende-se para o ambiente público da rede – algumas páginas públicas são capazes de produzir um conteúdo renomado e que se dá na mesma lógica da dos grupos. Um exemplo clássico é a recentemente reativada página “A mesma foto do Faustão sombrio todo dia”, que posta, todos os dias, uma fotografia do Faustão em que ele apresenta um aspecto todo soturno, diferente da que conhecemos.

Há inúmeras páginas nesse modelo: substitua o Faustão por alguma outra figura, o sombrio por algum outro estado de espírito inusitado e pronto, você já tem conteúdo para preencher seu feed inteiro, só com as mesmas fotos todos os dias – prontamente recebidas por uma chuva de likes dos seguidores. Há uma chamada “É quarta-feira meus bacanos”, que toda quarta posta uma foto de um sapo fazendo hang-loose, com a legenda “é quarta-feira meus bacanos”. Para que serve isso? Para nada. Ainda assim, há uma massa de pessoas, na qual me incluo, que, por algum motivo, fica feliz quando vê essa anti-piada passar pela rolagem, sinalizando que, mais uma vez, é quarta-feira!

Mas ainda mais notável que as páginas, são, como dito, os grupos. Isso explica-se, grosso modo, porque as páginas são públicas, de forma que invariavelmente produzem conteúdo para exportação e devem possuir, em algum nível, tal preocupação, além de serem operadas por um grupo reduzido de pessoas, o que limita a capacidade criativa do formato. Os grupos, por outro lado, em sua maioria não são públicos, o que faz com os interesses se concentrem, ao mesmo que abarcam um número muito maior de pessoas na produção de conteúdo do que numa página.

Os grupos de facebook, até mesmo os públicos já são, por si só, um acontecimento bastante notável para quem estuda comunicação. Além dos conjuntos mais óbvios, como grupos de venda e de discussão política, e outros mais de nicho, mas ainda de discussão séria, como o conspiracionista MK Ultra, que possui a brilhante regra “é proibido ser cético”, há ainda os grupos que reproduzem nesse meio um fenômeno mais ou menos recorrente na internet, que é o da repetição, pura e simples.

Meu favorito é o grupo “A Group Where You Can Only Say Egg” – um grupo onde só se pode comentar ovo, egg, ou qualquer variação linguística. Aprendi por exemplo que ovo em italiano é uovo e em alemão, ei. Quem comenta qualquer outra coisa, é suspenso, e se reincidente, banido. Porém é permitido compartilhar imagens e postagens de outros lugares do facebook e cuja o conteúdo não seja apenas a palavra, contanto que tenham, de alguma forma, a ver com ovo.

A possibilidade de diferenciação na repetição é o que faz com que a coisa torne-se um meme, e também as reações começam a se diversificar. Como disse Deleuze, “é a diferença que dá a ver e que multiplica os corpos; mas é a repetição que dá a falar e que autentifica o múltiplo, que faz dele acontecimento espiritual.”Surgem assim imagens de receitas incríveis feitas com ovo, que são prontamente recebidas com coraçõezinhos e alegres “EGG!!!”, e também de ovos caídos, ou completamente arruinados, lamentados com “EGGN’T!” e carinhas de mau.

O meme do ovo – que é só isso, a brincadeira é ovo – ficou tão grande que durante algum tempo no começo desse ano a foto mais curtida no Instagram era simplesmente a de um ovo, gerando até uma represália da antiga detentora do trono, Kylie Jenner, que na mesma semana postou um stories em que joga um ovo no chão. Enfim, o meme do ovo é fofo, ao mesmo tempo que sinaliza que o ocidente talvez tenha adentrado algum tipo de esquizofrenia coletiva. Mas de volta aos grupos em si, há ainda os que funcionam através de uma maneira mais exclusiva ainda.

A diferenciação e a repetição atingem um nível mais sofisticado – esses grupos não visam produzir conteúdo para sair do facebook e chegar ao twitter e ao WhatsApp, na verdade seu jogo ocorre como um processo criativo que nasce e morre dentro do facebook e cuja lógica se dá segundo a função primária do facebook de marcar. São os grupos de tag. Os membros desses grupos simplesmente saem etiquetando por aí marcas extremamente precisas para situações que podem ou não ser inusitadas.

Na cultura dos grupos de tag a brincadeira é ter a etiqueta mais específica possível, é como colecionar figurinhas – as figurinhas mais raras são as tags utilizadas mais raramente. Exemplo: pense numa imagem absurda sendo compartilhada por algum reacionário revoltado na sua timeline, tipo ‘PT diz que pretende desarmar a população!’ Existe uma tag específica para isso, que é “Coisas que os conservadores inventam da própria cabeça e ficam com raiva mas que seriam boas se fosse verdade.”

Um dos maiores grupos, que na verdade até deixa de ser únicamente pertencente ao mundo das tags, é o Previously Unsaid Sentences In Human History, Frases nunca antes ditas na história da humanidade, em que os membros compartilham manchetes e trechos de combinações de palavras muito provavelmente inéditas, como a manchete ”Deputado da Flórida é o primeiro político estadunidense a ser atacado com um milk-shake” ou, “Esse gato chamado ‘Cachorro’ é o mais amado vendedor de peixe do Vietnã”. Duas notícias reais. Um pouco mais além há o Those are all certainly words, isso definitivamente são todas palavras, em que chama-se atenção para postagens em que as palavras simplesmente não fazem nenhum sentido.

A perda da pessoalidade e da intimidade que ocorre na transição das comunidades do Orkut para os grupos do facebook vem devido a crescente fluidez na torrente de conteúdo, um sistema anteriormente bastante rígido na internet, e que simultaneamente faz surgir um fenômeno cultural cuja prática se dá justamente na frugalidade que as relações sociais atingem com a consolidação da comunicação digital. Isto é para dizer que a cultura das comunidades do orkut, e dos fóruns de internet no geral, produzia seu conteúdo de uma maneira realmente interna, sem grande comunicação com as demais, porque eram afetivamente autossuficientes.

No facebook, o fenômeno se transporta para uma relação entre os próprios grupos, para fora, porque sua estrutura não permite que a informação se acumule – é uma de feed, uma linha (sem fim, no caso), e não de loop, como num fórum. Assim os usuários têm que sair do ordenamento interno do grupo e recorrer ao próprio funcionamento externo do sistema se quiserem satisfatoriamente efetuar a repetição e diferenciação que dá surgimento às piadas e portanto às relações afetivas. Por mais banais que sejam esses movimentos no facebook, não dá para deixar de notar como realmente o menor traço de isolamento do ser humano invariavelmente acarreta no surgimento de alguma obra de arte – que não é senão, como colocou Lucia Joyce, uma forma controlada de esquizofrenia.

De fato, talvez seja difícil dizer outra coisa de quem se dá o trabalho de escrever ‘eggn’t’ ao ver uma imagem de um ovo quebrado, mas há quem diga também que só são verdadeiras obras de arte as absolutamente inúteis; eu não sei, mas os 45 milhões de curtidas que o Ovo teve no Instagram definitivamente parecem concordar.

“(…) é porque nada é igual, é porque tudo se banha em sua diferença, em sua dessemelhança e em sua desigualdade, mesmo consigo, que tudo retorna. ”

          –  Gilles Deleuze, Diferença e Repetição.