Transporte público: fraturando o calcanhar de Aquiles

Na babel em que não poucas vezes nos sentimos arremessados, houve quem proclamasse que ou morremos de corona vírus ou de fome. Esse falso dilema vem sendo esgrimido em benefício do retorno à normalidade do convívio social e econômico, em que pese o desigual atingimento da pandemia nas diferentes localidades e o iminente esgotamento da rede de saúde em várias delas, o crescente número de óbitos dia e o permanente alerta dos especialistas de saúde quanto a vulnerabilidade da exposição à Covid19, cumulados pelo desencontro do que devam ser , nessa fase, as políticas públicas de convivo social.

Nesse cenário, um dos primeiros grupos profissionais a ser atingido pelo contágio e óbito foi justamente dos médicos e técnicos de enfermagem nos serviços públicos de saúde, em que pese o conhecimento que detém sobre as precauções, tomadas no contato com os doentes e colegas de trabalho. Também não fica atrás, em contágio, em que pese o cuidado mínimo do uso de máscaras e luvas, os servidores públicos policiais que entram em contato com diferentes pessoas ao longo do dia. Da mesma forma, todos os demais trabalhadores de serviços essenciais, ou não, que prosseguiram no seu trabalho, resultando que no período de 29/04 a 29/05, passamos de 274 casos confirmados para 1.082, um crescimento de 400%, e de 01 óbito para 24 óbitos confirmados. E muitos destes contagiados, sabe-se, nem chegaram a sair de casa. Inquérito de saúde, em Nova York, verificou que 66% dos infectados o foram dentro de suas habitações.

E como isso é possível!?

Sabe-se que a Covid19 é transmitida por micro gotículas de saliva que, natural e involuntariamente, as pessoas expelem ao falar, tossir ou espirrar e que nos atingem quer em uma conversa, quer levado pela circulação do ar. Ou ainda, pela circunstância dessas micro gotículas se alojarem sobre superfícies, onde sobrevivem de alguns minutos, até 72 horas, como no caso de metais e plásticos, os quais venhamos a tocar com nossas mãos e em seguida leva-las ao rosto.

No caso concreto de Ribeirão Preto, o número de contagiados/dia segue em ascensão, ainda que 50% da população, tenha observado a primeira fase de distanciamento social. Os demais 50% transitando, de suas casas para os estabelecimentos de comércio e serviços, quer como funcionários, quer como clientes, e aos milhares, pelo transporte coletivo, cronicamente lotados, desde sempre, especialmente nos horários de pico, tornam-se vetores, ainda que involuntários, da transmissão da Covid19.

E o que fez, efetivamente, a administração pública para minorar a transmissibilidade por via do transporte coletivo. Numa primeira fase promoveu, sem acompanhamento de uma campanha de uso de máscaras, que veio a ser posteriormente adotada por diretriz estadual, e a redução do número de ônibus, o que resultou em mais aglomerações nos pontos e nos veículos e certamente contribuiu para as consequências que vivenciamos.

Claro que uma segurança absoluta, ou quase absoluta, só será possível com uma vacina, que na melhor das hipóteses estará disponível ao final deste ano. Nesse meio tempo teremos continuidade nos serviços essenciais, bem como em outras atividades, na medida que os demais parâmetros de saúde pública o permitam, desde que, dentre outros fatores, seja possível minimizar a taxa de contágio com providências urgentes ao alcance.

A partir de 01/06 uma nova fase de flexibilização do distanciamento, em prol do trabalho, consumo e renda, se estabelece, em Ribeirão Preto, com abertura do comércio em geral e shoppings em horário diferenciados e limitados, com restrição de ingresso e permanência no interior dos estabelecimentos e estacionamentos e que já leva a alguma aglomeração externa, além das já tradicionais aglomerações nos bancos e agências governamentais. Afora que no interior destes milhares de estabelecimentos comerciais, todos iniciando e encerrando simultaneamente suas atividades, teremos outros milhares de funcionários que a eles chegaram e dela sairão pelo transporte coletivo.

Conquanto Ribeirão tenha caminhado na direção correta manteve, ainda que diferenciados, o mesmo horário para o comércio em geral e serviços de escritórios, quando poderia ter promovido uma menor aglomeração nesses locais pelo escalonamento do horário de uma maior variedade de diferentes espécies de bens e serviços, e que levaria a diluição da aglomeração no transporte público por sua distribuição ao longo do tempo. Ou seja, Ribeirão Preto, adota manter, mesmo em época de pandemia e ao contrário da orientação universal dos especialistas de saúde, a crônica situação de milhares de pessoas aglomeradas nos pontos e no interior dos ônibus, facilitando assim o contágio.

Andamos na direção certa, porém, infelizmente, ao não promover um amplo escalonamento, possível e desejável, estamos mantendo, infelizmente, o vetor da contaminação pelo transporte público em grau maior do que seria desejável e possível de reduzir.

Andamos meio caminho e nesse caminho havia uma pedra onde Aquiles fraturou seu calcanhar e como as consequências vem sempre depois, na roleta russa da pandemia, sofreremos, todos nós, quer pessoalmente, quer por uma familiar, quer por alguém de nossa comunidade, que não precisaria ter partido, se outras factíveis providências tivessem sido, como ainda podem ser, estabelecidas em salvaguarda da saúde, do trabalho e da renda.

*ASSINAM O ARTIGO:
Deise Cristina Albuquerque Lins – Servidora – Dentista
Mario Sergio Ubeda – Servidor – Dentista
Wulf Galkowicz – Servidor – Fiscal Fazendário