Será que estou morrendo?

Se você já passou por isso que eu vou contar, vai entender direitinho.

Tive a certeza da morte iminente no meio da noite. Do nada, acordei apavorado, com uma batedeira louca e o desespero de sentir que meu coração não iria aguentar até o amanhecer. O formigamento aumentava a sensação de que aquilo com certeza era um infarto e tive de suportar em silêncio, sozinho, sem fazer barulho para não acordar a família. Sim, tive este sentimento de culpa até na hora de morrer. Estava prestes a deixar esta vida e não poderia incomodar ninguém. Teria que suportar a angústia até desfalecer de vez. E veio. Minhas pernas amoleceram, senti frio, dobrei os joelhos e morri.

Nasci num tempo em que os partos já eram em sua maioria na segurança dos hospitais. Mas, uma certa tranquilidade de meus pais em relação à ordem natural das coisas, me fez vir à luz em casa mesmo, com a ajuda de uma parteira. A senhora que me colocou para chorar pela primeira vez neste mundo teria chegado esbaforida para o chamado de urgência por conta de uma chuva forte e repentina de verão. Subiu correndo um lance de escadas que colocava nossa casa um pouco mais de um metro acima do nível da rua e, mais do que sentar, se jogou na primeira cadeira que encontrou no quarto da parturiente. Pronto. Feito o estrago. Minha mãe não conseguiu avisar a tempo que a cadeira estava quebrada, só encostada junto à parede a espera do conserto.

Como minha morte não passou de uma crise de ansiedade pontual e localizada,  pensei em transformá-la num negócio para ganhar dinheiro. Não a minha mortezinha passageira, mas a morte num sentido mais amplo da existência humana. Explico: sabe aquele momento em que você se sente muito vivo realmente, gostando de estar aqui, habitando este planeta? Da mesma forma, você há de concordar, “tem dias que a gente se sente, como quem partiu ou morreu”, como diria o cantor. Vida e morte, lado a lado.

O fato é que esta abordagem de vida e morte depende daquilo que percebemos, daquilo que sentimos no dia a dia. Podemos estar em determinado momento cheios de “anima”, empolgados, tomados de um bem-estar muito grande, recompensados com algum gesto, ato ou tarefa e nos sentimos mais e muito vivos;  em outras tantas horas a sensação pode ser contrária: falta-nos a “anima” ( de onde deriva o “desânimo”), sobrevem a estranheza de estar por aqui, neste plano, habitando um corpo findável e, mesmo sem a consciência deste estado, ficamos mais perto da morte. Vive-se e morre-se diariamente. Atenção: isto é diferente de nascer para a vida na hora do parto e morrer em definitivo na hora do infarto.

Minha vontade de ganhar dinheiro com isto já passou, mas não vou poupá-los da bobagem que engendrei. Imaginei uma start-up desenvolvendo um aplicativo movido a um algoritmo que identifique as nossas vidas e mortes durante o dia. Você poderia consultar na tela do celular e ver se naquele exato momento você está mais vivo ou mais morto. Painelzinho simples, tipo fases do Plano São Paulo; Verde: vida; Amarelo: purgatório; Vermelho: morte… Mas e aí? Qual seria a utilidade deste aplicativo? Motivar você a sair da fase vermelha, pular a amarela e ir direto para verde? Como? Não sei. Por isso a ideia certamente não viraria um unicórnio e não teria um investidor interessado.

Bispo Berkley se referia a uma tal de imaterialidade para explicar o nosso mundo feito de percepções. Exemplo: a maçã e seu gosto não existem sem a boca. O gosto só passa a ser percebido no momento em que levamos a maçã à boca e damos aquela dentada. Antes ou fora disso é o nada, é a falta de sentido e de existência. Assim são os livros alinhados na prateleira. Se você não abrí-los e decodificar o que está escrito para ter o mínimo de emoção, o livro não é nada. Aliás, não é de agora, com o governo querendo sobretaxar as editoras, que a situação dos livros é delicadíssima. Os antigos mestres (Cristo, Buda, Sócrates) não deixaram uma linha escrita, eram exelentes oradores e tiveram suas palavras interpretadas, torcidas, retorcidas e registradas por apóstolos, escribas profissionais ou amigos.

O sentimento ou percpeção de que estamos mais vivos ou mais mortos depende, portanto, de um elo de ligação, de alguma coisa que nos traga esta ou aquela sensação de vida ou morte, depende de nossa decisão de levar ou não a maça à boca, depende de arriscar um gesto apaixonado em meio à rotina massacrante de nossos dias, depende da coragem para um  gesto de afeto, amor ou desejo.

Jorge Luis Borges ensinou um exercício prático e eficiente para acionar o modo “vida” que  serve direitinho nestes tempos de afastamento e saudades provocados pela pandemia. Experimente imitar a voz de alguém que você gosta muito e está distante. A voz do seu pai idoso, ou daquele que já morreu, a voz do seu melhor amigo, a voz de alguém que você admira, pode ser até um cantor da sua preferência. Acaso não consiga atingir o timbre desejado, imite um trejeito, uma mania, e assim você estará levando a maçã à boca com certeza.

Platão sentiu saudades de Sócrates e quando se pegou pensando sobre o que o amigo diria a respeito de determinada dúvida filosófica, de certa forma, praticou o exercício que Borges ensinaria séculos mais tarde. Imitou a forma de pensar do amigo, conversou com a alma de Sócrates e assim, eternizou, por escrito, o alicerce da filosofia que conhecemos. Platão trouxe à vida ideias, pensamentos, conceitos, questionamentos que poderiam simplesmente evaporar após mais um discurso de Sócrates. Hoje, todo este conhecimento esta à disposição na forma de um livro, ou arquivo digital, mas depende de você estabelcer a conexão para dar vida e sentido a tudo isto.

A propósito da minha vida comezinha (não a vida sentida), cumpre lembrar que a parteira chamada para proceder meu parto espatifou-se no chão após sentar na cadeira que estava apenas encostada. Minha mãe nunca confirmou, mas suspeito que a gargalhada dela deve ter sido inevitável,  o que – suponho –  tenha me ajudado a ver a luz deste mundo.