Se a realidade pode ser escrita de forma diferente, ela também pode ser vivida de outra forma?

Caminhe nesta leitura até o terceiro parágrafo, pelo menos. E a partir de lá vamos juntos perceber que tudo pode ser algo novo. Quando uma criança nasce, ela já está inserida num mundo de regras, dados e fórmulas prontas. Imediatamente, ela recebe um nome e um número. Crescerá numa família com comportamentos fixos. Na escola, receberá códigos de linguagem e desenvolverá a fala e a escrita dentro de um padrão. Terá diante de si, quando se perceber adolescente, uma sociedade baseada totalmente em normas e, até aí, vai enxergar o mundo apenas de um ponto de vista – que fora determinado o tempo todo pelo modelo da imensa maioria.

A juventude, quase sempre, é muito mais “revolta” do que “revolução”. E há uma diferença enorme entre as duas palavras. A primeira, apenas arma os dentes, causa desconforto e provoca reações improdutivas, violentas. A segunda, certamente pode mudar o seu destino e o futuro de outras pessoas. Não é apenas reagir, mas principalmente “agir”, fazer nascer de si uma nova fórmula de ler a vida e, assim, vivê-la.

Não desista de ler o texto, se você chegou até aqui. Você já conseguiu o que grande parte dos brasileiros não consegue: iniciar uma leitura de um assunto diferente. Já tinha lido sobre isso? Bom, é assim que os grandes avanços acontecem no planeta. Se os cientistas tivessem parado no primeiro obstáculo, ainda estaríamos à luz de velas e andando de cavalos, fazendo partos no meio de descampados, morrendo das doenças mais simples.

Sobre viver uma nova realidade, como se consegue isso? Como fugir do abismo dos padrões, dos modelos prontos, que a maioria veste e usa todos os dias? Uma das respostas está em aprender a ampliar sua forma de “descrever” a vida, de trabalhar sua capacidade de encontrar “novas palavras”, sim, e caminhos novos de usar essa “linguagem” que precisa ser “inventada” por cada um de nós. Com novas palavras, e novas formas de combiná-las entre si, você vai perceber que há infinitos mundos dentro desse mesmo mundo que, até hoje, era o único que você conhecia. E tudo em razão de uma série de normas aplicadas desde que éramos criança – lembra-se do primeiro parágrafo?

E esse segredo de mudar o que enxergamos (por fora e por dentro de nós) foi descoberto há muitos milhares de anos. Deram para ele, para o segredo, o nome de poesia. Calma, não se assuste. Poesia não é difícil, nem é mais segredo. Aliás, poesia não se trata apenas de escrever e ler, mas essencialmente de senti-la e vivê-la. Poucas pessoas, contudo, se permitem ler, escrever, conhecer, sentir, viver a vida poeticamente. A poesia nos ensina, primeiro, que não há apenas uma fórmula de escrever. Nos mostra que podemos combinar palavras para descrever um sentimento de uma maneira que nunca imaginávamos. A poesia empresta aos nossos olhos umas cores que não pensávamos. Você pode, pela poesia, escrita, lida, vivida, encontrar palavras novas para interpretar a realidade e para dar um ponto de vista diferente do que as outras pessoas afirmavam que era o único (e agora sabemos que nunca foi, na verdade). A poesia valoriza o “nada” também. E esses “nadas” escondem coisas saborosas, precisas, necessárias, que não aprendemos a dar valor – tudo pela maneira como nos ensinaram as coisas.

Quase todos os seres humanos acabam tendo, portanto, um caminho praticamente igual durante toda a vida. Já pensou nisso? Acordam cedo, vão para o trabalho, almoçam, voltam ao final do dia, jantam, assistem a uma novela, futebol, dormem e retomam tudo no dia seguinte. E como encaixar a poesia nessa vida estressante e “obrigatória”? Ora, nada é obrigatório. Porque obrigado é tomar dos outros para si. E tomar não é receber, compreende? Você gostaria de receber um abraço de uma amiga ou tomar isso dela? Gostaria de obrigar seu filho a ser amoroso ou de despertar isso nele, para poder receber depois?

Os chineses têm um ditado bacana: “o caminho é o não-caminho”. Ou seja, se você seguir os passos de outra pessoa, só poderá chegar até onde ela chegou. A poesia nunca teve um começo, e por isso não pode ter um fim. Ela habita a Terra antes de nós e ficará ainda depois que passarmos. Antes de sentar à mesa da cozinha para escrever este texto, eu estava regando as flores aqui de casa. Temos plantas, flores, poemas dentro de vasos. Há quanto tempo você não oferta água para suas plantas, para suas flores? Tem flores em casa? Reais ou imaginárias? Nenhuma? Pode começar amanhã. Ou hoje. E eu lhe pergunto: qual a função prática, utilitária, de uma roseira? Não há. Mas ela dá um sentido à vida de uma forma que só a poesia do encantamento pode explicar.

É isso que queria lhe transmitir. Não tenha medo dos livros, das palavras novas, dos novos jeitos de interpretar o mundo, a sua realidade. Não tenho medo do mundo exterior, nem do seu mundo interior, que é o principal. Se você conseguir mais palavras e formas de combiná-las, você consegue pisar numa outra dimensão, que a gente pensa não existir, mas que existe e é muito melhor que essa que nos foi imposta. Não, não se vire agora e comece a culpar os outros. Todos fomos criados assim. Mas daqui para frente temos a chance de oferecer aos outros uma pessoa diferente em nós mesmos.

Este nono parágrafo finda o texto. Mostra que você é diferente, porque chegou até aqui. Tenho um café fresco na mesa, preparado pela minha esposa. Estou com meus filhos do meu lado, soltos dentro de casa. Ainda não tenho todas as palavras de que preciso. Mas com essas estou chegando a outras. Há muito eu não cabia no mundo, me sentia do lado de fora de tudo. Foi pela poesia que me fiz pertencer a alguma coisa. Nasça de dentro para fora. Pratique a vida com olhos de infância. Seja generoso com você, com as palavras. Seja quem você quiser ser, como esta tarde aberta em que lhe escrevo de minha Ribeirão Preto. Por você, por mim. Pelos dias que viveremos juntos, mesmo sem nos conhecer. Pela beleza da poesia que habita o coração humano.