Ribeirão – Goiânia: duas escolhas, dois destinos

Todos sabemos que não há, hoje, lugar algum livre da pandemia. Populações e governos, no mundo e no Brasil, enfrentam a necessidade de proteger a vida e o trabalho. Dificuldades há por toda parte, conquanto não sejam as mesmas pois a fase natural evolutiva de contágio varia entre diferentes localidades. Algumas, aparentemente, já a superaram, outros, como nós, ainda nos encontramos no olho do furacão.

Também é universalmente sabido que a Covid19 se transmite por micro gotículas de saliva que podem nos atingir diretamente numa conversa ou indiretamente quando tocamos numa superfície contaminada e com nossas próprias mãos levarmos o vírus ao rosto. Também já sabemos que a maior probabilidade de tocarmos em superfícies contaminadas é onde ocorrem aglomerações, quer em estabelecimentos quer no transporte público terrestre, marítimo ou aéreo, que, aliás, foi o vetor da chegada do vírus da Ásia para Europa e daí para a América. Por isso o uso de máscaras e a necessidade de permanente assepsia das mãos com gel ou sabonete. O banho e a troca de roupas e sapatos ao entrarmos em casa.

Em Ribeirão Preto, superado o impacto inicial da chegada da pandemia, enfrentada com o fechamento de atividades, exceto as essenciais, organizado o sistema de saúde de modo que pudesse absorver novos casos, procedeu-se a flexibilização, na expectativa de que a curva de contágio se não declinante, pelo menos permanecesse estabilizada. Nesse sentido, a administração pública determinou a redução dos horários de funcionamento dos estabelecimentos mantida uma redução relativa do número de veículos do transporte público, na suposição que estas duas medidas contribuiriam na diminuição do afluxo de pessoas aos pontos de comércio e serviços. O resultado concreto de tal orientação foi de que ao contingente inicial de funcionários e usuários de serviços essenciais, vieram se somar outros milhares de funcionários e usuários de outras atividades liberadas. Quem por décadas se aglomerava no crônico superlotado transporte público de Ribeirão continuou, nas últimas semanas, a fazê-lo, ainda que não após oito horas de trabalho, mas sim quatro. Quem antes tinha um horário mais prolongado para adquirir bens e serviços, teve que passar a fazê-lo em horário concentrado de 4 horas. O resultado dessa fórmula veio a galope impulsionando as curvas de contágio e de óbitos e com elas a volta da restrição, não de uma ou outra atividade, mas de todas as atividades que não as essências.

Poderia ter sido diferente?!

Em artigos anteriores, sugerimos o escalonamento dos horários não só das atividades de comércio, serviços e indústria entre si, mas também das suas diferentes espécies de modo que a distribuição de funcionários e usuários se desse ao longo das horas e não concentradamente, de modo a evitar aglomerações tanto no transporte quanto no passeio público, à porta e no interior dos estabelecimentos. Claro que essa proposição, não se concretizou em Ribeirão Preto.

Goiânia, capital que também tem suas próprias dificuldades e possivelmente esteja numa diferente fase da evolução natural da pandemia, adotou modelagem de enfrentamento na linha por nós apresentada. Possivelmente, não porque tenham lido nossa sugestão, mas por terem, os gestores, os epidemiologistas e especialistas em saúde, representantes da sociedade civil, empreendedores e trabalhadores, tido o mesmo convencimento científico e lógico, em seu processo de diálogo.

Os diferenciais populacionais e territoriais entre Ribeirão Preto e Goiânia podem ser vistos nos dados mais recentes do IBGE.

TABELA 1 População Área Urbana Densidade Esgotamento

Sanitário

Goiânia 1.500.000 256 Km2 1.776 Hab/Km2 76 %
Ribeirão 703.000

1.500.00×46,87%=703.050

127 Km2 928 Hab/Km2 98 %

Conforme se vê, na Tabela 1, Ribeirão tem 47% da população de Goiânia ou seja 53% menos de população do que Goiânia. A extensão urbana de Ribeirão tem a metade do tamanho de Goiânia e com uma menor densidade populacional. Ou seja, Ribeirão Preto tem uma menor aglomeração de pessoas, no espaço urbano, do que Goiânia. O que do ponto de vista epidemiológico é uma vantagem comparativa. Além disso Ribeirão tem 98% de seu esgoto tratado, o que é mais uma vantagem comparativa do ponto de vista da saúde pública, relativamente a Goiânia que tem apenas 76% de seu esgoto tratado.

Quanto a economia, conforme Tabela 2, se constata que Ribeirão Preto tem uma maior renda per capita, ainda que sua população ocupada, no mercado de trabalho seja menos que a metade de Goiânia. Ou seja, temos menos pessoas se movimentando em função do trabalho e destas uma proporção idêntica de trabalhadores de muito baixa renda.

TABELA 2 Renda Per Capita Pessoal

Ocupado

Rendimento Médio até ½ Salário Mínimo
Goiânia 33 mil 676 mil 27,8 %
Ribeirão 51 mil 265 mil 27,8 %

Do ponto de vista epidemiológico, Ribeirão Preto tem, portanto, nesses quesitos, total vantagem comparativa, em relação a Goiânia, no enfrentamento da pandemia, quer por ter que concentrar um menor contingente de pessoas no trânsito e em aglomerações para fins de trabalho e de consumo de bens e serviços.

E com todas essas vantagens comparativa o que sucedeu com Ribeirão Preto e Goiânia em consequência de suas escolhas?!

Por motivo de Ribeirão Preto não divulgar os números de internações em Enfermaria e UTI, nos fixaremos nos dados de casos confirmados e óbitos acumulados, divulgados por ambas as cidades.

COVID CONFIRMADOS – até 13/06/20    
Goiânia 3.218
Ribeirão Esperáveis 1.508 – 46,87 %
Ribeirão Realizados 2.321 + 53,91%

Ou seja, para uma população de Ribeirão Preto, com menor densidade populacional e melhor condição sanitária, à primeira vista, seria de se esperar que o contingente de casos de covid confirmados guardasse a mesma ou até mesmo menor proporção do que a incidente em Goiânia. Infelizmente ao contrário de um menor número de casos esperáveis, proporcionais à população, de menos 46,87% ou 1.508 casos, Ribeirão alcançou um percentual, a maior, de 53,91%, ou 2.321 casos, relativamente a Goiânia.

COVID OBITOS – até 13/06/20    
Goiânia 86
Ribeirão Esperáveis 40 – 46,87 %
Ribeirão Realizados 59 + 47,50%

Quanto ao número de óbitos acumulados, enquanto o esperável para Ribeirão Preto seriam 40, tivemos, até então, 59, ou 47,5% a mais de óbitos, relativamente a Goiânia. E isso porque contamos com o ótimo Hospital das Clínicas da USP e outros hospitais do SUS e o competente corpo de servidores da saúde da Prefeitura de Ribeirão.

Esses são os dados de hoje, que claro podem se alterar dependendo das diferentes dinâmicas de difusão e enfrentamento da pandemia, adotadas em cada localidade.

Evidente que essa trágica situação para a vida, o convívio e o trabalho, afora os gastos com a rede de saúde, não precisariam ter ocorrido nas proporções que tomaram em Ribeirão Preto. Claro também que a própria população é responsável pelo ônus que sobre todos nós se abate, com a desabalada corrida às lojas que se viu nas duas semanas anteriores. Era quase um Natal embora a maioria portando máscaras, no entanto se aglomerando à porta dos estabelecimentos, nos passeios públicos e principalmente no transporte público. Gel e medição de temperatura a porta dos estabelecimentos não substituem, nem neutralizam os efeitos da aglomeração, no transporte, de funcionários e consumidores, ainda que tenham permanecido apenas 4 horas em seus locais de trabalho.

Essa segunda quarentena de Ribeirão passará. Que o poder público providencie amplo programa de testagem, hoje recôndito aos casos mais graves aportadas à rede de saúde, e assuma sua função indelegável de coordenação e reúna, de forma aberta, os epidemiologistas, especialistas em saúde, representantes da sociedade civil, empreendedores e trabalhadores, para que a próxima flexibilização não se dê com os equívocos da anterior e que as diferentes espécies de atividades de comércio e serviços sejam organizadas de forma escalonada quanto ao início e término, mesmo dentro dos grandes centros comerciais e de serviços, de tal modo que o fluxo de funcionários e consumidores se dilua ao longo do dia, em benéfico da vida e do trabalho e não mais como reféns, de um transporte público cartorial. Goiânia o fez. Não há por que Ribeirão Preto não possa também fazê-lo.

Co-autores:

Deise Cristina Albuquerque Lins – Servidora – Dentista
Mario Sergio Ubeda – Servidor – Dentista