Quem tem medo do Lobisomem da Vila Tibério?

Quem nasceu na Vila Tibério sabe o que é medo de lobisomem. Não tem como negar:  toda sexta de lua cheia ele uiva de dar arrepio em cerca de arame farpado. Começa lá pelas onze e quinze, um uivinho sem graça, misto de chiado de gato e rangido de porta, mas vai crescendo, tomando a imensidão da Praça Coração de Maria, e fica forte, bem forte, uma espécie de eco de onça e risada do coisa-ruim. Ninguém que é Tiberense  de carteirinha ousa sair de casa. Dura meia hora, nem mais nem menos.

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A pontualidade é marca registrada. Subir a Conselheiro Dantas até a Bartolomeu de Gusmão é uma aventura que nem o meu amigo Tanajura, corajoso lutador de boxe, se atreveria a fazer. O lobisomem da Vila Tibério tem grife. Dono de uma sofisticação invejável. Nunca atacou velhinhas ou pedintes. Seu alvo são os machões, de preferência os chifradores sem piedade. O Lobisomem da vila odeia os que traem suas mulheres, namoradas ou coisa parecida. Sobe-lhe o sangue aos olhos. O enxofre toma conta do corpo e o bicho não tem a mínima compaixão.

Conta um velho índio que morava na Jorge Lobato e foi amigo pessoal do Lobisomem, antes mesmo de ser a besta que é, que ele veio lá das bandas de Uberaba, nos trilhos da Mogiana, e vendia perfumes pra ganhar a vida. Entre idas e vindas, apaixonou-se por uma moça de má fama, que dançava no Cassino do Caçulé, um dos puteiros mais famosos da região. A moça era vidrada nos perfumes que o Lobisomem, antes de ser Lobisomem vendia. A paixão entre eles começou e aos poucos foi tomando prumo, a ponto de marcar casamento. Entretanto o que era pra ser doce e eterno acabou em tragédia. Dois dias antes do casamento, um velho freguês da moça, num átimo de loucura, rasgou a menina inteira com uma navalha francesa bem afiada. O noivo endoideceu, procurou pelo assassino e comeu-lhe todas as partes, inclusive as íntimas. Desse dia em diante, Lobisomem virou e jurou vingar de todos os corneadores da cidade.

O interessante é que o Lobisomem da Vila Tibério quando ataca, deixa um rastro de perfume no ar, fato que confunde toda a gente, que mal sabe ser ternura ou tragédia. Nem o saudoso Padre Zezinho, que chegou a enfrentar cara a cara a besta, bem perto do bar do Paciência, explicava a todos naqueles sermões intermináveis a razão de tudo aquilo. Sabe-se que a vila tem seus mistérios e seus segredos. Eu tinha medo do Lobisomem até o dia em que o conheci. Foi um acontecimento inimaginável nas trilhas da minha vida. Quando fui estudar no Santos Dumont, eu que morava na Conselheiro Saraiva, fiquei apaixonado por uma garota estranha, tímida e branquinha que morava bem perto de casa. Íamos à escola juntos. Mal falávamos, nem olhares trocávamos, Apenas nossos corações se comunicavam, num léxico nebuloso e estranho.

Numa sexta-feira, daquelas despretensiosas e amenas, ela me convidou para terminarmos um trabalho escolar na casa dela. O sim foi imediato e fraterno. A velha casa abrigava uma papelaria na frente. O fim de tarde foi recheado com o a noite, que se acolheu sem a minha percepção. De repente, um senhor entra na sala. Só me lembro da voz da menina dizendo não ao pai. A visão clareava. Era ele ali, na minha frente. Havia metade de mim e metade de vento na cena. Trocamos olhares. Ele sorriu. As mãos peludas e unhas afiadas destilavam um perfume cítrico. Nada mais dissemos um ao outro. Desci a Conselheiro Dantas até a minha casa, absorto, absoluto e abismado. O Lobisomem da Vila Tibério existiu em mim. Não tenho medo dele, tenho saudade do seu perfume, como das ruas da minha vila.