Que saudade dos idiotas de antigamente!

Ainda jovem imberbe – tinha então oito ou nove anos – estudei com o rapaz chamado Fernando na Escola Estadual de Primeiro Grau Professora Hermínia Gugliano, no seio da Vila Tibério, o melhor bairro do mundo. O sobrenome do mancebo recordo, mas pouparei a família do desgosto de nomeá-lo. Muito boa praça, era um rapaz corpulento e com um coração gigante. Muito querido por todos. Infelizmente, entretanto, o que tinha de bom tinha de burro. Era um verdadeiro asno, certamente com algum problema mental que ninguém conseguia identificar. De dez perguntas, errava 11. Sempre entre os piores da sala. Era difícil até conversar com ele de forma normal.

Mais velho – tinha dois anos a mais que eu – Fernando já tinha reprovado, quando estudou comigo, duas séries. E reprovou também terceiro ano que fizemos juntos. A despeito de todos terem certo apreço pela figura de Fernando, era o mais zuado na escola. Alunos de outras salas, movidos por uma curiosidade meio mórbida, se aproximavam para puxar conversa com ele e perceber, no fim, que, de fato, ele era tão asno quanto falavam. Até as professoras, meio que clandestinamente, ameaçavam, entre as aulas, os mais atormentados e indisciplinados: “Ou estuda, ou vai ficar igual o Fernando”.

Fernando não se importava. Tinha, ao menos, plena consciência de que inteligência não era seu atributo principal. Sempre teve boas notas nas aulas de educação física e não se saia mal nas artes. Quanto ao resto, não me recordo de uma nota superior a D que tenha tirado em toda a vida.  Mas, dois anos mais velho e corpulento como era, desencorajava brincadeiras excessivas. O físico compensava a falta cérebro.

Lembrei de Fernando porque, do alto de nossos oito ou nove anos, nós, alunos, tínhamos muitas certezas. Éramos espertos. Certo dia, falando sobre a Terra, conversamos sobre como provar ela era redonda. Fernando se assustou. “Mas a Terra é redonda? Quem falou?”, perguntou, incrédulo.

Evidentemente, foi motivo de chacota por meses.

Termino a história e faço um parêntese. Já próximo aos meus 40 anos, costumo dizer, em tom de brincadeira – mas não sem verdade – que nenhum ser humano pode ser privado do seu sagrado direito de ser idiota. Cada pessoa no mundo tem o direito inalienável de pensar a sandice que quiser, e isso não deveria ser um problema para ninguém.

Evidentemente, pensamentos não significam o mesmo que ações. Para coibir ações, existem as leis. Mas não se deve punir o pensamento, apenas a ação. Mesmo o desejo mais nocivo, a ideia mais estapafúrdia,  o pensamento mais boçal são sacrossantos, devem ser preservados. Afinal, o direito de ser idiota é talvez o mais fundamental de todos os direitos humanos.

O ser humano, entretanto, está abusando desse direito tão caro. E, quando se fala em redes sociais, a situação é ainda mais emblemática.

Se eu fosse presidente do mundo por um dia, acabava com todas as redes sociais, de uma só vez, por prazo indeterminado. Através delas, o idiota não só passou a expressar, aos quatro ventos, seus dejetos intelectuais como se sentiu acolhido por outros idiotas da mesma lavra. Se antes havia um medo de ser repreendido, uma necessidade de manter sua demência escondida, esse tempo se foi há muito.

Lembro-me de Fernando e sua consciência de sua burrice, quase ilimitada. Raramente discutia, aceitava tranquilamente as correções e seguia a vida, da melhor forma que conseguia. Pouco falava, menos nas brincadeiras esportivas, tentando não deixar tão evidente seus problemas intelectuais. Mas idiotas à moda antiga não existem mais, infelizmente.

Hoje, na companhia de outros milhões de pares, vale tudo. Vale expressar racismo, xenofobia e disseminar fakenews à vontade. Até defender que a Terra é plana está valendo, nos tempos atuais.

Tempos atrás, por mero acaso, recebi um convite de Fernando no Facebook. Reconheci imediatamente a figura do meu antigo amigo de escola e entrei em seu perfil.

Acreditem, ele defendia, publicamente, o movimento terraplanista em suas redes sociais. Pelo que percebi, tinha até uma certa liderança sobre outras pessoas, que expressavam ideário semelhante.

Falou aminadamente comigo, disse que tinha se separado recentemente. Deixou a escola ao fim do Ensino Fundamental, mas recentemente estava terminando o Ensino Médio, via supletivo. Tinha dois filhos.

Perguntei a ele se o lance da Terra Plana era piada. Muito sério, respondeu que não. Que nunca tinha entendido direito, mas que agora a coisa fazia sentido. Encerrei a conversa. 

Fiquei com dó das crianças.  

E tive uma certeza… Quero aquele Fernando da escola de volta!