Preguiça: de pecado capital a virtude decantada no isolamento

“Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos.” A frase é do dramaturgo Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781), virou epígrafe de um texto clássico sobre o assunto, de Paul Lafargue (1842-1911), e abre este nosso quarto artigo sobre os pecados capitais.

Em tempos de isolamento, de cárcere compulsório no lar, a prática dos pecados está em alta, especialmente a gula, a ira, o tédio existencial e o voyeurismo televisivo. Mas o que está pegando mesmo neste pandêmico momento é uma monumental e secular PREGUIÇA!

Macunaíma, nosso grande herói “sem nenhum caráter”, logo ao nascer, balbuciou: “Ai, que preguiça! Ai, que preguiça!” Esse bordão viralizado por Mário de Andrade se tornou o mantra do brasileiro e redundou em outro: “Trabalhar é coisa de trouxa, de otário”. O famoso malandro ganhou até ópera: “vai trabalhar, vagabundoooo”…

A palavra “preguiça” tem origem no termo em latim pigritia, que remete a uma característica ou atitude que demonstra pouca disposição ao trabalho, ou aversão a pegar duro no batente. Está também relacionada a negligência, indolência, mandriice, demora ou lentidão em praticar qualquer ação.

A preguiça se revela através da morosidade ou lentidão em cumprir alguma tarefa, seja ela física ou mental. Apesar de não ser considerada uma doença, a indolência pode ser um sintoma característico de algumas patologias, como depressão, catatonia, melancolia, baixa autoestima e alcoolismo.

Para os religiosos, após o pecado ter entrado na nossa existência terrena, o Todo Poderoso impôs ao homem “a lei severa e redentora do trabalho”: “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado” (Gênesis 3,19). A partir da tragédia do pecado original, o trabalho passou a ser um veículo redentor para o homem, além de ser o meio pelo qual ele é chamado a cooperar com Deus na “obra da construção do mundo”.

As letras sagradas negam, mas é uma punição, sim, embora seja ainda um convite, “uma honra que Deus concedeu aos homens”. O Senhor derrama sua graça sobre aquele que trabalha com diligência e este é o caminho para a perfeição. Não foi sem razão que Confúcio postulou: “Deus colocou o trabalho como sentinela da virtude”.

O protestantismo implicou uma nova configuração dos aspectos subjetivos do trabalho, ainda dentro dos marcos de uma sociedade religiosa. Seu significado foi alterado a partir dos preceitos impregnados pela Reforma. A atividade laboral afirmou-se como um valor desejável, necessário e sinal de reconhecimento.

Exemplo prático: até então, quando o tempo pertencia a Deus, eram proibidos a usura e o cálculo exato de trabalho. Calvino especialmente – mas não apenas – resolveu esta questão e assim o capitalismo ganhou grandes aliados: a cobrança de juros e a carga horária dos trabalhadores passaram a ter o aval de Deus.

Nova velha ordem

A vida virtuosa completa-se no trabalho e é extremamente condenável a vida ociosa. Todos devem trabalhar, inclusive aqueles que dele necessariamente não precisem. O trabalho passa a ser uma exigência social, e como tal, assume uma configuração de distinção junto aos outros. Agora, sim, pode ser fonte de riqueza, pois agrada inclusive a Deus.

Assim, passa-se de uma subjetividade resignada (trabalho-redenção), própria dos primórdios da sociedade religiosa do período medieval para uma subjetividade afirmativa (trabalho-glorificação), até uma subjetividade da emancipação (trabalho-liberação) conquistada no bojo da ascensão do liberalismo.

Postulamos que a subjetividade da emancipação, no sentido de que o trabalho não é mais fonte de vergonha, mas a chave para a conquista da felicidade e de pertença social. Evidentemente que essa transição dos sentidos do trabalho é consoante a uma sociedade que se encontra no umbral da formação capitalista e serve, assim, de justificação à ascensão econômica da burguesia emergente.

É tão importante o trabalho para o homem que o Talmud dos judeus diz: “Nenhum trabalho, por mais humilde que seja, desonra o homem”. E ainda: “Não ensinar o filho a trabalhar é como ensinar-lhe a roubar”. E uma máxima rabínica dizia que “o trabalho mais duro do mundo é não fazer nada”.

Preguiça, mãe das artes!

Por outro lado, o manifesto citado no início, “O Direito à Preguiça”, de Lafargue, parece ressuscitar: em plena década de 1880 reivindicava vários direitos dos operários, como redução da jornada de trabalho, direito a uma vida alheia ao trabalho, entre outras. Para ele, a classe operária deveria lutar não para exigir os Direitos do Homem ou o Direito ao Trabalho, mas reivindicar um trabalho digno “não mais de três horas diárias”.

Ainda exclama: “Preguiça, tenha piedade de nossa longa miséria! Preguiça, mãe das artes e das virtudes nobres, seja o bálsamo das angústias humanas”! Já conotada como pecado capital, a preguiça é questionada: até que ponto isso é correto? Sob a ótica do autor citado, “a preguiça é um direito de todo trabalhador”.

Em se tratando de Brasil, a preguiça relaciona-se tanto ao atraso econômico do país quanto à nossa malandragem e jeitinho nacional de deixar tudo para o dia seguinte. Poderia ser a preguiça uma forma de rebeldia ou resistência diante da super exploração do trabalho? Mas as pessoas acabam tão sucumbidas ao trabalho que aquele que não está trabalhando não é bem visto pela sociedade.

A preguiça é um conceito inventado pela cultura. A preguiça é, portanto, um conceito inventado pelo homem. A preguiça consiste na aversão ao trabalho. O oposto da preguiça é a diligência, o trabalho. O elemento fundamental que faz da preguiça um dos sete pecados capitais é o DESEJO, ou melhor, a falta de desejo. O preguiçoso não faz nada com os próprios desejos e isto torna sua vida infrutífera. Para vencer a preguiça é preciso trabalhar, mas para trabalhar é preciso ter desejo e fazer algo útil com ele. O preguiçoso necessita resgatar o desejo dentro de si e “mexer” com ele.

Vivemos, porém, novíssimos tempos –agora é verdade! Antes mesmo desta pandemia, grandes empresas já tinham dificuldades não só em atrair novas talentos como também em mantê-los em suas corporações. Jovens de 20 e poucos anos parecem se caracterizar pelo desapego e querem cada vez mais trabalhar menos e terem mais lazer… A solução talvez tenha sido prevista pelo psicanalista Daniel Kupermann, que fala em “dimensão positiva da preguiça”. Trata-se de “promover um estado de contemplação criativa. O vazio psíquico, que não é sinônimo de falta, é uma abertura para a criação. Ficar se ocupando demais é uma maneira de não experimentar novos modos de existência, disse ele ao jornal O Globo.

Viva o 1º de maio!