Pra que mundo caminha a humanidade?

Quanto conhecemos de nossa história? Sabemos com que tipo de formação, de educação, de cultura, chegamos até aqui? Como estamos nos “comportando” no presente, como nos sentimos hoje? O futuro não acontece deslocado dessas perguntas. É preciso entender isso. O futuro é tão somente uma consequência de nossas ações e sentimentos vividos nos dias atuais. O futuro é amanhã. E os amanhãs vão se somando em meses e anos. Quanto há de responsabilidade dos governos sobre nossas vidas? E quanto nós somos responsáveis pelos mais bárbaros e autoritários governos que existiram e ainda existem?

“Um Estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que os chefes políticos de um Poder Executivo todo-poderoso e seu exército de administradores controlassem uma população de escravos que não tivessem de ser coagidos, porque amariam sua servidão.” Esse texto, esse pensamento, está no prefácio do livro Admirável Mundo Novo, do autor inglês Aldous Huxley (1894-1963), publicado em 1932.

Essa sociedade do futuro, imaginada ou profetizada por Huxley, seria formada por pessoas pré-programadas genética e psicologicamente. Lá, existe uma fábrica de “seres humanos”, com esperma e óvulos separados, conforme a casta, o nível de cada membro que vai nascer. Todos ali têm um papel determinado e, sem questionar ou sonhar com algo diferente, gostam daquela vida, porque recebem pequenas “doses de felicidade” doadas pelo governo, que cuida da programação das tarefas diárias do povo e de todos os momentos da vida dos cidadãos.

O totalitarismo é uma versão disso. Fazem parte do totalitarismo regimes políticos como o fascismo, o stalinismo, o nazismo. As características desses governos são a doutrinação (repetição exaustiva de mensagens, geralmente criadas para iludir, como as atuais “fake news”, controle da Educação, da Cultura, censura, exaltação do nacionalismo, perseguição, terror e forte presença militar).

Crianças presas no campo de concentração nazista de Auschwitz, no sul da Polônia – Foto: Alexander Vorontsov. (GALERIE BILDERWELT GETTY IMAGES)

Quase sempre esses regimes são baseados na expectativa da população de uma vida melhor, de um mundo novo, idealizado, sem riscos. Todas as pessoas pensam, ou acham que pensam, de forma igual. No Brasil, temos como maior destaque a Ditadura Militar iniciada em 1964, quando ocorreram perseguições, prisões, tortura, assassinatos, dentro de uma forte censura.

Mas esses regimes já ficaram para trás, certo? A resposta é não. Porque a maioria da população desconhece o seu passado. Dessa forma, não podem se libertar dele, como diz o professor e historiador israelense Yuval Noah Harari. Segundo ele, temos urgência em repensar a condução da vida humana, ou corremos o risco de viver a ficção criada por Huxley, mediante desejos nefastos de governos e o lado obscuro da tecnologia.

Todas as mudanças que acontecem na sociedade são originadas pela insatisfação ou pela necessidade individuais ou coletivas. Em seu último livro, 21 lições para o século 21, Harari nos deixa mais perguntas do que oferece respostas. Estamos num momento de grave transformação. Não mais do que está fora de nós, mas, agora, do que está dentro, do que nos forma. Somos seres criadores de milhares de tecnologias e, com a mesma rapidez que as criamos, não sabemos quais seus reais benefícios, ou se verdadeiramente há benefícios.

Podemos trazer para esta conversa os ensinamentos do sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017). A mesma capacidade de gerar questionamento de Harari está em Bauman, para quem a modernidade é simplesmente “líquida”, escorre, não se sustenta, muda do dia para a noite. “A única certeza é a incerteza”, diz. As relações humanas estão vazias de sentido. Hoje, uma amizade se faz num clique, e também num clique ela se desfaz. Nada dura. Nada se solidifica. Por isso tanta angústia, que significa incerteza sobre o futuro. Desse sentimento, nos apegamos ao passado, tempo em que, erroneamente, nos sentimos mais seguros, permitindo-nos até entender que lá atrás havia algo melhor, justamente como governos autoritários. Dessa fluidez, dessa liquidez, e sem informação, sem conhecimento, aceitamos o que repetidamente nos vendem como verdade. O médico austríaco Sigmund Freud (1856-1939), criador da psicanálise, chegou a dizer que um dia trocaríamos “liberdade por segurança”, que aceitaríamos uma dose diária de prazer, uma felicidade quantificada, em vez do risco de assumirmos a nossa vida – algo parecido com o que Huxley fala em Admirável Mundo Novo.

Somos, profundamente, 7,7 bilhões de seres humanos à procura de afeto. E torna-se cada vez mais evidente que jamais vamos conseguir isso sem a presença física ou apenas por meios virtuais. Antes, tínhamos nossa “rede real” de amigos, com quem trocávamos sentimentos, experiências, abraços, sorrisos e lágrimas reais. Hoje, nos expusemos nas redes virtuais como produtos em vitrines, em busca de acumular aprovação e, por conseguinte, relações afetivas. Para Bauman, somos vorazes consumidores e, ao mesmo tempo, tristes mercadorias.

Tornamo-nos a geração do instantâneo, do imediato, não aceitamos mais a espera, nem o amanhã. Tudo é urgente e vital. E quando o governo não nos garante políticas públicas para uma existência coletiva digna, o mercado, as empresas entram com as soluções individuais, nos afastando ainda mais do conceito de sociedade. Cuidamos de nos armar, de nos refugiar em condomínios, de instalar câmeras em nossas residências, de andar de carro com vidros fechados, blindados. O medo é um grande gerador de lucro.

Neste século 21, enfim, deixamos de criar vínculos que duram, que permanecem. Somos seres de tratos superficiais. Escolhemos amigos pelo que eles podem nos oferecer de maneira prática, útil. Consideramos que estamos online para tudo, quando não estamos presentes em quase nada. Mas nas redes, capturados como peixes, deixamos tudo sobre nós: nossos gostos, nossas preferências de leitura, nossas características físicas, nossos números de identificação, nosso perfil ideológico, nossos desejos de compra, nossos sonhos. E quem controla esses dados, esses algoritmos, também pode nos controlar. Porque a tecnologia sabe decifrar nossos pensamentos e conhece mais sobre nós do que nós mesmos. Hoje, segundo Harari, quem detiver a posse desses dados determinará o controle de nossa existência, podendo ser um governo ou até mesmo uma empresa.

Pensar efetivamente sobre tudo isso requer a colaboração de todos e de cada um. Conhecer de onde viemos e para onde queremos ir torna-se fundamental para nossa sobrevivência. Não podemos nos fechar. Não é uma escolha. Há menos de um século, um líder alemão determinou a execução de seis milhões de pessoas, tentando provar que seres humanos são genética e culturalmente melhores ou piores. Não somos. Somos, sim, um povo que precisa buscar conhecimento, que não pode deixar de sonhar, que precisa se respeitar, se conhecer, se abraçar, se amar fraternalmente. Precisamos entender que não há lucro quando alguém perde, quando milhões estão perdendo. Precisamos do diálogo que pacifica, que engrandece e amplia a vida. A mesma vida que delira e inflama, muitas vezes lenta e sozinha, como um punhado de amor deixado pelo caminho.