Por que o brasileiro não sabe “ler” a vida, interpretá-la e transformá-la?

No livro O poético das Mídias, organizado por Míriam Cris Carlos e Antonio Hohlfeldt, toda “cultura é um texto, formada por diversos subtextos”. No mesmo livro, há citação a Mikhail Bakhtin, filósofo e pensador russo (1895-1975), estudioso das linguagens, para quem a própria consciência humana é linguística e, portanto, todo embate social, toda negociação, toda construção social passa por um texto, por uma narrativa escrita em conjunto. Talvez possamos traduzir dizendo que a vida é um grande “tecido de palavras”, que vamos costurando juntos todos os dias, alguns entendendo mais e outros, quase nada.

Diante dessas informações, quem está apto, capacitado a “ler” o que vivemos, a interpretar nossa realidade? A construção dessa resposta começa na afirmação de que nada está mais ligado a este tema do que a o valor que o governo dá à Educação e a importância que a família dá a ela.

Pela maior avaliação de estudantes do mundo, o Pisa, divulgada dia 03 de dezembro, o Brasil é um dos países mais desiguais em Educação. A China lidera nas três áreas avaliadas: Leitura, Matemática e Ciências. Com pouco investimento, os alunos brasileiros atingiram, em média, 413 pontos na classificação geral de capacidade leitora, ocupando o 57º lugar entre 79 países e territórios. Para nós, a responsabilidade é de quem? Acertou quem respondeu dos governos, nas três esferas: nacional, estadual e municipal. Afinal, o Brasil condena crianças e jovens ao mais cruel dos mundos: o “analfabetismo existencial”.

O Pisa também evidenciou que estudantes do Brasil mais favorecidos socioeconomicamente ficaram atrás de alunos mais pobres de outros países, como Finlândia, Canadá e Coreia do Sul. Compreende-se, assim, que o “tecido social da linguagem” precisa ser firme em todas as pontas. Não há avanços para uma nação se não for por decisões coletivas. A Educação tem o dever de igualar ricos e pobres em oportunidades e saberes. Ou se corre o risco de se esgarçar esse “tecido” e transformá-lo em farrapo, que continuará acentuando as diferenças, gerando fome, desemprego, ausência de diálogo, ódio, violência.

A escola pública precisa se reerguer, e isso é urgente. Um exemplo é o projeto de Educação na cidade de Oeiras, no sertão do Piauí, com 37 mil habitantes, onde os índices de evolução são evidentes e, com isso, não há espaço para escolas particulares, pagas. Menos diferenças.

Mas, na maioria do país, com uma “grade curricular” ultrapassada [aliás, “grade” era uma palavra repugnada pelo educador Rubem Alves (1933-2014), ao tratar de Educação], a escola pública produz o acinzentamento de crianças e adolescentes, que vão deixando o brilho pelo caminho. São meninas e meninos impedidos de saber sobre si mesmos, sobre sua comunidade, sobre seu mundo. Dizem que o mundo, aliás, é do tamanho que sabemos dele. Mas é somente ensinando a ler livros que resolvemos o problema?

Não. Precisamos fazer com que o aluno se sinta dono da sua história, do seu destino. E será que queremos isso? Para a escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras Nélida Piñon, a sociedade não tem apreço pela cultura, pela literatura. “Aprendemos tudo pela metade no Brasil. E não aprendemos o que é mais essencial do projeto educacional: pensar”, ressalta ela em entrevista ao portal Um Brasil. Nélida ressalta que a escola é uma via condutora de educação que enfrenta uma série de dificuldades para cumprir o seu papel. “Como você pode fortalecer o sistema educacional para uma criança que não tem casa? A criança brasileira não tem onde ler. Só isso já é um drama”, justifica.

As artes como caminho – Precisamos, como se vê, promover uma revolução na forma de ensinar. Carregamos nas costas um processo arcaico. Se somos essencialmente texto, palavra, e por ela nos situamos, nos colocamos diante do outro e do mundo, é necessário dar acesso à literatura, não só a livros técnicos, científicos. E acesso, também, a todas as formas de arte, que contêm um profundo pensamento sobre a vida. Para o sociólogo, filósofo e escritor francês Edgar Morin, que completou 98 anos em 8 de julho, os livros, as artes, a poesia são caminhos que nos revelam uma verdade ignorada, escondida, profunda, e causa-nos um duplo encantamento, o da descoberta de nossa própria verdade na descoberta de uma verdade exterior a nós, e o da descoberta de nós mesmos em personagens diferentes de nós.

Vida e pensamento, continua o pensador francês, estão interligados, entretecidos, são complexos. A Educação não pode se desvincular das infinitas variantes da vida. Por isso se torna necessário fazer uma reforma do pensamento, do modelo apenas racional de Educação. O afetivo e o intelectual são indissociáveis.

Ler é um ato político – Segundo a editora de literatura infantojuvenil e fundadora do portal Para Educar, Christiane Angelotti, a leitura fortalece a inclusão social, é um despertar.  “Por isso é também uma forma de dominação social a manutenção dos altos índices de analfabetismo funcional e as tímidas ações em prol da formação de leitores, que estão sempre atreladas uma a outra.” Assim, para ela, “ler é um ato político”, conforme disse ao site Mirada.

Peça fundamental nessa história, como também sabemos, são os educadores. Há muito a escola deixou de ser apenas ambiente de transferência de conteúdo. Ali nascem os desafios sociais, as dúvidas marcantes da vida, o avivamento das emoções, a edificação da autoconfiança, da personalidade. Carecemos de uma melhor preparação para nossos professores, incentivá-los, remunerá-los de forma justa, para que exercitem isso em nossas crianças.

Saber ler a vida, interpretá-la, transformá-la, deveria ser, sobretudo, um projeto de governo. Evidentemente que, como indivíduos, podemos buscar tal acesso. Mas ficaremos com ilhas de pequenos leitores de mundo, entre mares de náufragos à deriva de si mesmos.