Piolho, pente fino e Neocid

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Quando eu morava na Rua Luís da Cunha, bem ao lado da minha casa, havia um corredor estreito que levava a uma vilinha, cujas casas formavam o que se convencionou chamar de cortiço, Nele havia gente de todo lugar, notadamente mineiros e nordestinos que se aventuravam nas construções civis ou nas usinas espalhadas pela região. Pois era justamente ali que estavam os meus  amigos. Ninguém era melhor do que ninguém, a não ser no futebol , bolinha de gude ou no bafo (jogo de figurinhas, que consistia em virá-las com a palma da mão batida no chão, num delicado e muitas vezes malandro balé de dedos atrevidos e ligeiros). Nem imaginávamos qualquer luta de classes nas nossas brincadeiras. Não havia ostentação, e, para nós, o futuro era logo ali, ingenuamente distribuído no fascínio do nosso mundo tão nosso e tão singelo. Eu queria ser bombeiro ou trapezista, Edinaldo, que a gente chamava de Edinho, queria ser pipoqueiro e Adilson, apesar de ser o craque da turma, queria mesmo ser guarda- civil, só para usar aquela farda azul, que nos deixava encantados de tanta belezura.

Minha mãe não gostava muito daquela convivência, não por conta da diferença social, fato esse que nunca apareceu em casa, mas pela terrível presença dos piolhos. A vilinha era infestada de piolhos e nada irritava mais a minha mãe do que nos ver coçando a cabeça sem parar. O ritual de busca do bicho era digno de um pré- enforcamento. Minha mãe colocava a cadeira no quintal, no lugar mais claro possível. Sentava-se como uma rainha e tinha no colo uma toalha branca. No chão, ao lado da cadeira, ficava uma lata de óleo de cozinha, geralmente de amendoim, que cheirava forte. Não havia qualquer tipo de indulto: eu tinha que abaixar a cabeça, enquanto ela derramava o maldito óleo e espalhava sem dó ou piedade pelo couro cabeludo. O ato seguinte era tortura pura: de posse de um pente pequeno e duro, com hastes dos dois lados, bem estreitas, denominado pente – fino, ela enfiava o artefato pela cabeça, como se fosse um arado, esticando e roçando tudo que via pela frente. O ato doía loucamente, mas não podia soltar um gemido que fosse, sob pena de ter como castigo ficar dois dias com aquele óleo no cabelo. Depois de puxados os fios, começava a inspeção em busca das lêndeas, que nada mais eram do que ovos de piolho, que grudavam nos cabelos. Se havia lêndea, havia piolho. A caçada era minuciosa. Minha mãe conhecia o terreno como uma geóloga. Quanto mais o tempo passava e nenhuma pista aparecia, mais a busca intensificava.

O pente saia da cabeça e ela o batia na toalha, certa de que um ovinho, um só, apareceria com seu olhar arrogante de piolho. Pois não é que certo dia, mais do que uma lêndea , um batalhão delas apareceu. E foram tantas que minha mãe exultante chamava todo mundo ao redor para ver. Vieram as tias, as primas, dois vizinhos, até o Sr. Rubens, alfaiate que trabalhava ao lado de casa. Todos assistiam ao espetáculo mais fabuloso da terra. O que veio depois marcou para sempre a minha vida: minha mãe mandou que eu ficasse ali, sentado, como num cárcere. Ela sumiu por alguns minutos e voltou depois com uma meia fina, de mulher, nas mãos. De posse de uma tesoura, ela cortou a meia. Não havia palavras naquilo, apenas ritual. De repente, na outra mão, não sei de onde, nem como, apareceu uma lata amarela de um veneno de baratas, chamado Neocid. Sentada, com a tolha nas pernas, ela me mandou enfiar a cara naquele pano e fez chover sobre minha cabeça o veneno. O pó espalhava por cada milímetro do meu couro cabeludo. O cheiro forte me embriagava. Para garantir que aquilo não se perderia, ela colocou parte da meia cortada na minha cabeça. Pronto, eu deveria ficar com aquilo por dois dias, uma touca maldita e enjoada sobre mim, impedindo que eu pudesse brincar ou mesmo respirar. Naquela noite fui parar na Beneficência Portuguesa. A reação da pele foi cruel. Fiquei vermelho meus pulmões se fecharam, quase impedindo que o ar entrasse. Os médicos demoraram para notar que havia uma reação alérgica ao Neocid. Precisaram raspar o meu cabelo. Fiquei com cara de galo, ganhei o apelido de pintinho. Nunca mais tive piolho, nunca mais brinquei na vilinha, perdi o Edinho e o Adilson. Acho que o Neocid mudou minha vida, além de matar os piolhos, matou a minha inocência, a minha singeleza e o meu sonho de ser bombeiro ou trapezista. Acho que virei um piolho, com medo do pente fino da vida,