Perto de qualquer lugar é longe, quando não levamos o coração

(Uma tentativa tímida de pensar como construímos, vivemos e tocamos o mundo)

Escrevo porque minha alma escapa pelas mãos. E é assim que consigo tocar o mundo exterior. A vida é esse tanto de coisas que ficam do lado de fora dos olhos, até onde vai o mundo. E por muito tempo pensei ser dessa forma. Mas, por um momento, descobri que a vida é, na verdade, aquilo que existe dos olhos para dentro, fazendo de nós uma espécie de ser infinito. Pois é na alma que damos valor a cada acontecimento, a cada descoberta. E esse processo é, sem dúvida, sem fim.

Sentir é o primeiro passo de apreender a vida. De trazer a vida para dentro de si. Uma rosa pode ser apenas qualquer objeto entre a imensidão de objetos que nos atravessam os dias. Mas se a percebemos e damos a ela um valor, a rosa deixa o galho em que cresce para brotar dentro da gente. O mundo da rosa agora é nosso mundo, porque a trouxemos para se juntar às coisas que nos importam.

Talvez pra fugirmos da dor, ou por não termos apreendido o suficiente sobre compaixão, muitas vezes não permitimos que algumas cenas entrem em nosso mundo. Ficamos, então, indiferentes ao sofrimento dos outros, à violência, à miséria, não só material, mas espiritual também. Aliás, a miséria da alma é que, no fundo, nos mata mais todos os dias. Dói menos saber que há comida no mundo, para quem passa fome, do que pensar que um prato de arroz não lhe chega às mãos por falta de afeto, de humanidade.

Com essas decisões, fomos inventando, ao longo da história, a fórmula da invisibilidade, tão sonhada por todos. Mas não como nos filmes, em que ser invisível é uma aventura, uma vantagem para o bem. Nesse caso, tornamos invisíveis quem ou o que não podem nos oferecer felicidade. Mesmo que a maioria de nós tenha a opinião de que a vida é imperfeita e, portanto, não é construída só de felicidade, mas de tudo que vem com a imperfeição. Mesmo que milhões entre nós precisem inventar maneiras de ser feliz, se isso é possível, entre guerras, medo, solidão.

Uma das bases da ciência econômica é o pensamento de que o ser humano é egoísta, que atua somente por interesse próprio, que busca o máximo de prazer e o mínimo de dor. Claro que há outros pensamentos não tão duros. Mas para muitos estudiosos a vida social não existe sem a vida econômica. É a economia que dá forma à sociedade. Até que a ciência econômica nascesse, no século 18, a condição de cada ser humano, de cada criança, velho, homem ou mulher, era retratada como uma condição decidida por Deus. A igreja dizia que cada um tinha o destino que merecia. Era uma forma de amordaçar os sonhos e a voz de tanta gente. E os olhos, assim, seguiam sem dialogar com a alma.

A lição da nossa natureza física, da necessidade do nosso corpo mesmo, de nos pedir água e comida todos os dias, talvez seja para nos dizer que alguns acontecimentos simples, que se repetirão, são tão importantes quanto o valor que damos às coisas e desejos distantes. Quando entro em minha casa, por exemplo, eu acendo a vida dentro de mim. Como o gosto do café da minha esposa ou o cheiro do lençol recém-lavado, como as plantas que trazem cor, perfume e beleza. Como o som da voz dos meus filhos e, por eles, a certeza de que tenho anjos comigo. A vida entra em mim com o sol desce em meu quintal. Como a lua e as estrelas, e todos os meus sonhos, cabem em um único nome: o seu, Elaine. Porque, quando estou com vocês, estabeleço o contato mais bonito e puro com o meu mundo, porque minha alma fala para meu corpo que, naquele momento, o que me habita se preenche de alegria e gratidão. Um amor que tento estender à humanidade, por todas as formas que podemos amar.

Não sei, realmente, como estamos lidando com nossos mundos. Sei que não conheço tudo que devo conhecer sobre o que sinto. É um esforço que faço todos os dias. Saber como estou entrando pelos olhos de quem encontro. Os olhos, claro, são uma metáfora. Um jeito de tentar explicar como nos permitimos tocar a vida, o que pode ser feito de muitas outras maneiras. E será mesmo que vivemos apenas um mundo, esse que está dentro de nós? Ou nossos mundos se ampliam em outros, trocando sentimentos e saberes, aprendizados e afetos, fazendo de cada um de nós um mundo com tudo e com todos, mesmo que nossos olhos não percebam? Confesso que não sei. Mas poucas vezes estive tão certo sobre uma coisa: perto de qualquer lugar é longe, quando não levamos o coração. Porque é nele o jardim da alma, onde moram todos que fazem parte do nosso caminho.