Pela enésima vez, a soberba do azul e amarelo reverbera contra as paredes do Palácio Rio Branco

As absurdas semelhanças entre o tucano e o pavão

Prefeito Duarte Nogueira em coletiva no Palácio Rio Branco Foto: Gleice Lira

Pela enésima vez: o nome científico é pavo cristatus da classe das aves, ordem galliformes e família Phasianidae. É encontrado na Índia, no Sri Lanka e aqui, na Califórnia Brasileira. Habita florestas e palácios. Só consegue voar após correr uma determinada distância e seu voo é barulhento e desajeitado. Não são animais domésticos, pois são muito brigões e não gostam da presença de outros bichos. Esse é o pavão.

Pela enésima vez: esse aqui pertence a família Ramphastidae e marca ponto em toda América do Sul. A característica do bico amarelo e desproporcional é cômica. Enorme e bem projetado, consegue chamar atenção de qualquer um, mas apesar de parecer imponente, é oco. Essa espécie preda comumente ninhos de outras aves e pequenos mamíferos. Esse é o tucano.

Pela enésima vez: um móvel comprido de madeira escura, talhado com detalhes elegantes e um espelho imponente chama mais atenção do que a tela fria que traduz números e reflete a incompetência de uma gestão. A sequência de slides, que mais parece uma retrospectiva chata de festa de debutante, provoca bocejos em cadeia e a tentativa de diminuir a preocupação causada pela pandemia na Dona Maria do Quintino é falha.

Pela enésima vez: Dona Maria do Quintino não entende o cálculo da média móvel do número de mortes das últimas 24 horas ou o risco de mudança de fase no Plano São Paulo baseado na taxa de ocupação de leitos -somando a rede pública com a filantrópica. Nunca esqueço de uma comida de rabo que um professor no primeiro ano da faculdade de jornalismo deu em uma garota da minha sala. Ele questionou o motivo da obsessão da escolha de palavras extremamente rebuscadas no seminário do grupo. Na sequência, ensinou que se a gente fica na dúvida entre duas, a melhor escolha é a de mais fácil compreensão. Afinal, o objetivo na comunicação é conseguir fazer a ponte entre o emissor e o receptor.

Pela enésima vez: pavão não é um bicho lá muito fácil de se comunicar. Você já ouviu um pavão? Confesso que em 24 anos de vida -pouco tempo de experiência, eu sei- não me recordo do som que o pavão faz, mas desconfio que seja algo semelhante a soberba exibicionista dos tucanos. Nunca pensei que pavão e tucano fossem bichos tão semelhantes. Quanta ingenuidade. Quanto exibicionismo Quanta falha.

Comércio fechado pela pandemia do novo coronavírus. Foto: Gleice Lira

Pela enésima vez: ingenuidade remete a Dona Maria do Quintino, que liga na redação toda vez que falta água no bairro. Exibicionismo remete a obras faraônicas, financiadas com dinheiro do PAC e conquistadas pela pantera cor de rosa, mas essa é tema para outro texto. Quem diria… quanto bicho tem em Ribeirão Preto. Falha lembra a estrutura do muros do Bosque Fábio Barreto que desmoronam e atestam a omissão estatal para com o zelo pela cidade.

Pela enésima vez: os pavões sobrevoam o muro. Não só os do bosque, mas também ultrapassam as paredes do pequeno palácio da Visconde do Rio Branco. Eles tentam voar, mas não precisa ser biólogo ou zootecnista pra saber que pavão tem uns dos voos mais desajeitados e do reino animais. Parece que o bicho não foi feito pra alçar voo. Ele se exibe. É bonito, elegante, se impõe e chama a atenção. Pavões fadados ao exibicionismo elitista e a soberba da mais alta casta da natureza: aquela que muito mostra, e nada faz.

Pela enésima vez: Ribeirão Preto está no laranja. Já ficou oito semanas consecutivas no vermelho e sonha com o verde da esperança. Verde. Do mesmo tom cor da copa das árvores que caíram sobre casas vizinhas do Fábio Barreto. Triste ver o nome de Barreto manchetando tragédia, desmoronando terra e desabando do céu.

Pela enésima vez: quem sabe um dia pavão sobe aos céus com plenitude e alcança a graça de mais quatro anos de reinado na selva quente e seca de Ribeirão. Pra isso, pavão tem como aliado o pardal. Desses pequeninos portadores da síndrome do pequeno poder.

Esse é tema pra outro texto. Quem diria… quanto bicho tem em Ribeirão Preto!