Parasita brasileiro

O filme sul-coreano que levou o Oscar de melhor filme é chocante e surpreendente do início ao fim. Choca pela estética, muito diferente do ritmo norte-americano a que estamos acostumados. Os atores acentuam expressões que na boca dos galãs ianques não passariam de muxoxos. Para os asiáticos, parece que tudo vem precedido de um Óóóóó!!! Mesmo que seja para dizer: “a comida tá boa”. E às vezes um Óóóó um pouco mais suave no final da frase. Quem gosta de cinema, conhece bem a dramaticidade dos japoneses neste sentido. Mas quando você vê um filme sul-coreano candidato ao Oscar, esta característica parece que ganha outra dimensão.  Isso no plano estético. Porque o filme também choca na questão social.

Parasita traz para nós brasileiros a novidade de que existe desigualdade neste país asiático constantemente citado como exemplo de democracia, economia criativa e robusta e, principalmente, de educação revolucionária, no sentido de investimento do estado em escolas de qualidade.  E aí que o filme nos faz pensar se O Parasita seria possível no Brasil. Senão, vejamos. O enredo apresenta uma família que vive em condições sub-humanas num subsolo úmido e deprimente.  Quando o filho desta família vê a chance de dar aulas particulares de inglês para a filha de uma família rica, a ideia de um golpe toma conta de corações e mentes dos personagens miseráveis. Em pouco tempo, a filha vira tutora do caçula milionário, a mãe pobre assume o papel de governanta, e o pai desempregado e preguiçoso passa a dirigir o carro do patrão. Tudo na base do golpe e da falta de escrúpulos com os outros trabalhadores que ocupavam estes postos na casa rica. O que se passa a seguir é uma sequência genial de situações que provocam uma tormenta emocional no espectador.

O Parasita brasileiro só poderia existir num futuro muito distante. Principalmente porque a chave do golpe inescrupuloso da família pobre sul-coreana é o acesso à educação que os filhos tiveram. O jovem aprendeu inglês e conseguiu se passar por professor mesmo sem ter título para isso. E entrou na casa rica sem provocar suspeitas. A irmã tem um excelente conhecimento de informática e de psicologia. Falsifica diplomas e se fez passar por uma terapeuta auto-confiante a ponto de mandar a mãe rica sair do quarto duranta a sessão de análise do caçula riquinho, mimado e traumatizado.

Tente fazer um esforço para transpor esta família faminta e falcatrua para o Brasil. Você consegue imaginar um jovem saído da favela, sem ter o que comer, entrando numa mansão de condomínio para dar aulas de inglês? Claro que a resposta é negativa porque o que separa a miséria brasileira da miséria sul-coreana é a educação. Portanto, estamos longe de chocar o mundo com um Parasita brasileiro. Nossa desigualdade é bem pior.

O PARASITA CAIPIRA – Aproveitando a deixa, segue a sugestão de roteiro para a ficção. Mais uma vez estamos no futuro, numa próspera cidade do sertão brasileiro. A riqueza está nos grandes investimentos privados e o mato dos canteiros das avenidas deixou de ser cortado há vinte anos. É neste ambiente que uma comunidade paralela se estabeleceu para consumir crack. Falta espaço para todo mundo. Só podem ocupar os capinzais urbanos quem paga o IMTU – Imposto Matagal Territorial Urbano. E o pagamento no futuro é feito em bit-pedras, moeda virtual que equivale a uma cachimbada da droga.