Os tribunais da internet

Vivemos em tempo de fluxo permanente de conteúdo e de informações que nos chegam de toda parte e a todo o tempo graças aos avanços das tecnologias e ferramentas digitais. Uma verdadeira revolução se operou em nossas vidas, afetando e modificando nossa sociedade em múltiplas dimensões, da comunicação à cultura, da vida privada à esfera da sociabilidade. A internet nos impele a uma interação permanente e constante, seja no mundo do trabalho, seja para a diversão e entretenimento. Pelas janelas das telas dos nossos computadores e celulares vemos e nos mostramos ao mundo.

Natural que essa facilidade em nos comunicar tenha nos tornado mais livres, mais soltos, mais autônomos, o que, obviamente, é extremamente positivo. Contudo, no campo das opiniões, dos debates e das críticas, é preciso um pouco mais de cautela e cuidado.

A internet despertou em nós uma verdadeira compulsão e uma necessidade de nos pronunciarmos prontamente sobre absolutamente tudo. Silenciar é ser esquecido e o anonimato parece agora ter se convertido numa pena ao degredo.

E tudo isso vale não apenas para os memes e vídeos virais, mas especialmente para aqueles casos que despertam natural e justificadamente nossa revolta e indignação. O mundo da internet ainda é para muitos uma terra sem lei e um espaço onde covardes, oportunistas e charlatães se aproveitam dessa aparente falta de regulação para disseminar discursos de ódio, de intolerância, além das já conhecidas fake news.

Contudo, se a batalha contra essas formas perversas de manipulação e engano parece difícil ou até perdida, podemos nos valer das próprias ferramentas digitais como forma de reação. A internet permite dar visibilidade e repercussão a cenas, discursos e flagrantes antes anônimos ou despercebidos em nossa realidade de absurdos. Contudo, precisamos ter muito cuidado para não transformar nossa ação de luta em julgamentos antecipados.

Além disso, a repercussão imediata e muitas vezes colérica faz com que muitas vezes se desvie o foco das discussões e problemas, personificando e “fulanizando” a discussão e nos turvando a vista para nossas próprias contradições e hipocrisias. A postura de paladinos da moral e da verdade que facilmente assumimos nas redes, movidos por essa força incontrolável das ondas e das massas virtuais pode ter a consequência amarga de nos converter em soldados de um exército sem rumo nem destino. Isso sem falar no fato de que as redes que usamos para esse combate são as mesmas que promovem, propagam e até impulsionam os próprios os discursos de intolerância e para as quais, muitas vezes, o que mais importa é exatamente alimentar a disputa e vender munição, nos prendendo em uma cilada cujo único objetivo é o de fomentar o consumo vendendo publicidade e oferecendo produtos para ambos os lados.

O enfrentamento mais eficaz a essas manifestações que nos indignam passa pela crítica séria e pela conscientização a respeito de nossos problemas estruturais, históricos e culturais e que pode encontrar no espaço das redes um grande aliado.Contudo, o enfrentamento deve ser muito mais profundo e permanente e não apenas por meio de atos de reação ou mesmo, em casos mais extremos, de retribuição. Cabe ainda a observação de que retrucar com ofensas e agressões é devolver com a mesma moeda da violência simbólica, valer-se da mesma ferramenta e método do agressor, cujo excesso pode ter até mesmo consequências jurídicas e implicar numa inversão de polos que acaba comprometendo, desmerecendo ou até desacreditando todo um discurso legítimo de resistência.

Acima de tudo, a questão não deve ser reduzida a um duelo, não se trata de um embate, mas de um processo de desconstrução até mesmo porque é possível e necessário crer que pela educação, pela formação e orientação, visões de mundo estreitas podem ser alargadas, preconceitos desmistificados, ódios e ressentimentos revertidos.A intolerância é um perigoso discurso que precisa ser desarmado antes de explodir. E toda cautela é pouca, porque nesse terreno minado muitos já contam até mesmo com milícias privadas, operando guerrilhas virtuais de seus gabinetes de ódio e suas fábricas de ilusões, difamações e mentiras.

Também não podemos nos contentar com reações brandas, condescendentes, meras cartas de repúdio ou manifestações recatadas e tímidas de desapreço. Devemos sim dar visibilidade aos nossos problemas, mazelas e contradições, trazer a público, compartilhar nossa indignação, mas não tornar a mera exposição a única forma de sanção possível até para que não se esvazie o sentido da sanção como uma ação de Estado. É preciso estarmos atentos para não cairmos na ilusão da justiça com as próprias mãos, de um “justiçamento” feito por hashtags e cancelamentos, cuja eficácia é tão limitada e questionável especialmente porque tais denúncias muitas vezes são logo esquecidas ou até mesmo superadas por um escândalo ou absurdo ainda maior. Claro que marcar espaço na arena virtual é importante, porém, tão importante quanto é tomar medidas na esfera judicial e especialmente na dimensão política, exigindo de nossos governantes respostas nas esferas legislativas e administrativas.

Sim, essa é mesmo uma questão muito delicada. E nesse mundo em que tudo repercute,  viraliza, em que hashtags propagam ideias, de uma brincadeira a um assunto sério, e elevam qualquer conteúdo a uma visualização global, tudo é esquecido com a mesma velocidade com que sobe aos tranding topics. São os tempos líquidos de que nos fala o sociólogo Zygmunt Bauman. Nessa sociedade do espetáculo, para lembrar a expressão do grande pensador Guy Debord, nosso agir político não pode se converter em questão de moda ou de tendência, requer  mobilização real, formação e debate ou estaremos condenados a uma luta líquida, instável, fluida e volátil.