O velho estádio Luiz Pereira

Meu primeiro contato com o Estádio Luiz Pereira foi quando acompanhava meu pai, pelo muro alto da Rua Paraíso, e perguntei o que eles faziam lá dentro gritando?

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O Luiz Pereira pode ser considerado um dos pilares econômicos que impulsionaram o desenvolvimento da Vila Tibério. Os outros foram a Estação da Mogiana, a fábrica da Antártica, e o Antigo Banco Construtor, na Joaquim Nabuco.

A Vila Tibério, na época, tinha uma iluminação muito precária, as luzinhas amarelas deixavam as noites com um ar de pequenas cidades dos confins do interior. Mas, nas noites de quarta-feira, fachos de luz branca explodiam clareando aquele pedaço de céu. A luz e a gritaria atraíam a molecada como aleluias procurando a lamparina.

O Bar do Paciência vendia, no início dos anos 60, mais do que todos os outros dias do mês. Era um “natalzinho“ quando havia jogo na Vila Tibério, que era invadida por moradores de toda a cidade.

Os meninos ficavam ao lado do portão, quietos, esperando o porteiro pegar pelo braço um ou dois de cada vez e colocar para dentro.

A história do estádio Luiz Pereira começa no início dos anos 20 quando o Comercial, que havia emprestado seu campo para um jogo do Botafogo contra Uberaba Sport, voltou atrás e cancelou o empréstimo. Mexeu com o brio dos dirigentes da época e a rivalidade entre a dupla Come-Fogo começou a ganhar corpo. Compraram o terreno por 5 contos e 500 réis e o campo do Botafogo passou a receber os jogos do time e foi sendo construído pouco a pouco.

A emoção de ver o goleiro Machado, o pequeno Zuíno correndo pela ponta direita, driblando o lateral e cruzando para a área, a elegância de Tiri, as faltas de Carlucci. As arquibancadas cheias balançando ao ritmo da torcida enlouquecida, o grito de gol.

O nome do estádio nasceu de um pacto entre os diretores da época que ajudaram na compra do terreno e no início das construções. Quem entre eles morresse primeiro receberia a honra de ter seu nome eternizado. Luiz Pereira foi gerente da Antarctica, presidente do Botafogo em 1936.

Domingo de jogo era um acontecimento na Vila Tibério. Enquanto muitos iam para o estádio, muitos outros divertiam-se vendo o movimento dos torcedores chegando e lotando os bares, bebendo todo o estoque de cerveja disponível.

O auge do Botafogo no Estádio Luiz Pereira foi na década de 60 quando era difícil vencer o Botafogo no chamado Fortim da Vila. Mesmo os “times grandes” suavam a camisa e, na maioria das vezes, acabavam derrotados.

Mas, a velha rivalidade mexeu com os dirigentes do Botafogo mais uma vez. A construção do estádio do Comercial nos altos da Vila Paulista (assim chamado o bairro na época) também levou o Botafogo para o outro lado da cidade. Começaram a construir o Estádio Santa Cruz no recém-lançado bairro da Ribeirânia e transformaram o velho Luís Pereira em um clube poliesportivo.

Muita gente considerou como traição o time deixar o bairro cujos moradores ajudaram a construir o estádio com trabalho e também financeiramente. O famoso barbeiro Egydio Tamburus jurou nunca pisar no campo que estava sendo construído. Morreu muitos anos depois da inauguração e cumpriu sua promessa.

Em 2011, a área do antigo Luiz Pereira, depois Poliesportivo do Botafogo, foi vendida em leilão por dívidas trabalhistas.

Hoje, do velho estádio, restaram os altos muros que circundam a área, a arquibancada da rua Santos Dumont, uma quadra multiuso, e uma piscina olímpica, tudo abandonado e em avançado estado de deterioração. Um caseiro toma conta do local. Ele cria e vende galinhas e porcos, além de ovos.

É um triste fim para local com passado tão glorioso e uma vergonha para Ribeirão Preto, que não cuida de seu patrimônio.