O pessimismo nosso de cada dia

Vim para esse mundo com um terrível erro de fabricação: o otimismo. Acredito em acreditar. Minha primeira formação foi a economia. Desisti. Só havia números, previsões, gráficos e pessimismo diante da realidade brasileira. Preferi mudar, fazer o que imaginava, para o que nasci: sonhar e levar esse sonho de transformação para mais gente, construir um mundo diferente, humano e empático. Fui ser aquilo que minha mãe pedia encarecidamente para que eu não fosse: professor. Na sala de aula aprendi mais do que ensinei. Fui seiva de uma árvore cujos frutos eu não via, apenas imaginava doces e nutritivos. Sempre me encantou o sucesso dos meus alunos. É o pagamento silencioso da entrega. O conceito inexorável de evolução.
Entretanto algo sempre me incomodava: não poder atingir a todos. Sofria, sofro e talvez sofrerei com o descaso daqueles que precisam retumbar o sonho da construção de uma sociedade justa e equânime: os governos, em todos os seus tentáculos. Eu sabia que essa falha levaria à falência da sociedade, ao estrangulamento das relações humanas, ao caos do pensamento e ao abandono da razão. Sabia, mas fazia de conta que não aconteceria porque acreditava nos duendes e na composição das estrelas, para o arranjo social. Confesso que pus fé em discursos políticos, em promessas jamais cumpridas, na incoerência ideológica, nos atos falaciosos. Acreditar em acreditar. Essa foi a sentença crucial. O meu pecado imperdoável, minha falha de nascença.
Quando vejo o mundo ajoelhar diante da iniquidade, apunhalar a razão em nome da estupidez, retroceder ao pântano da miséria intelectual, negar o óbvio, duelar ao lado da insensatez, desconsiderar o próximo e torna-lo distante, cultivar o ódio, matar pelo poder, desumanizar e fazer do preconceito bandeira de vida, eu perco a parte mais estimada da minha alma, a razão da minha existência, o porquê do ar que respiro e a história que construí dentro da alma: a esperança.
Tenho medo do pessimismo. É um demônio medieval que me assusta e me destrói. Não tem remédio, não tem cura, não tem magia. É impiedoso, vingativo e corrosivo. Causa depressão, tristeza e morte. Sua presença começa a ser sentida. Luto sem forças, não aceito, sinto –me integrante do quixotesco exército de Brancaleone. Minha falha de nascença permite-me um ato tresloucado e inquietante. Não sei se vou vencer. Procuro voluntários para combater comigo. Está cada vez mais difícil consagrar esse alistamento. Acredito em acreditar.