O Natal chegou: o que vamos aprender com ele?

Com o natal chegando, momento de festa familiar e de busca pelo entendimento entre os humanos, e de brigas também, trago um texto com um filme que pode ser visto pelo Youtube. O contexto da obra é natalino, porque trataremos, ainda que de relance, de contexto Cristão. Mas o que se pretende analisar é o filme “A vida de Brian”, do já citado aqui neste espaço de comunicação, Grupo Monty Python.

O filme é de 1979 e trata do fervor religioso e político de uma época. Algo que se qualquer um dizer que vivemos na atualidade não vai se enganar. O que motivou a recordação deste filme foi a entrevista no programa Roda Viva em que a colunistas da Folha de São Paulo, Tati Bernardi, perguntou à trinca de intelectuais composta por Cortella/Karnal/ Pondé como ela deveria agir para perdoar o pai que é bolsonarista e ela abomina o atual governo.

Tomou uma lição intelectual e de moral dos pensadores que a colocaram no devido lugar de propagadora de pensamento fascista que ela possuía, porque o não aceite da posição política do outro sim, é que é característica  do verdadeiro fascista, porque dialogar com quem só concorda comigo é a coisa mais fácil do mundo, não é verdade?

A obra trata do judeu Brian, que nasceu na região da Judeia dominada por Roma e governada por Pilatos. O personagem nasceu em uma manjedoura, num estábulo do lado de outra criança que viera ao mundo no mesmo momento: Jesus. Desde o princípio Brian foi confundido com o Messias e tratado como um. Sua detestável mãe tratou mal os três reis magos e ainda tentou roubar-lhes o ouro que traziam para o verdadeiro Messias.

 

O que se pode perceber no filme é a ignorância nas relações, uma alienação de massa que elege salvadores, resgata dogmas abandonados e entoa mantras cegamente. O cinismo marca as relações humanas onde ocorre uma discussão durante um sermão do Cristo. Brian vai ser seguido cegamente mesmo sem ser carismático, sem motivar e mobiliza as massas por conta da idiotia exagerada que mobiliza os que não se preparam para o mundo, sem estudo, sem educação, colocando a culpa em tudo e em todos, menos em si mesmos.

Dentro das cegueiras modernas, o filme de 40 anos atrás mostra uma crítica intelectual profunda, disfarçada com o inteligente humor do grupo infles, da irracionalidade das manifestações religiosas e políticas da atualidade. Que o grupo Porta dos Fundos, por exemplo, aprenda que pode criar humor inteligente sem ofender toda uma legião de pessoas que acreditam no Cristo como seu salvador pessoal. Porque todo esse movimento somente vai levar ao abandono da racionalidade e busquem a violência como solução, tal como o filme mostra diversas vezes. Na obra fílmica, os seguidores de Brian tomam por um sinal divino o fato do suposto Messias perder uma sandália durante uma fuga.

Toda a problemática do filme acontece quando Brian finge ser um pregador para fugir dos soldados romanos. Contudo, teve suas palavras levadas a sério e um grupo enorme de crentes começam a segui-lo. Ainda fugindo dos romanos, o falso Messias se alia a um grupo anti-imperialista romano. E tudo isto só piora a sua condição de ser levado a sério demais, mesmo a contragosto.

Muitos podem já ter visto alguma cena do filme sem saber que se tratava dessa obra fantástica. Corre, principalmente no Whatsapp, da cena do apedrejamento. Qualquer coisa era motivo para apedrejar alguém e estes eram espetáculos públicos. Vendedores ambulantes oferecem ao ávido público pedras para que estes possam ferir ainda mais os apedrejados. Se atualizarmos, os espaços de linchamento público protagonizados na internet, servem para satisfazer uma massa cada vez mais sedenta de discursos de ódio e intolerância com o que é do outro (entenderam, Netflix e Porta dos Fundos?).

No filme nunca o outro é visto como algo benéfico. Numa cena em que os guerrilheiros se reúnem, debate-se os benefícios que os romanos trouxeram para os judeus. Mesmo com aquedutos, estradas, irrigação, desenvolvimento de cultura vinícola, casas para banho, melhoria nas condições de higiene, saúde e medicina, ainda se perguntam os guerrilheiros: mas e para nós? O que fizeram eles por nós? Isso se entende que se olharmos os governos, do municipal ao federal, sempre haverá uma parcela descontente por não entender que houve algum benefício real para si, mesmo que milhares estejam sendo beneficiados.

A cegueira delirante e que não ouve o outro tem seu ponto alto quando Brian se cansa e berra que não é o Messias. O povo insiste com ele dizendo que sim, é ele. Brian então afirma, “então vocês podem ir se … Ferrar” (a palavra é um pouco pior no filme). E o povo delirante pergunta “e como devemos ir nos ferrar?”

Existe até os descontentes quando são beneficiados. Um velho leproso reclama do milagre que recebeu do verdadeiro Messias. Isso porque, ao ser curado, parou de receber as esmolas que recebia e facilitavam a sua vida. Alguma coincidência com a realidade? Se o leitor percebeu, sinal de que de que o filme é muito atual e universal.

O final é dos melhores. Tudo termina como no cristianismo, com uma crucificação. Mas pregados e amarrados em cruzes, os condenados cantam juntos como num musical da Broadway. O refrão é “dê um sorriso e olhe sempre para o lado bom da vida”. Por isso finalizo o texto com a mensagem dos idealizadores do filme. O filme não termina com gargalhadas como fez durante toda a sua realização. Porque a verdadeira mensagem é que para suportar os desmandos, burrice generalizada, brigas por política e desunião, somente sorrindo mesmo. E sorrindo amarelo.

Feliz Natal a todos e que as palavras do verdadeiro Messias sejam melhor seguidas por todos nós.