O jornalismo e o velho do restelo

Por Luis Eblak*
O caso Watergate fez 50 anos esses dias e me trouxe a triste lembrança de que corrupção não é assunto decisivo para uma eleição. Afinal, Richard Nixon foi reeleito no mesmo ano que surgiu a super, hiper, mega investigação sobre a invasão ao prédio onde funcionava o escritório dos Democratas.

Não quero ser o Velho de Restelo, mas as coisas pioraram ainda mais porque a democracia anda meio em xeque e — pasmem, oh mundo cão! — o melhor amigo do homem (democrático, no caso), o jornalismo, tem sua credibilidade reduzida à de uma nota de 3 reais.

Quem avisa, amigo é.

Resumidamente, para quem não sabe ou não se lembra, a relevância do caso Watergate está no fato de dois jornalistas do Washington Post terem desconfiado que a invasão não fosse apenas um caso de polícia , pois um dos invasores tinha sido da CIA (a famosa agência de inteligência) com serviços prestados aos Republicanos, o mesmo partido de Nixon.

Graças à investigação jornalística do Post, a corrupção foi comprovada pelos órgãos de controle e Nixon teve de renunciar à Presidência dois anos depois.

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Uma velha definição de notícia, a de que ela ocorre quando o homem morde o cachorro (e não o contrário), causou o fechamento de um curso de jornalismo do interior do país. Diz a lenda que, ao ouvir tal definição da boca de um grande repórter da mídia nacional, o dono de uma faculdade nunca mais permitiu abrir turma para este curso.

Ele não estava tão errado e talvez o conceito seja equivocado… Afinal, quem em sã consciência morde um cãozinho , o melhor amigo do homem?

Naquele tempo, nos EUA, e até recentemente, no Brasil, jornalismo se definia também como um “cão de guarda” da democracia. Grosso modo, seria um dos pesos e contrapesos da democracia americana.

Pois tempos estranhos vivemos.

Tanto no Brasil como nos EUA, temos uma época de “notícias ao contrário”. Um certo ex-presidente de lá e um daqui têm afirmado a suas seitas que jornalistas são todos inimigos. Lá, “NYT e o próprio Post são comunistas”, como a Folha e o Estadão “igualmente seriam” aqui, onde a “Globo é lixo”. Pior: alguns dos integrantes sugerem que seus fanáticos — supostamente seres humanos — saiam por aí mordendo jornalistas… Literalmente! Mundo louco , não ?

Ninguém está entendendo nada porque as fake news imperam por aqui e o jornalismo profissional parece estar perdido.

Outro dia mataram um jornalista britânico e um ambientalista na Amazônia e o presidente deste país disse que uma das vítimas tinha “má fama”. Ou seja, culpou-as. É o mesmo que pedir para seus fanáticos morderem jornalistas, não?

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Penso que o bom jornalismo se aproximava mais do Velho de Restelo do que da Velhinha de Taubaté.

Havia velhos nas redações quando entrei numa pela primeira vez, em 1990, no velho Estadão, na marginal Tietê. Passo lá todos os dias, porque moro perto, e nunca mais vi um velhinho ou velhinha por lá.

Havia velhos na redação da Folha quando lá cheguei em 1994. Não há mais. Velhos, aqui, não no sentido de “antigo”, “ultrapassado”, mas sim no sentido de sábios, de pessoas experientes que , só com suas ações, são exemplos para todos.

Velhinha de Taubaté é o personagem criado pelo escritor Luis Fernando Veríssimo para retratar uma senhora que, a despeito de todos os atropelos do governo de João Baptista Figueiredo , acreditava piamente no general.

Já o Velho de Restelo é um personagem bem mais antigo. Foi criado por Luis de Camões, em Os Lusíadas, a obra que enaltece as “grandes descobertas lusitanas” do século XVI. Nela, o Velho era o sujeito extremamente pessimista que duvidava da “epopeia” dos portugueses rumo às Índias.

Vale lembrar, porém, que os portugueses não chegaram às Índias, como imaginaram, e as “descobertas” estão mais pra invasão do que para a tal “epopeia”. Não à toa, há quem interprete o Velho de Restelo como alguém menos comprometido com as paixões e mais próximo da razão. Grosso modo, seria um sujeito não conta com o ovo antes de a galinha botá-lo. Sábio, enfim.

O jornalismo deveria estar mais próximo deste tipo de Velho de Restelo — o pessimista que se apega à razão — e muito distante da Velhinha de Taubaté. E o jornalismo investigativo tal qual se viu em Watergate sempre teria como uma fonte, ao menos, um Velho de Restelo, aquele que vai alertar: “vocês têm mesmo certeza do que estão fazendo?”

Com a democracia na lona, o jornalismo de hoje está mais para um “jornalismo intempestivo”, aquele que publica pautas como se fossem reportagens , aquele que vê epopeia numa viagem à esquina.

Saudades da força que o jornalismo tinha 50 anos atrás… Que ele volte ao investigativo, e abandone o intempestivo.

*Luís Eblak é jornalista formado pela PUC/SP e graduado em história pela USP, onde também defendeu seu mestrado em história social. Foi repórter, chefe de reportagem e editor na Folha de S.Paulo (Agência, Mundo e Cotidiano) e repórter especial na Gazeta de Ribeirão. Hoje é assessor de comunicação.