O inferno são os outros. Mas quem são outros?

Imagine que você tenha morrido e agora está preso num quarto, completamente fechado, para pagar por seus erros. Mas não estaria sozinho. Cumpriria sua pena junto com duas pessoas completamente diferentes de você. Assim é o chamado “inferno” descrito pelo filósofo francês Jean Paul Sartre (1905-1980). Nada de demônios, fogueiras, chicotes. A sentença, no fundo, não é o confinamento, mas a obrigação de ter que conviver, durante todo o tempo, uns com os outros.

Sartre escreveu esse texto, uma peça de teatro, em 1944, durante a segunda guerra mundial. No Brasil, a obra foi chamada de “Entre quatro paredes”. Num cubículo sem espelhos, foram condenados a se ver pelos olhos dos outros. Há muitas maneiras de entender e de pensar sobre isso. Sartre, talvez, quisera nos mostrar que temos toda liberdade em nossas ações, mas que elas refletem na vida da sociedade. Assim, são os outros que tiram nossa liberdade, quando deixamos de fazer o que queríamos em razão da reprovação social. (Já estou pensando num poema de Drummond, de que falarei logo adiante.)

Sartre sempre entendeu que nossa liberdade tinha um preço: nossas escolhas. O que escolhemos para nós é uma maneira de dizer o que seria correto como escolha para a sociedade. Se minha ação é de determinada maneira, isso quer dizer que todos deveriam agir de forma igual, porque assim eu considero modelar. Por isso sofremos, por isso nos angustiamos diante da tomada de decisões. Porque imediatamente corremos o risco de ser reprovados, e não amados.

Voltando à peça, o personagem Garcin, um escritor que queria ser herói, mas não passara de um covarde, temia que descobrissem sua fragilidade ou sua farsa. Desabafou, dizendo: “O inferno são os outros”. Drummond, que sempre nos traz iluminação, também escreveu sobre isso. Por um viés diferente, sim, mas sempre nos fazendo pensar na relação de cada um consigo mesmo. No poema “O homem; as viagens”, ele nos revela, nos reafirma, sobre “a dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo: pôr o pé no chão do seu coração, experimentar, colonizar, civilizar, humanizar o homem, descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas a perene, insuspeitada alegria de con-viver”.

Enquanto não evoluímos coletivamente, embora possamos discordar de muitas posições da sociedade, resta-nos questionar: será que é o olhar do outro, realmente, que faz de nós felizes ou infelizes? Ou é a falta de con-vivência com nós mesmos que produz o tédio e o vazio em nossa vida? Ah, como falei sobre o “inferno”, um amigo querido, com quem sempre divido os textos antes de publicá-los, me perguntou o que seria, então, o “paraíso”. Eu sorri e lhe disse que ficaria para um próximo texto…