O Heil Hitler e a Arminha do Mito

Certa vez, aqui na USP de Ribeirão Preto, recebemos a visita de um jovem estudante alemão. Quando ele entrava em sala de aula, eis que um dos nossos alunos o saudou com um sonoro Heil Hitler. Brincadeiras à parte, aquela recepção por parte de nosso aluno, não obstante a infelicidade de seu mau gosto, reiterava a relação dos alemães com o regime nacional-socialista (nazista).

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O nazismo durou de 1933 a 1945, e, ainda em nosso século XXI, aquele jovem alemão, mesmo nascido em 1988, permanecia estigmatizado pelos tempos mais sombrios da história de seu país.

Nazistas com saudação característica – em destaque o miliciano Ernst Röhm, outrora amigo íntimo, depois assassinado a mando de Hitler.

Entre os alemães, portanto, a questão da culpa pelos crimes do nazismo é sempre ainda um problema, com o Heil Hitler assombrando mesmo as gerações posteriores.

Fico imaginando se a Arminha do Mito vai se tornar também um assombro em nossa história. Será que outros povos, a partir de agora, vão sempre também ironizar os brasileiros por conta desse gesto não menos patético?

B17 com saudação característica – em destaque o miliciano Fabrício Queiroz, outrora amigo íntimo, desaparecido há seis meses.

Karl Jaspers, pensador antifascista alemão, logo após a queda do nazismo, em 1946, escreveu sobre o tempo, diferenciado em cada caso, que se levou para “cair a ficha”. Ou seja, como, de modo mais ou menos imediato, os alemães foram rompendo com a ideologia nazista (havendo ainda mesmo aqueles que jamais romperam):

As concepções dos alemães sobre os acontecimentos eram divergentes ao ponto da incompatibilidade: alguns vivenciaram a ruptura já em 1933 com a experiência da indignidade nacional [com a tomada do poder pelos nazistas], outros a partir de junho de 1934 [com a consolidação, por meio de centenas de assassinatos, do poder miliciano], outros ainda em 1938 com os pogroms judaicos [ofensivas violentas contra os judeus], muitos a partir de 1942, quando a derrota era possível, ou então desde 1943, quando ela era certa, e alguns apenas em 1945 [com a derrota dos nazistas para o Exército Vermelho]. Para os primeiros, 1945 foi a libertação para novas possibilidades, já para os outros, foram os piores dias, por ser o fim do Reich supostamente nacional (com tradução de Claudia Dornbusch, e com meus complementos entre colchetes).

Karl Jaspers

Karl Jaspers cita eleitores de Hitler que conferiram ao nazismo a condição de uma era de ouro. Mas aponta também para a postura contraditória daqueles que não votaram em Hitler, mas, que ainda assim, estiveram convictos de que uma vitória da Alemanha na Segunda Grande Guerra não destruiria a essência alemã. Por fim, imaginavam um grande futuro, porque acreditavam que uma Alemanha triunfante se livraria do partido, fosse imediatamente ou pela morte de Hitler.

Por fim, Jaspers desmitifica tamanha ingenuidade:

            Eles não acreditavam na máxima de que todo poder de estado só se segura pelas forças que o fundaram. E também não acreditavam que o terror, pela natureza da coisa, justamente depois da vitória, seria inquebrável. Depois de uma vitória e da dispensa do exército, os alemães, por certo, seriam mantidos como um povo escravo, sob controle da SS. A SS exerceria um domínio mundial árido, aniquilador, desprovido de liberdade, em que tudo que fosse mesmo alemão seria sufocado.

Importante esclarecer que a SS (Schutzstaffel, algo como “Milícia de Defesa”) foi o sustentáculo mais forte e irrevogável da política de extermínio do Estado Nazista. Esta sim, a milícia de terror, seria o poder central de uma Alemanha Nazista hipoteticamente vitoriosa.

E os alemães ingênuos dos primórdios do nazismo, que “se livrariam do partido nazista após a vitória”, lembram hoje os brasileiros que “não têm bandido de estimação”.

Aqui no Brasil o processo de cair a ficha também se caracteriza pela heterogeneidade das percepções. Muitos votaram 13 para evitar o 17. Outros votaram 17 para evitar o 13. De imediato houve ainda certo otimismo.

Contudo, à medida dos fatos dos últimos meses, foi se caracterizando uma gradual ruptura com a Arminha do B17. Alguns romperam após o escândalo dos laranjais do PSL; outros pelas relações do 01 com as milícias; outros pelo nepotismo escancarado e pelas declarações chulas e de péssimo gosto, incompatíveis com a liturgia e decoro da presidência; outros pela tentativa de se destruir as universidades públicas, as artes e a pesquisa científica; outros pelo fim da previdência; outros pelo crescente desemprego e miséria no país; outros pelo veneno na comida; outros pela devastação da Amazônia; outros pela relativização do trabalho escravo e trabalho infantil; outros pelo fim de todos os programas de saúde pública; outros pelos 39 kg de cocaína no avião presidencial; outros pela constante ameaça à democracia, com a volta da censura e perseguição a jornalistas; outros pela relação nada ética e mesmo envolta em ilegalidades do ex-juiz, hoje ministro da justiça, a quem está prometida uma vaga no TSF por conta de ter prendido um possível candidato que faria oposição ao B17 na última eleição presidencial.

Contudo, o ar pesado da intolerância, da violência institucionalizada, do ódio às minorias e aos nordestinos, continua pairando sobre o Brasil. E ainda não sabemos se nossa história, tal como a dos alemães após 1933, caminha também rumo à barbárie, ao terror, à miséria e ao totalitarismo. Esperamos que não. Mas é imprescindível que possamos sempre aprender com os fatos. Contra fatos não há argumentos e um fato não pode ser jamais confundido com uma mera opinião. E que os holocaustos e demais crimes contra a humanidade – que foram fatos históricos, e não mera interpretação de pontos de vista – nos ensinem a não repetir os erros crassos do passado.

Bertolt Brecht

Para concluir, nada mais atual que um poema de Bertolt Brecht, o maior poeta antifascista, aqui com nossa tradução:

Observem com precisão o modo de agir dessa gente: vocês têm que considerá-lo estranho, mesmo quando não for fora do comum.
Não esclarecido, mesmo quando habitual.
Incompreensível, mesmo quando for a regra.
Até mesmo a menor ação, aparentemente simples, observem com desconfiança!
Examinem, em especial, se a normalidade é necessária!
Nós suplicamos expressamente: não considerem os acontecimentos cotidianos como sendo tudo natural!
Pois nada será definido naturalmente em tempos de tumulto sangrento, de desordem decretada, de arbitrariedade planejada, de humanidade desumanizada.
Para que nada, que esteja em vigor, seja irrevogável.