O Estado que mata e a nossa cumplicidade

Na última sexta-feira, Ágatha, 8 anos, foi assassinada (executada?) com um tiro nas costas pela Polícia Militar carioca. Ela foi a 16ª criança baleada em 2019, no Grande Rio, a 5ª que não resistiu aos ferimentos e morreu.

A sua foto de sorriso farto, cachos negros e vestida de mulher maravilha estampada na notícia fúnebre é de dilacerar os ossos de indignação. O Estado matou uma criança negra “que fazia balé e gostava de tirar 10”, mas vivia no complexo do Alemão, comunidade pobre onde a PM entra atirando.

O governador Witzel, figura nefasta que promove uma espécie necropolítica, que em qualquer lugar do mundo civilizado seria execrado publicamente, faz parte dessa onda neofascista que toma conta do coração brasileiro e ocupa os cargos mais altos da Nação. Estamos doentes, senhores! A normalização da barbárie e as falsas equivalências que promovemos no boteco ou na imprensa é o combustível que queima as bases da nossa democracia, e a nossa anestesia moral é a cumplicidade que adula as ações criminosas dessa gente.

O diabo é que acontece tanta barbárie no Brasil que a gente se comove com a da semana, quando era ontem a gente estava falando do pai de família que morreu com 80 tiros do exército (80!) e hoje falamos e choramos por uma menina de oito anos baleada nas costas pela polícia.

O historiado Luiz Antonio Simas escreveu: “A Polícia Militar foi criada por D. João, no início do século XIX, em um contexto em que a revolução dos pretos do Haiti apavorava, pelo poder de inspirar movimentos similares, as elites do Brasil… A função original da polícia era defender a propriedade de terras e seus donos. Não custa lembrar que o símbolo da PM/RJ traz um pé de açúcar, um pé de café, duas armas e a coroa imperial, mais explícito é impossível: braço armado em defesa da propriedade e do poder… Sou dos que acham que não adianta dotar esta polícia de um suposto “perfil cidadão”, ensinado em algumas aulas, e tá resolvido. O buraco é mais embaixo. A PM foi criada para matar e morrer e nesse sentido é uma das instituições mais bem sucedidas do Brasil: mata e morre.

A PM brasileira é a que mais mata e mais morre no mundo, pois é usada como massa de manobra pelo poder como ferramenta da opressão, não existe política pública de segurança, não existe inteligência ou treinamento ao policial, este é somente um servidor, em sua maioria, doutrinado a oprimir.

Um exemplo ou equivalência, essa sim válida, é que recentemente foram encontrados 117 fuzis com o vizinho do presidente da República, fato que comprova que é preciso muito mais do que transformar comunidades em zonas de conflito.

O sorriso de Ágatha corrobora como nossa morte como pessoas, como coletivo, como democracia. Meus sentimentos!