O dia que vi o capeta

Acho que nasci gostando de futebol. Segundo minha mãe, eu, ainda na barriga, chutava feito louco. Vim ao mundo na cidade de Morro Agudo, mas aos quatro anos mudei para Ribeirão Preto e por aqui passei quase toda vida. Meu primo, Ivens, era preparador físico do Botafogo e  sempre me levava aos treinos do time. Foi ali, no velho estádio Luís Pereira, que eu fui aprendendo a jogar futebol, arte que a vida me ensinou, mas sabiamente me deixou apenas como aprendiz. Quando mudamos do centro da cidade para a Vila Tibério, transformei o quintal da minha casa num estádio. E eu não tinha preferência, meu quintal era o Pacaembu, o Maracanã, o Morumbi,  mas acima de todos eles, era o Luís Pereira, templo do Botafogo, que eu conhecia apenas quando ia aos treinos, ou passava na porta.

Mais que lindo, era intenso, porque era vivo e existia bem pertinho de mim. Os outros eu conhecia pelas fotos da Gazeta Esportiva, ou pelas imagens do Canal 100, que absorvia com fome nas matinês do Cine Vitória ou do Cine Marrocos.  Minha alegria foi quando minha mãe comprou um biombo de madeira, que separava o quintal do tanque e do varal. E não é que o tal biombo tinha o tamanho de um gol e era leve o suficiente para ir de um lado a outro. Felicidade maior, impossível. Meu estádio tinha trave e rede (se bem que era de madeira, mas não tinha importância). Naquele espaço eu driblava, defendia (porque eu era tudo, de goleiro a centro avante) e torcia, porque eu fazia com a voz o som da torcida. Perto do muro que separava a minha casa da marcenaria do Sr. Alberto, nosso vizinho, havia uma goiabeira. Pois foi ali que eu construí a cabine de imprensa do meu estádio, num galho vazado, onde eu, com uma latinha de extrato de tomate elefante na mão, vivia os meus momentos de Fiore Gigliotti .

Futebol só tem sentido se for encantado, se tiver magia, se tiver sonho. Meu pai era palmeirense. Fazia de tudo para que eu fosse também, mas meu coração só batia no compasso do Botafogo. Naquele tempo, o maior jogador de todos era o Pelé, que, como os estádios, eu só via nas fotos e no Canal 100. Pelé jogava no Santos e não no Botafogo, por isso ele pouco me interessava, estava longe de mim, longe do Luís Pereira.  Eu me lembro que o mês era Setembro e o ano 1965. Eu tinha seis anos de idade. Meu pai, logo cedo, olhou bem para mim e disse: – Hoje você vai conhecer o capeta. Confesso que tremi, fiquei assustado, mas confiante. Com meu pai ao lado, eu enfrentaria até o capeta. Minha mãe me preparou: – Hoje você vai com seu pai ao campo de futebol. O coração disparou, fui correndo para o meu estádio, chutei nas paredes, defendi as bolas mais difíceis, ralei o joelho, subi na goiabeira, narrei uma partida inteira sob o olhar fixo da Dona Inelta, vizinha que se divertia comigo. Coloquei minha camisa tricolor, meu short branco e minha meia branca, além, é claro, do tênis Conga azul, novinho em folha.

Meu pai me carregou nas costas, afinal, eram sete quarteirões até o Luís Pereira. O campo estava lotado, não havia lugar na arquibancada de madeira. Ficamos no alambrado, bem pertinho do campo, onde tudo era gigante e meus olhos deliravam, enamorados de encantos e delícias. Comi pipoca, tomei sorvete de limão Bimbo e comi amendoim. De repente, entra em campo o Botafogo, meu time, meu único time. A arquibancada atrás de mim exaltada. Não existia no mundo lugar mais lindo que o estádio Luís Pereira. Logo em seguida, entrou o Santos, com seu uniforme branco, recebido com a sinfonia de vaiais que meus ouvidos entoaram como ópera. Tudo composto, tudo acontecendo, só me intrigava o capeta, que eu não tinha visto ainda.

Certamente meu pai o tinha espantado, afinal, os pais servem para espantar os capetas que nos rodeiam. E foi num desses momentos que a bola veio parar perto do alambrado, bem na minha frente. Um jogador do Santos, chamado Rildo, veio buscá-la. Do nada, como pássaro mágico, surgiu Pelé e pediu a bola no peito. Pelé era gigante, tomava a cena que meus olhos podiam ver, era mais, muito mais do que as imagens do Canal 100. Era intenso, era vivo. Rildo colocou a bola no peito dele, como havia pedido e, num átimo, no vento, na força do incomensurável, ele driblou dois jogadores do Botafogo, entrou feito um furacão na área, sem deixar qualquer chance de socorro e fez o gol. Naquele instante, correu até perto do alambrado, na minha frente, gigante e tirano deu um pulo e um soco no vento, soco esse que  nocauteou meus sonhos de menino de seis anos, minha inocência e meu encantamento. Meu pai olhou firmemente para mim e disse: – Eu não falei? Esse é o capeta.

O jogo terminou 7 a um para o Santos. De tudo ficou uma lição: sorvete de limão Bimbo, pipoca e amendoim não exorcizam ninguém, ao contrário, atraem o capeta.