O buraco do tarado

Em 1965 adotei a Vila Tibério como minha, ou fui por ela adotado, não sei bem. Fomos morar na Rua Luiz da Cunha, a única que ligava a vila ao centro, caminho entre a intimidade e o progresso. A vila era uma taba, cujos índios, como denominavam os moradores locais, mantinham seus rituais, suas crenças e lendas, numa alegoria constante de felicidade e paixão. 

A Luiz da Cunha era uma festa constante. Por suas calçadas o mundo contemplava o amanhã e o ontem. Ali estava a fábrica da Antárctica, com seus muros amarelados, a imensa fila de caminhões a espera da carga de cerveja e chope e o cheiro doce da cevada, que perfumava três vezes por semana o ar Tiberense. A cidade nutria por nós um misto de curiosidade e zombaria. Não faltavam brigas por conta das ofensas.

A poucos metros da Avenida Jerônimo Gonçalves, famosa por suas palmeiras centenárias, a Luiz da Cunha parava por conta de uma cancela férrea, cujo trem levava minutos e minutos para fazer a travessia. Para facilitar a passagem, construíram um túnel que passava embaixo. Era um local estranho, cujas paredes tomadas por azulejos serviam de banheiro. O cheiro de urina inundava o espaço. As mulheres evitavam passar por ali, principalmente pela suposta presença de um tarado, o famoso tarado do buraco, personagem mitológico que nunca foi visto, entretanto altamente temido.

Um dia resolvemos fazer justiça. Se a polícia não prendia o tarado, restava a nós, querumins tiberenses colocar o facínora na cadeia. Juntamos os quatro corajosos e valentes, fizemos os melhores estilingues possíveis e imagináveis, com borrachinha de soro e forquilha grossa. Fomos à Cerâmica São Luiz e compramos uma pedra de argila, fácil para virar bolinhas duras quando secas.

Tudo pensado e composto com requinte da crueldade justiceira, típica dos indiozinhos da Vila.

Precisávamos de uma roupa. Super-heróis possuem roupas próprias. Depois de um planejamento ostensivo, calculamos que se estivéssemos com a camisa do Botafogo, estaríamos poderosos e protegidos. E assim fomos nós, na calada das oito horas da noite, colocar a nossa mão e livrar o bairro da maldade promíscua.

Precisávamos de diligências, carros poderosos, que facilitariam a nossa fuga depois do serviço feito. Crispim, um dos quatro, lembrou que tinha uma bicicleta de entregar pão, própria para carregar alguém na frente, devidamente armado. Eu estaria com a minha Calói aro 20, pneu balão.

Ninguém corria tanto, ninguém assustava tanto.

Alemão iiria com Crispim. Alemão era loiro forte, neto de suecos, tinha uma pontaria de ouro. Aderson, o grande mentor, iria comigo na garupa da bicicleta. Sabíamos que um dia a Vila Tibério se orgulharia de nós. Imaginávamos ganhar uma estátua na praça ou sorvete de graça por um ano na sorveteria ao lado da igreja.

Tudo pronto para dar certo, menos um detalhe:  Aderson era comercialino se recusava a colocar a camisa do Botafogo. Veio com uma listada preto e branco e um enorme símbolo do bafo no lado esquerdo do peito. Era azar. Sabíamos, mas não dava mais tempo de trocar. Partimos em missão.

O mês era agosto, chovera o dia todo, e no começo da noite, uma fumaça tomava conta do cenário. Paramos as bicicletas nas duas portas, eu na entrada, Crispim na saída. Plano perfeito. Ele estava lá dentro, fazendo um xixi ou qualquer outra coisa. Soltei um grito e não hesitamos um só instante em disparar nossos estilingues mortais. Estava escuro. Ouvimos gritos. Gente xingando. Corremos certos de nossa vitória.

No dia seguinte, soubemos que os funcionários da Antarctica foram atacados por muitas pedradas. Ninguém se machucou. Soubemos que a polícia andava atrás de quem fez isso. Ficamos um mês sem sair da casa.

Dois meses depois tamparam o buraco, fizeram as passagens da Martinico Prado e da Santos Dumont. O tarado nunca foi preso e nem nós viramos heróis, mas de uma coisa, eu tenho plena certeza, a culpa foi da maldita camisa do Comercial do Aderson. É azar demais. A Vila ainda busca justiça.