O Brasil que dá certo

Professora conversa com alunos em sala de aula de escola Foto: Agência Brasil

Nesse ano, comemoro 43 anos como professor. Tive e tenho alunos de todas as classes sociais, todos os credos, todas as linhas ideológicas. Procurei sempre incentivar o pensamento como ferramenta. Ensinei a ouvir e ser ouvido, a ser firme nas posições, entretanto respeitar o contraditório. Aliás, adoro o contraditório, odeio a singularidade. Nunca fiz política partidária em minhas aulas, nunca influenciei nenhum aluno a votar neste ou naquele candidato. Outrossim, procurei incentivar as escolhas pelos compromissos assumidos, pelos programas estabelecidos, sem esquecer jamais que acima das vontades pessoais, está o interesse coletivo, na estrada do desenvolvimento do país. Ensinei a ser patriota, sem patriotismo, a amar o país, sem o nacionalismo tacanho. Falhei.

A sociedade está doente. Amplamente contaminada pelo vírus da individualidade. Vejo isso todos os dias nas redes sociais, nos jornais, na mídia em geral. A vontade do todo sucumbe aos anseios particularizados. Cada um tem os direitos de cada um e não do todo. Se alguém discorda do que penso, sou cancelado, amaldiçoado, xingado e repudiado como cão sarnento. As discussões deram lugar aos embates. Chegamos ao ponto de duvidar dos conceitos científicos básicos, a relativizar o óbvio, a enxergar pelos em ovos, a contestar a matemática, a tornar a barbárie como fundamento. Isso é a constatação inequívoca da falha educacional, seja ela formal, familiar ou institucional.

Confesso que me sinto incapaz de ver a melhora do quadro doentio social. Temos esse vírus da individualidade espalhado em todos os setores da vida. Dói constatar isso, mas é verdade. Os interesses econômicos sobrepujam os valores morais. É o paraíso do “tudo vale a pena”. Aqueles que deveriam dar exemplos de virtude, são os mais enlameados. Há entre nós, brasileiros, dois brasis distintos: o que dá certo e o que deu e dá errado. Lutei pela liberdade de pensamento. Não medi esforços pelo desenvolvimento de um Brasil moderno, pujante, exemplar. O que me sobrou foi uma carcaça fétida e carcomida. Tenho imensa solidariedade por aqueles que fazem o país crescer, apesar dos pesares. São poucos. São silenciosos e produtivos, são intensos e acreditam sempre. Em contrapartida, temos os abutres, os algozes da civilidade. Aqueles que se aproveitam da ignorância alheia e fertilizam o ódio, a insensatez, a dissimulação.

Morremos por conta de um passado corrupto, negligente e mentiroso. Covardemente vendido como apanágio e solução coletiva, porém o interesse pelo poder superava os conceitos éticos. O resultado é o que vemos hoje: um quadro equivocado, um horror espalhado em forma de patriotismo, envolto na armadura do reviver os tempos de mordaça e tempestades. A corrupção gerou o terror, apunhalando a sociedade e seu progresso moribundo.

Quero o Brasil que dá certo para ter luz nessa caminhada. O que me entristece é que esse Brasil não retumba, não corrompe, não aceita favores, não faz acordos espúrios, não leva desaforo pra casa. Por isso não emplaca. Não dissemina entre ignorantes e aduladores sem causa. Por isso, não vejo futuro. Por isso, quero ser contradito, queimar a língua, ser vencido pelo otimismo que não tenho agora. Nunca sonhei tanto estar errado.

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