Núcleo base

Ira! banda brasileira de rock, formada em 1981 Foto: Reprodução

“Eu quero lutar mas não com essa farda”, assim começou minha manhã num desses dias. Eu não ouvia o Ira há muito tempo ou, então, não sabia que aquilo que eu cantava era deles. Confesso que trocava a letra dessa música, no lugar de lutar, eu cantava mudar. Embora  percebesse que não fazia sentido, eu o forçava, afinal posso me mudar usando farda! Mas, eu não usava o pronome reflexivo, era simplesmente “eu quero mudar”, ou seja, Lacan que me perdoe, a mudança aí era interna, algo a ver com transformações, e aí sim a farda era (seria?) um impeditivo ou, no mínimo, uma boa desculpa.

Farda ou fardo, feita de algodão e de palavras, de múltiplos discursos, entendi que a mudança só viria com o desvestimento, aquele mesmo pelo qual passou um tal alferes cujo reflexo no espelho vai perdendo contornos e formas à medida que se despe de seu valoroso uniforme e também o capitão Dreyfus em sua humilhante cerimônia de degradação. Machado e Zola sabiam das coisas, e falam dessa destruição do ego melhor que ninguém. Eu não sou um alferes nem capitã e nem sei direito que farda é essa que visto, mas sei que ela existe e que se prega a meu corpo e à minha mente. Mas a música não dizia isso, ela não falava de mudança, eu inventei essa parte, o verbo lá é outro, o verbo é “lutar”. Não que mudar não seja uma luta, talvez seja uma das mais difíceis e inglórias, pois se movem montanhas dentro da gente e ninguém vê, ninguém aplaude!

Pois bem, o sujeito diz que quer lutar, o que me faz pressupor que ainda não o faz. E não o fará enquanto estiver preso por aquela farda. Sei que parece uma bobagem e que pouco importa para as pessoas a minha surdez seletiva, mas, mesmo assim, fiquei chocada quando ouvi a letra corretamente. Tive a sensação de que a minha surdez tinha um princípio, eu queria ouvir errado, eu precisava gritar “eu quero mudar, mas não com essa fardaaaaa!”. 

Penso que, de fato, sempre acreditei que o hábito, no sentido de túnica ou vestes, fazia o monge, assim como acreditei que tudo no mundo tinha um fundamento, tinha um porquê e um para quê, só bem recentemente comecei a desconfiar disso tudo, porque fiquei sabendo da existência do aleatório. Sim, do erro na Matrix, do não programado, do interregno entre esta e aquela era. Sim, compreendo que há toda uma coerção agindo sobre nossas formas de ver, pensar e fazer as mínimas coisas. Sei que há, sobretudo, um pensamento dominante em todos os lugares por onde andamos e que, na contraparte, há sujeitos que não se deixam ensopar por este ou aquele modo de ver o mundo. Diferente das madeleines que afundam no leite quente, aprenderam, desde muito cedo, a duvidar. Deposito nas dúvidas minhas poucas certezas.

Eu queria ouvir errado, é verdade! E desejava isso porque até o presente momento não concebo uma luta que não comece por dentro a partir de uma indagação, uma interpelação. A música é de 1985, eu passei mais de trinta anos repetindo o erro e só o descobri nessa semana, quando finalmente admiti que não entendia o que se falava naquele trecho. E o que fazer agora? Bem, eu já mudei o verbo! A farda? Ah, essa já não me serve mais. 

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