Noções de literatura para entender o Brasil

A nossa literatura é galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas.”
A frase pode parecer ter sido feita por uma pessoa antinacionalista, mas foi redigida por Antônio Candido, o maior dos críticos literários do Brasil. Tive o prazer de conhecer e estudar seus escritos na faculdade de Letras da UNESP de Assis, apresentados pelo excepcional Prof. Luiz R. Veloso Cairo. Aos que não sabem, a UNESP Assis, a mesma que estudei Letras, foi a porta de entrada de Antônio Candido no mundo do ensino e dedicação exclusiva à literatura. Antes disso, o renomado crítico e estudioso literário era docente na USP, em São Paulo, da cadeira de Sociologia e tudo abandonou na capital rumo ao interior paulista para dedicar-se ao seu prazer maior: a literatura brasileira.

Antonio Candido, escritor e crítico literário (Alexandre Tokitaka/Dedoc)

Feito o intróito (obrigado, a Machado de Assis) trago para o leitor deste texto a possibilidade de ampliar horizontes e compreender porque ler pode ser algo iluminador na vida das pessoas. Sabe-se por pesquisa séria do Instituto Pró-Livro que a média de leitura do Brasileiro não ultrapassa a dois livros por ano. Considerando que em 2018 tínhamos quase 50 milhões de matriculados na Educação Básica no país, esse número deveria ser bem maior simplesmente pelo fato de que a maioria das escolas cobra a leitura de pelo menos um livro paradidático por bimestre. E as informações ainda podem piorar.

Dados do Prova Brasil, do Ministério da Educação, afirmam que 55% dos professores brasileiros não praticam leitura literária ou fora de sua área de atuação com regularidade. Muitos docentes que lerem esta coluna podem discordar, mas estamos num microcosmo bem restrito e que o país é muito extenso. O que pretendo demonstrar com essa análise do descalabro de uma atividade basilar no desenvolvimento de qualquer país que almeja a justiça social e educacional para seu povo é demonstrar como a literatura pode estar presente na vida cotidiana e na atualidade de um país.

Antônio Candido parece estar criticando a nossa literatura, mas o que nos mostra em sua análise é que somente esta literatura, ainda pueril frente a outras mais portentosas e antigas, é que nos representa. E em outro texto o crítico literário defende que a literatura é um direito e que poucos sabem ou valorizam este. Não entendem que poetas e romancistas, entre outros escritores de outros gêneros, trazem para a arte literária o momento do país, da sociedade, do povo. Candido é categórico ao afirmar no texto O direito à literatura que

“Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado. O sonho assegura durante o sono a presença indispensável deste universo, independente da nossa vontade. E durante a vigília, a criação ficcional ou poética, que é a mola da literatura em todos os seus níveis e modalidades, está presente em cada um de nós, analfabeto ou erudito – como anedota, causo, história em quadrinhos, noticiário policial, canção popular, moda de viola, samba carnavalesco. Ela se manifesta desde o devaneio amoroso ou econômico no ônibus até a atenção fixada na novela de televisão ou na leitura seguida de um romance. Ora, se ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura concebida no sentido amplo a que me referi parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito.”

Candido percebeu que a nossa literatura é o reflexo da sociedade, demonstra eventos e até pode antever virtudes ou problemas. Um exemplo a ser dado de como o crítico estava correto era que poetas e escritores do país, se hoje analisados, anteviram alguns problemas arraigados em nossa sociedade. Vamos aos exemplos.

Carlos Drummond de Andrade, poeta mineiro e espetacular fotógrafo da realidade por meio das palavras escrevera em 1930, no seu livro Alguma Poesia, sobre o Pico do Cauê, local geográfico de Itabira, cidade natal do poeta. No poema ele explica que

“Cada um de nós tem seu pedaço do Pico do Cauê / Na cidade toda de ferro / (…) Os homens olham para o chão / Os ingleses comparam a mina”.

 

Itabira, terra natal de Drummond, com o Pico do Cauê ao fundo.

O poeta, doze anos antes, traz um fato da exploração do minério de ferro em Minas Gerais. Anos depois, Getúlio Vargas funda a empresa de nome poético, Vale do Rio Doce, que hoje atende apenas pelo nome de Vale. E vale ressaltar que o Pico do Cauê tinha 1340 metros de altura e pela exploração da companhia foi exterminado da paisagem. A exploração de ferro acabou com a montanha de alto a baixo e apenas a lembrança poética existe. Drummond volta a escrever sobre o tema em 1973 na poesia A Montanha Pulverizada, em tom desolador, sobre a falta que aquele acidente geográfico faz na paisagem de sua terra.

“Esta manhã acordo e não a encontro / britada em bilhões de lascas / deslizando em correia transportadora / entupindo 150 vagões / no trem-monstro de 5 locomotivas / (…) deixando meu corpo e na paisagem / mísero pó de ferro, e este não passa”.

Pode-se perceber que a leitura de dois poemas curtos mostram àquele que lê que o poeta denuncia a sanha exploratória de uma região em nome de um produto comercial.Primeiro dos ingleses e depois dos brasileiros mesmo. O minério de ferro explorado em Itabira, terra do poeta, e que causou o desaparecimento de uma montanha da paisagem, foi do mesmo tipo do explorado em Mariana e Brumadinho. Em um terceiro poema de exemplificação, Confidência do Itabirano, Drummond afirma que

Itabira é apenas uma fotografia na parede / mas como dói”.

       Sabemos muito bem o que houve em Mariana em 2015 e em Brumadinho em 2019. Talvez um pouco do pó de ferro descrito pelo poeta há mais de 40 anos esteja agora cobrindo o solo da devastação provocada pela Vale. Os poemas podem ser encontrados em qualquer site e divulgados para alunos. Demonstrar a validade da poesia como parte da noção de ser brasileiro e como afirmou Antônio Candido, entender o Brasil com a nossa literatura, porque só ela nos representa. Deixo o final deste texto com as próprias palavras do estudioso.

 “Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não há outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós. Se não lermos as obras que a compõem, ninguém as tomará do esquecimento, descaso ou incompreensão. Ninguém, além de nós, poderá dar vida a essas tentativas muitas vezes débeis, outras vezes fortes, sempre tocantes, em que os homens do passado, no fundo de uma terra inculta, em meio a uma aclimação penosa da cultura européia, procuravam estelizar para nós, seus descendentes, os sentimentos que experimentavam, as observações que faziam – dos quais se formaram os nossos.”

(Trecho de Formação do Pensamento Brasileiro)