Nascem cem palavras de dentro de outra palavra. Um amor não nasce

O século está pobre, Jorge. Onde é que vou buscar arroz e poesia? Pobre o rosto paralisado, nem mais um riso. O dia de colher a rua e seus novos pobres. Há falta de cisne nos olhos das pessoas. O presente embaciado, duro, empobreceu a língua e o estômago de minha gente. São pobres as canções de interpretar o mundo. Os cartões de Natal, que já não trocamos. Devo despir-me do que é belo?

Fez-me necessário recordar esse trecho de um dos meus poemas, baseado no poema de Jorge de Lima, gênio e querido, chamado O poeta diante Deus. “Senhor Jesus, o século está pobre. Onde é que vou buscar poesia? Devo despir-me de todos os mantos, os belos mantos que o mundo me deu.”

O ar amadurece as nuvens, os pássaros, os sonhos. A terra amadurece o humano, preso em aparelhos de envelhecer. As horas devoram os cabelos, lambem a pele úmida da juventude. Não há mais como esperar o tempo. O relógio nos sufoca todas as manhãs, como se a ele coubessem os sentidos do que aprendemos a chamar de horizonte. Os olhos atravessam os corpos, vasculhamos o passado de nomes estranhos e não lhe emprestamos generosidade sobre o que poderia ser de seu futuro.

Nascem cem palavras de dentro de outra palavra. Um amor não nasce. O grito como coisa pública de anunciar o peso do esquecimento sobre os ombros. Na explosão dos edifícios órfãos de humanidade, sobe com o vento a palavra que deixamos de dizer. Nada dança ou reluz diante do sol dos olhos. Nem galos avançam sobre a manhã. Mas tuas mãos, como asas abertas, escrevem, o voo que a noite não pode impedir.

Caberá no meu ou no teu coração o peso de todos os nossos mortos? A terra bruta acolhe os sonhos que pesam e não podem mais tocar o céu. Há fechaduras sobre os olhos de meu país. Queremos a límpida imagem dos anjos, mas insistimos em fraudar a fila da evolução. O beijo no espelho mancha o autorretrato. Nosso rosto acorrentado em frases fugazes. Não temos o outro peso que nos funda para a vida, a responsabilidade de viver coletivamente. A pedra filosofal nos dá a vida eterna. Mas para quê, se não temos com quem atravessar os dias? A leveza das mortes nos noticiários, como nomes em telas de televisão ou em pedaços de papel, que se perdem em minutos. Quanto de nós deixamos partir com os outros? Nos guardamos em caixas impermeáveis da dor. Já não choramos. Os olhos embotados de cimento, Chico, como naquela canção. Já não há lágrimas para tantas despedidas. O século está pobre, Jorge. Onde? Onde mesmo deixamos o amor esquecido pelo caminho?