Não confunda talento com vocação!

Rubens Russomanno Ricciardi, colunista do Portal Thathi

Temos que aprender a diferenciar talento de vocação. Vamos nos lembrar inicialmente de Clarisse Lispector. Ela já havia se dado conta desta confusão reiterada:

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“Escrever sempre me foi difícil, embora tivesse partido do que se chama vocação. Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir”.

Clarisse Lispector, então aluna de direito da UFRJ, universidade pública e gratuita que sempre contribuiu para a formação de brasileiros que fundam a história

Por que uma grande escritora como Clarisse Lispector, confessando as dificuldades em seu ofício, chama a atenção para as diferenças entre talento e vocação? Vamos procurar definir talento e vocação, introduzindo ainda outro conceito à discussão: superação.

– TALENTO

Por que uma grande escritora como Clarisse Lispector, confessando as dificuldades em seu ofício, chama a atenção para as diferenças entre talento e vocação? Vamos procurar definir talento e vocação, introduzindo ainda outro conceito à discussão: superação.

A performance de quem tem talento é sempre diferenciada em todas as áreas do conhecimento humano, seja nas ciências, na filosofia e nas artes, e mesmo nos mais diversos ofícios.

Talento é como autoridade: quando se põe em questão, é porque não existe enquanto tal. Não há nada mais patente e inquestionável que o talento.

Sem talento, contudo, é possível desenvolver algumas habilidades. Um aluno esforçado, numa boa escola, pode até aprender alguns procedimentos para uma aplicação prática. Mas não vai muito longe sem um verdadeiro talento. Já sem nenhum talento não se vai além de um mero diletantismo, mesmo que com algum recurso ou conhecimento técnico.

A falta de talento empurra alguns profissionais para a atuação restritamente “teórica”. As aspas aqui indicam que a tal teoria será invariavelmente frágil, mesmo que rígida. Aliás, a rigidez e o excesso de normas, características dessa gente, são antes maneiras de se escapar do rigor que envolve necessariamente os amplos e complexos processos de produção do conhecimento.

Este tipo de “teoria”, na qual se confunde rigidez com rigor (são rígidos, mas sem rigor), não se sustenta porque, como é mera escapatória da falta de talento (a teoria se tornando o refúgio de frustrados), acaba sempre apartada da práxis (interpretação-execução e atividades práticas em geral), da poíesis (elaboração de obras ou outras formas de invenção), das experiências (condição empírica de determinados conhecimentos), e, ainda mesmo, do próprio pensamento crítico-conceitual, que deveria ser a base de toda teoria.

É bom deixar claro que teoria e prática não formam um par de conceitos, como se fossem antagônicos, numa mecânica brutal contra a qual nada se pode contrapor. Teoria sequer é sinônimo de abstração.

A definição histórico-filosófica do conceito de teoria remonta a um modo de visão que, para além da mera observação, ainda que dependa da visão sensível, atravessa essa sensibilidade no intuito de penetrar agudamente no que seria a natureza (phýsis) complexa dos fenômenos. Daí que originalmente a palavra theoria implica numa práxis de visão analítica do concreto, daquilo que existe de fato (incluindo-se o que é criado pela natureza ou inventado pelo homo sapiens), aquela que pretende ver a fundo as coisas ao redor, sendo um modo distinto do olhar, o olhar próprio do conhecimento.

Assim, há que se ter talento para a teoria. Sem talento não elaboramos sequer hipóteses de trabalho que valham a pena.

– VOCAÇÃO

O nome já diz. Vocação vem do latim: vocatio (convite) ou vocatus (chamamento). A vocação é o atendimento a um chamado, assumindo determinada atividade como sendo o que há de mais importante na vida. A vocação diz respeito ao foco, à prioridade, ao modo como nos dedicamos integralmente, de corpo e alma, ao ofício escolhido.

A vocação é, assim, uma missão. A profissão se torna um ente sagrado. A vocação carrega sempre essa analogia missionária.

Voltando ao detalhe levantado por Clarisse Lispector, quase sempre despercebido, sabemos que o talento independe da vocação. Vamos então às condições e os casos possíveis, em matéria de talento e vocação, cujas relações coincidem ou não num indivíduo:

– Com talento e com vocação – que maravilha!
– Sem talento e sem vocação – estes nem se aproximam de determinado ofício. Assim, o problema está resolvido.
– Com talento, mas sem vocação – estes não prejudicam ninguém. O sujeito até escolhe outra profissão. Também está tudo ótimo.
– Com vocação, mas sem talento – nestes temos um problema, mesmo triste, ou assim deveria sê-lo.

Vamos a este imbróglio, menos raro do que se possa imaginar, daquele com vocação, mas sem talento.

Em especial, o excesso de vocação, sem quase ou nenhum talento, leva, mais cedo ou mais tarde, a terríveis constrangimentos.

O sujeito com vocação, mas sem talento, é em geral organizado, focado, pontual, sério, até mesmo sisudo (para ser respeitado). Faz de conta que é exigente consigo mesmo, sendo de fato exigente só com os demais. Não raramente tenta citar frases em inglês, demonstrando toda sua erudição.

Em seu ofício, como seu talento redutivo não o anima a aventuras inventivas, nem engenhosas e nem mesmo prático-operacionais, ele ocupa seu tempo para aborrecer aqueles que o cercam. A resolução de problemas lhe é algo estranho.

Ele arruma invariavelmente alguma confusão, sempre perturbando o processo inventivo ou o engenho mais fecundo dos talentosos.

Galileu Galilei disse nos primórdios do século XVII, sobre os geocentristas que o perseguiam, que “o maior ódio que existe no mundo é aquele da ignorância contra o conhecimento”.

Galileu Galilei, o pai das ciências modernas

Eu gostaria de acrescentar à polêmica de Galileu que, maior que este ódio, o da ignorância contra o conhecimento, é ainda o ódio da falta de talento contra o talento. O sem-talento não suporta o talentoso.

Por conta de seu tempo livre, justamente pela falta do que fazer na profissão de fato, este perfil do sem-talento, mas vocacionado, acaba assumindo postos administrativos e até subindo na carreira. Muitas vezes substituem a falta de talento por uma boa lábia, em geral com bajulações oportunistas ou intrigas ardilosas.

Lembremo-nos de Iago, em Otelo, o Mouro de Veneza, o mais consagrado personagem literário deste perfil, tão bem construído por William Shakespeare, e, séculos depois, tão brilhantemente aperfeiçoado por Arrigo Boito. O Credo in un Dio crudel, na ópera de Giuseppe Verdi, é o Hino internacional dos sem-talento, mas dotados de forte vocação.

 

Boito e Verdi, respectivamente libretista e compositor, que consagraram o personagem Iago, símbolo da vocação sem talento, na ópera Otello.

É fácil observar alguém com vocação, mas sem talento, na posição de decisor (conceito de Jean-François Lyotard, definindo o terror tecnocrata de nossos tempos). Quando este tipo de decisor vai contratar alguém, sempre contrata de acordo com a referência de seu próprio perfil. É como se diz no ditado popular: cachorro cheira cachorro!

Um profissional nível A contrata um colega de nível A – claro, o sol brilha para todos. Os talentos se juntam sempre para o melhor. Muito que bem.

Já um profissional de nível B (o tal vocacionado, mas sem talento) vai contratar quem? Um colega também de nível B? Só que não, jamais! Este B vai contratar colegas subalternos de nível C e D, e daí para baixo. Isso porque o B teme a própria sombra. Sua insegurança o leva a atitudes em geral truculentas, mesmo com a aparência de um “cidadão de bem”, de fala mansa, sempre bem vestido e alinhado. Não raramente sua pontualidade, organização e seriedade aparentes, acabam mascarando toda desgraça que está por trás de sua atuação canhestra.

Jean-François Lyotard, filósofo francês que definiu o terror tecnocrata dos decisores, executivos contemporâneos que, por sua posição intocável e influência, causam não raramente, sem nenhum remorso, grandes estragos ambientais, sociais, histórico-culturais, científicos, artísticos, jurídicos etc.

– SUPERAÇÃO

É difícil poder contar, nos dias de hoje, com profissionais de excelência, tais como os que buscam exigências confluentes ético-estético-epistemológicas. Digo aqui ética, estética e teoria do conhecimento compreendidas numa necessária unidade, porque são de fato indissociáveis. Pode parecer utópico: o caminho ético-estético-epistemológico é sempre o mais digno.

Contudo, vivemos num mundo de “especialistas” e quem tem tomado as decisões está cada vez mais sem noção do que deve ser feito – esta crítica já foi profetizada por Hans-Georg Gadamer no final do século XX, antes mesmo do retorno dos governos de extrema-direita populista no mundo.

E não bastam talento e vocação. Faz-se ainda imprescindível a vontade e a capacidade de superação nestes difíceis processos.

Superar, quero dizer, ser melhor que os colegas, sendo ainda mais competitivo/lucrativo que os demais? Não. Não estamos falando em destruir a concorrência – aliás, como é kitsch e antiética esta postura. E como ela destrói o planeta inteiro!

Estamos falando da busca pelo aprendizado, pela fusão de horizontes (outro conceito de Gadamer, “pois não vivemos num horizonte fechado, nem num único horizonte”), pelo espírito crítico e irrequieto.

Hans-Georg Gadamer, filósofo eclético, estudioso do método científico e do conceito de verdade numa perspectiva da filosofia da linguagem

A superação só é possível com a Bildung. Alguns traduzem Bildung por formação ou formação acadêmica, conhecimento geral. Todavia, a acepção de Bildung, em alemão, implica necessariamente numa dimensão semântica mais ampla e instigante, algo como a constituição crítico-intelectual de uma pessoa. Não basta saber, obter informação, ou ter facilidade para trabalhar com resultados. Há que se pensar criticamente, incluindo-se novas combinações inventivas a partir do conhecimento adquirido.

Por fim, o mais importante, temos sempre que perguntar: o que é, como é, de onde vem, e a quem serve? Se não levarmos em consideração estes questionamentos, seremos talvez obedientes, mas com certeza incapazes de pensar. Estas perguntas evitam que se cumpram ordens estúpidas sem pesar na consciência.

Pablo Picasso também nos ensinou sobre a necessidade de superação. Ele dizia que “imitar os grandes mestres da história é sempre saudável. Mas imitar a si próprio é patético”.

Pablo Picasso, artista visual espanhol, dos maiores em todos os tempos

Eis o princípio da superação em Picasso: não se estagnar na imitação de si próprio. Tal princípio vale não só para aqueles que apenas reiteram fórmulas próprias, mas também para aqueles que se encontram reféns voluntários de doutrinas redutivas, assimiladas passivamente desde criança ou convertidas tardiamente, quer seja numa tribo de indústria da cultura ou numa seita religiosa. Nos tempos de Picasso estavam vigentes ainda as doutrinas dos partidos fascistas na Europa.

Neste segundo caso, o tal si próprio pode ser a armadilha de um engodo ideológico-cultural. Você supõe possuir voz própria, mas apenas imita clichês ad nauseam (repete chavões de outras pessoas, até provocar náusea), tal como no marketing das Fake News (notícias falsas, notícias forjadas) dos nazistas: “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”. Você se sente tão envolvido naquela cultura que a considera teu mundo próprio. Só que não é. Você se torna imitador de si próprio, sendo você mesmo o resultado de um simulacro. Vive-se num mundo falsificado.

Talento e vocação requerem transcendência no processo de superação. Toda transcendência parte de uma crítica e também de uma autocrítica. Toda crítica é crítica da linguagem e contrária às ideologias opressoras. Há que se reconhecer a contradição, justamente onde ela está sendo camuflada, dissimulada numa falsa aparência de fecundidade harmônica.

Sem o devido distanciamento crítico não deixaremos jamais de ser este eu patético criticado por Picasso, este falso eu, este si próprio pobre de mundo, restrito a tagarelices não raramente fascistas (o artista era oposição a Franco) e desprovido de linguagem.

Num só golpe se vivencia a morte da ética (com o discurso de ódio e de violência) e da estética (prevalecendo o mau gosto de uma parodia do coletivismo), golpe este envolto em precariedades epistemológicas (com a demonização das ciências, das artes e da filosofia).

Em meio a tais arbitrariedades, temos que ter a humildade e também a capacidade de superação de uma Clarisse Lispector, procurando compreender as contradições do mundo para além de nosso próprio talento e vocação, porque nada é fácil na vida.

O mundo da vida nos exige sensibilidade e força de um Aquiles.

*Rubens Russomanno Ricciardi é professor titular do Departamento de Música Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP Ribeirão. Também  maestro e diretor artístico da USP-Filarmônica, escreve quinzenalmente no Portal do Grupo Thathi.