Lacrada em uma tacada

O vereador de Ribeirão Preto Ramon (PSOL), professor da rede pública, com seu recheado gabinete, aprovou em plenária um projeto de lei que rasga qualquer livro de História do país. O projeto de lei Nº 265/2021 proíbe referências e homenagens públicas no município a personagens que tenham tido algum vínculo com a escravidão no Brasil. A princípio, soa pertinente, afinal quem pode elogiar o terrível fenômeno da escravidão no país?

Bom, não é disso que se trata. O vereador e seu gabinete certamente desconhecem o que é um anacronismo. De acordo com o dicionário Michaelis, anacronismo é, vereador:

1- Impropriedade cronológica: erro de data relativo a fatos ou pessoas.
2 – Erro de cronologia que consiste em situar, em uma época, personalidades, acontecimentos, ideias e sentimentos ou estilos próprios de outra: “[…] essas psicoses epidêmicas despontam em todos os tempos e em todos os lugares como anacronismos palmares, contrastes inevitáveis na evolução desigual dos povos […]”

Ou seja, remeter a épocas distintas sentimentos, conceitos e ideias que não permeavam o imaginário do contexto. Hoje temos ciência das mazelas escravocratas e sua herança. Entretanto, ainda não há um DeLorean que permita avisar os incautos daqueles tempos. O gabinete esquece de conceitos básicos da pesquisa histórica, de seu constructo. Para o gabinete, Duque de Caxias, Anhanguera, Padre José de Anchieta, Princesa Isabel, Bento Gonçalves, José de Alencar, Luiz Gama e outros tantos personagens de nossa história estão cancelados, proibidos de receber qualquer homenagem póstuma. Seus feitos, portanto, anulados. Zumbi de Palmares também será, vereador?

É nítido, nesse sentido, que Ramon e seus companheiros importam o enlatado Black Lives Matter, movimento americano que pratica a derrubada e depredação de monumentos históricos teoricamente racistas, em uma lógica um tanto quanto deturpada. Obviamente, é imprescindível que a narrativa histórica e a busca por sua compreensão não sejam contaminadas com noções que simplesmente não existiam no período de estudo, conceitos anacrônicos.

Ironicamente, aqueles que lutaram pela liberdade de expressão (a mesma que garante ao BLM o direito de se manifestar livremente) são hoje condenados e têm sua memória posta em cheque por tais militantes. Pela lógica do movimento, Washington, Jefferson, Hamilton e Franklin, Founding Fathers da América, bravos líderes da independência do país, teriam seus feitos e suas consequentes memórias repudiadas, condenadas. Censura histórica. Deve a capital dos EUA mudar de nome?

O psolista embarca na onda lacradora. Claro, há ali pretensões políticas evidentes. Lastimável a legislatura, passivamente, bovinamente, aprovar tamanho descalabro à História e aos agentes históricos que alavancaram a construção da potência municipal que é Ribeirão Preto. Duarte Nogueira (PSDB), prefeito municipal, merece aplausos pelo veto. Agora, a pauta retorna à Câmara. Umas aulas de História vão cair bem para os legisladores. A conferir.