“Ideologia de gênero” é fake news

Outro título análogo para este artigo seria: “Ideologia de gênero” é uma precariedade ético-estético-epistemológica.

Mas o anglicismo fake news, com sua maior intensidade semântica, talvez contextualize melhor, e de uma só vez, o engodo (falsificação, fraude, mentira), o kitsch (brega, mau gosto) e o nonsense (absurdo, bobagem enquanto teoria do conhecimento), que configuram esta expressão.

De uns tempos para cá, a tal “ideologia de gênero” vem sendo reiterada por políticos brasileiros, em geral do PSL, Novo, MBL e PSDB, entre outros partidos da extrema direita populista.

No Brasil, a arbitrariedade planejada da expressão remonta ao oportunismo de uma tradução adulterada. Ou seja, de propósito, o sentido original foi distorcido. O que era para ser um debate fecundo sobre liberdade e direitos humanos, passou a ser uma delegacia truculenta da moral e dos bons costumes, que, por meio de uma política já violenta, propaga tão somente a infelicidade e a frustração entre as pessoas.

Em suas origens, em 1990, a expressão original era gender trouble (problemas de gênero), formulada pela filósofa estadunidense Judith Butler, da Universidade da Califórnia, em Berkley.

 

Judith Butler

De imediato, aquela nova expressão foi assimilada em outros idiomas. Em francês, sua tradução literal foi Trouble dans le genre. Já em alemão se tornou das Unbehagen der Geschlechter, ou seja, o mal-estar dos gêneros, e esta tradução, por incrível que pareça, melhorou o original. Claro que todo problema gera um mal-estar, mas este mal-estar tem mais a ver com uma questão existencial. Os alemães talvez tenham pego carona numa crítica freudiana contrária à cultura. Justamente um dos tratados mais importantes de Sigmund Freud, Das Unbehagen in der Kultur ou O mal-estar na cultura, publicado em 1930, trata da condição opressora da cultura. Em sua pretensão de impor, sempre cada vez mais, padrões morais e de comportamento social, toda cultura castra a liberdade, numa posição antagônica à própria natureza (e eu acrescento aqui, antagônica também às condições artísticas, científicas e filosóficas) dos seres humanos.

Sigmund Freud

Mas o brasileiro é tão infeliz que, aqui, o livro foi traduzido por O mal-estar na civilização. Por que “civilização”, e não justamente o que Freud pensou e disse, “cultura”? Por que este erro crasso, mesmo grosseiro, na tradução de um livro tão importante? Porque o brasileiro sempre pensa a cultura como algo bom e bonito, incapaz que é de enxergar, na cultura, aquilo que deveria enxergar com maior inteligência, sempre um problema, um mal-estar, um mau gosto, um clichê, uma norma arbitrária, a liberdade mutilada e o intelecto preguiçoso.

Por ser essencialmente desigual, e, portanto, inadaptável às tentativas forçadas de hegemonia cultural, a natureza humana é complexa, heterogênea, sempre incompatível a qualquer conformidade. Eis que surge então o mal-estar cultural. E, como a condição erótica de cada ser humano diz respeito à sua natureza específica, idiossincrática por excelência, os conflitos antagônicos, da existência frente às amarras redutivas da cultura, tornam-se incontornáveis.

Eros, deus grego do amor e do erotismo (iconografia do século V a.C.)

Daí, aqui no Brasil, a extrema direita populista trocou problema (mal-estar) por ideologia, ou seja, um erro procurando legitimar uma fraude. Há tanto má fé quanto ignorância neste processo. Má fé porque inverte o sentido da causa: o que antes era um exercício de liberdade, passa a ser perseguição política. Ignorância porque a acepção de ideologia aqui não é filosófica, mas sim jornalística. Para a ditadura da opinião pública, ideologia se tornou o conjunto de ideias, a representação de um pensamento ou de um grupo político. Mas, na verdade, na única acepção filosófica possível, ideologia é sempre uma fraude, um engodo, uma distorção na política e no conhecimento, quando uma falsa autoridade procura se legitimar em meio à manipulação de aparelhos de poder.

Querem que eu dê um exemplo para ser mais didático? Vamos pensar num pastor neopentecostal. Durante o culto, em algum templo religioso, ele afirma algo “em nome de Jesus”. Essa é a mais flagrante ideologia. Porque, de fato, para que não fosse ideologia, Jesus teria que estar ali presente em pessoa e autorizá-lo: “sim, meu filho, pode falar em meu nome”. Sim, porque só o autor tem autoridade para autorizar. E, ao final do culto, quando se solicita o pagamento do dízimo aos crentes, sempre “em nome de Jesus”, está claro que o dinheiro não vai para o bolso de Jesus. Dá para entender o que é ideologia de fato?

Se fôssemos pensar numa perspectiva filosófica, a expressão “ideologia de gênero” indicaria alguém se ludibriando quanto ao gênero. Serviria, por exemplo, para designar aquele tipo de comportamento, como se diz vulgarmente, “daquele que está no armário”, ou seja, daquele que faz de conta que é uma coisa, sendo outra. Mas não é isso que se tem em mente.

Gostaria de concluir, sobre toda esta fake news reacionária da “ideologia de gênero”, que a grande confusão que deliberadamente se provoca, é a confusão entre cultura e natureza. Querem impor um enquadramento cultural, quando, na realidade, a questão é de natureza existencial. Por isso, a fake news da “ideologia de gênero” está sempre associada a outra fake news, a da “cura gay”, mais outra fraude.

Devemos, portanto, sempre refutar, cada vez que se ouvir dizer “ideologia de gênero”, que se trata de uma mentira, que isso não existe!

Devemos sempre nos posicionar naturalmente diante do mal-estar dos gêneros, já que o “masculino” e o “feminino” não dão conta das diversidades erótico-existenciais do homo sapiens.

Cada um deve viver tal como é, e ninguém poderá ser humilhado por conta de seu modo de ser e viver.

A liberdade, o direito e a dignidade humana devem prevalecer.

O respeito ao ser humano é sempre, acima de tudo, o respeito ao seu mundo existencial, o respeito à sua natureza, ao seu Lebenswelt (mundo da vida).

A natureza é sempre creatio (criação), incomensuravelmente maior e mais bela que a mera cultura.