Histórias de gente desimportante

Foto de rikka ameboshi no Pexels

Episódio 1

Acordei antes do sol nascer, na verdade, não dormi. Não durmo, no sentido de dormir, faz tempo, eu só apago. Então, melhor dizendo, fiquei ligado antes do sol nascer. Dessa vez, uma coisa esquisita no chão, entre minha cama e a do meu vizinho refletia uma luzinha vermelha. Eu não aguento vermelho. Chamei o povo, mas nem os que estavam em pé entenderam minha aflição. Saí dali correndo, meio cambaleando, fraco das pernas e das ideias, os chinelos com os pés trocados. Cheguei na Consolação já sem camisa, a alma como uma bandeira esfiapada no vento, caí, sentei perto do canteiro central. Eu tinha tido um nome.

Três quarteirões para baixo, um semáforo piscava só no vermelho, falava comigo. Não dei conversa. Desci em direção à Paulista, pé ante pé, desviando dos mortos da minha memória: Dulcinha, Léo, Cuca, Ariel Sereio, Zé das Alfaces. Overdose, overdose, overdose, pneumonia, facada. Na frente do Masp, encontrei Jesus, não aquele da Sé, o do estacionamento atrás do Trianon. E aí nóia? Fazendo? Tô de passeio, já tô indo, já tô indo! E me fui.

Tinha esfriado e eu nem vi, continuei descendo ou subindo, à direita, à esquerda conforme meus medos me diziam. Era já sol quente, me lembrei que eu torcia pra Portuguesa, será que ainda tem gente que torce pra Portuguesa? Rumei pra fora da cidade. Quase tarde. Um cheiro de coisa limpa me tirou de dentro e eu olhei ao de redor. Coisas verdes estalavam, um mato molinho, dava vontade de esfregar a cara nele. Choveu pesado, e eu fiquei na chuva me lavando. Fiquei nu ali mesmo na beira da estrada. Queria ter o cheiro daquele mato!

Deitei no chão e desta vez dormi. E sonhei que meu nome era João, filho do Bigodinho e da Dona Jandira, irmão do Chico, do Silvio e do Quequel. Tinha até uma irmãzinha, Elenice, seus cabelinhos lisinhos cor de casca de laranja. Um caminhão parou. Suspendeu o meu falecimento. Eram homens bons. Comi, bebi, vesti roupa e ganhei chinelo novo. Me levaram até o posto de gasolina, passaram sabonete, cortaram meu cabelo, minha barba. Eu obedeci tudo que eles mandaram.

Agora tô aqui. A moça disse que meu RG fica pronto em três dias e que meu nome é Davison da Silva Amaro, que tenho 32 anos e que eu trabalhava numa loja de calçados no centro da cidade.

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