Eu e Ribeirão

Fernando Pessoa, meu poeta-guru, certa vez escreveu:  “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”. Por coincidência (embora eu nunca acredite em coincidências) fiquei a ver o pôr do sol de Ribeirão Preto, da janela onde moro. Era de um vermelho lindo, que ganhava tons quanto mais se distanciava do horizonte.

Naquele momento fiz um dos passeios que os olhos propiciam e a alma referenda. Fui lá dentro de mim, como numa escrivaninha antiga, buscar as minhas memórias sobre a cidade que eu abraçara como minha. Foi então que eu me vi menino, correndo pelas ruas da cidade, reconhecendo suas entranhas, descobrindo seus labirintos e segredos. Eu cresci com Ribeirão Preto. Por mim passaram pessoas, mas passaram também cenas de filmes intensos.

Um dia, nadei no Rio Pardo, brinquei com suas traíras, seus dourados e lobós. Nadei e tomei para mim a água barrenta que vai colorir as minhas terras. Como no hino da cidade, decorada no meu coração muito mais do que uma canção e sim um designo: “ a minha terra é um coração, aberto ao sol pelas enxadas, sangrando amor e tradição, no despertar das madrugadas”.  O poeta Saulo Ramos, que escreveu essas palavras, soube traduzir não um sentimento, mas um cantochão de quem por aqui passou, ficou e se encantou.

Em Ribeirão Preto, aprendi a tomar cerveja, de modo superlativo absoluto e sintético. Aprendi a gostar de futebol, raspando a grama amontoada na chuteira da vida. Aprendi a amar como um pássaro livre e a ser grato pela existência. Aprendi a rezar para todos os santos, todos os credos e saber que sou apenas um apenas e mereço a fé como esperança. Aprendi a falar a língua dos anjos e dos demônios. Aprendi a ensinar a tabuada dos caminhos e o beabá  dos penhascos. Aprendi a ser o poeta das sarjetas e o cantor dos concretos. Aprendi que sonhar é mais valioso que se conformar.

Ribeirão Preto me ensinou a somar, a dividir e jamais subtrair. Aqui, eu firmei um compromisso com a eternidade dos meus sentidos e brinquei e brinco de ser múltiplo de meus desejos. Nada me encanta mais que o entardecer dessa cidade, que sangra a paixão dos loucos e queridos. Se aqui não for o lugar mais bonito do planeta, para mim o é, porque é meu, porque tem o meu sangue escorrido pelas veias de seus contornos e paisagens. Ribeirão é o Tejo que passa pela minha aldeia, aliás Ribeirão é a minha aldeia, com seus carros, seus aviões e seus foguetes. Tudo por aqui transpira deslumbramento.

Eu quis fazer um texto, listando 166 motivos para amar Ribeirão Preto. Desisti. Simplesmente porque só existe um motivo: amar a árvore que brota da terra da minha alma. Amar Ribeirão. O resto são palavras.  

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