Está faltando diálogo na sociedade!

Dias atrás em um grupo de estudiosos de Mikhail Bakhtin no WhatsApp, grupo que criei e administro dialogicamente, com quase 100 integrantes, um debate se instalou em torno do pedido de demissão da mestra em direito, Gabriela Prioli, do canal de televisão CNN. Muitos dos meus colegas de grupo são bastante politizados e defenderam que ela, por ser a voz da esquerda naquele programa, foi injustamente atacada por atitudes machistas.

Não entrando no mérito se foi ou não machismo, defendi a posição que ela ao se afastar do diálogo alegando perseguições ou silenciamentos era tão nocivo quanto enfrentá-lo e ser verdadeiramente perseguida e silenciada. Coisa que para quem ver o programa na internet não ocorreu. O debatedor de Prioli, o ativista político Tomé Abduch era sim pobre de argumentos e irritou-a durante o programa, mas, convenhamos, quando se há um espaço em cadeia nacional para se expor o seu lado da visão ideológico-política, abandonar o diálogo é viável?  Estar ali com espaço e poder falar por quase 20 minutos em um programa de uma hora é ser cerceada do debate? Eis o tema que me levou ao texto de hoje. A falta da arte do diálogo na nossa sociedade.

Foto: Reprodução YouTube

Acredito que isso seja um tema crucial, a observar na nossa grande mídia, pela forma como falamos uns com os outros ultimamente. Geralmente, tanto na televisão quanto na vida cotidiana isto anda se dando por maneiras muito agressivas. Nossos discursos, debates, falas, a forma como se anda discutindo as coisas, anda muito longe da arte do diálogo. Basta olhar nas discussões entre membros do legislativo, mídia, mesmo no educado mundo acadêmico ou jurídico, igrejas e religiões, tudo anda muito pendendo para o lado da comunicação agressiva. A verdade não anda sendo suficiente e com isso aprender com ela. O que se tem hoje em dia é uma necessidade compulsiva de humilhar e derrotar o oponente do debate a ponto de eliminá-lo. Aqui vem o ponto que critiquei em Prioli. Ela aceitou ser eliminada do programa, e por vontade própria.

O engraçado é que diálogo é uma palavra sempre em voga. Todos falam que pretendem ter o diálogo. Sérgio Moro demitiu-se e acusou o presidente de falta de diálogo. Jair Bolsonaro defendeu-se dizendo que Moro saiu do governo com acusações infundadas sem ter antes diálogo (e Bolsonaro faz isso acusando). Por muitas vezes na universidade pública vivenciei colegas acadêmicos defendendo o diálogo, mas quando se discorda de algo ganha-se a alcunha que se ganha é de fascista ou machista ou qualquer outro ista. Na política, só há diálogo se se concorda com o lado que profere os enunciados. Em suma, o que se percebe é que mais falta diálogo do que ele acontece. Todos querem o diálogo, mas poucos praticam sua arte.

Algo que tem que ser percebido é que se todos entrassem em verdadeiro diálogo, mas ações de paz aconteceriam, mas o que se percebe é que nas redes sociais e mundo as pessoas querem é ter razão, não importa o custo. Diatribe é a palavra para isto. São críticas severas e mordazes que mais afastam-se de dialogar do que verdadeiramente propõe-no. Observemos algo: quando alguém afirma que é preciso propor o diálogo com alguém extremista, geralmente isto significa o ataque puro e gratuito que por muitas vezes culmina na violência. Há na história recente do Brasil um repórter cinematográfico morto por um rojão disparado em manifestação “pacífica” ou um manifestante da direita sendo agredido até terminar atropelado por um caminhão e um estudante universitário da UFPR foi agredido a garrafadas por apoiadores do atual governo. Os casos devem ser muito mais numerosos, mas relatei os que saiu na grande mídia. O que isso comprova? Que dialogar hoje em dia é sinônimo de ou concorda comigo ou te eliminamos.

Manifestante ferido em frente o Instituto Lula Foto: Leonardo Lellis/VEJA
Foto: Reprodução Facebook

O conceito de diálogo foi concebido na Grécia antiga por Sócrates, que foi o fundador da tradição racional ocidental. Quando as pessoas vinham falar com o filósofo, convictas de que sabiam o que falavam, após pouco tempo de perguntas direcionadas, percebiam que pouco sabiam sobre o que verdadeiramente afirmavam. Ao final de um diálogo socrático, conforme nos escreveu Platão, as pessoas tinham em si a convicção de não saber e neste momento Sócrates proferia “Você se tornou um filósofo”. Ao final de sua vida ele afirmou que tinha se tornado um homem sábio porque sabia que nada sabia. É isto que falta na atualidade.

Para entrar em um diálogo você tem de estar mais preparado para ouvir e mudar em alguma coisa aquilo que se pensava anteriormente. Não significa aderir ao lado oposto e sim respeitá-lo e perceber viabilidade em seus argumentos, porque nem todos estão cem por cento certos ou cem por cento errados.  É saber que algo na sua convicção será um pouco abalado para você poder perceber o outro com mais clareza e assim compreendê-lo. Nisto volto ao meu filósofo de estudos, Mikhail Bakhtin, que defendia incessantemente a presença do diálogo e da alteridade como forma de uma novo humanismo mais justo.

A morte de Sócrates, de Jacques-Louis David

Geralmente quando vemos debates como o que gerou a discussão no grupo, o programa “O grande debate” da CNN Brasil, ou mesmo percebendo vídeos exageradamente postados na rede do atual deputado Kim Kataguiri, quando o outro está falando, não se está prestando atenção ao que ele diz e sim está se está a elocubrar qual o próximo comentário brilhante que vai-se fazer para derrotar o adversário. Isso não é de forma alguma diálogo.

Quando se observa a cisão política atual brasileira, entre esquerda e bolsonaristas, cada um com sua própria narrativa acerca dos fatos, logo um dos lados vai se arvorar em dizer que tal coisa ou fato não foi exatamente assim. Do pouco que já li sobre psicologia, em especial nas aulas de psicolinguística de meu mestrado e doutorado, qualquer psicólogo afirmaria que a narração externalizada do outro nunca será algo de precisão histórica ou factual absoluta porque contém ali as dores, horrores, visões, enfim, sentimentos intensos das pessoas que afirmam o que estão defendendo. É isto que deve ser ouvido. O lado do outro. A alteridade. Dialogismo e alteridade são categorias de Mikhail Bakhtin desenvolvidas no começo do século XX e que remontam à tradição filosófica greco-ocidental. Contudo, na hora do debate, o que mais se quer é estar certo e não dialogar. Ou seja, fascista é aquele que não sabe ouvir o outro, seja este eleitor de qualquer político brasileiro ou qualquer que seja a ideologia que se defenda.

A “arte de esquecer” foi um ideal desenvolvido pelos taoístas chineses na antiguidade. E estamos tão bagunçados dialeticamente, no sentido platônico, que muito daquilo que pensamos ter adquirido como conhecimento ou saber se mostrou falível e instável. No que isto tem a ver com os chineses e a arte de esquecer? Basta observar que no mundo em que vivemos, não sabemos o que fazer com o meio ambiente, que posição política seguir, que o capitalismo ainda não se provou o melhor método, em suma, é preciso esquecer um pouco das posições arraigadas para florescer uma nova posição humanista. E isso passa por deixar de lado proposições de querer estar certo à base de posições agressivas e de falar e pensar mais uns sobre os outros.

Sócrates, Platão, Bakhtin e outros que citei neste texto não podem estar tão errados. Se você não concorda com o outro e quer provar que está certo para ele, então é melhor repensar as suas atitudes e reconsiderar a sua proposição para o que realmente significa o diálogo. E voltando ao início do texto, onde a ideia deste texto principiou, Gabriela Prioli não se demitiu da CNN. Noticiou-se que um dos motivos dela sair do programa não era porque fora interrompida ou vitimizada; aconteceu porque ela não queria trabalhar no formato matutino, haja vista que seu esposo é músico e ela gosta de acompanhá-lo à noite. Como diria Shakespeare, muito barulho por nada. Ela está agora em um programa novo, no horário que desejava inicialmente e não debatendo com ninguém. É uma entrevistadora. Só pergunta e o outro só responde. Fica fácil dialogar assim, não é mesmo?