Era uma vez em… Bacurau

Talvez seja despropositada a comparação entre obras de arte, talvez seja o melhor dos recursos para o argumento. O fato é: torna-se impossível não o fazer quando os dois filmes mais falados dos últimos meses têm exatamente a mesma trama! Estou falando de “Era uma vez em Hollywood”, de Quentin Tarantino, e “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Atenção que há spoilers para ambos os filmes, cuja história é: grupo de assassinos adentra local pretendendo cometer uma chacina e é recebido por pessoas ainda mais loucas que trituram elas. E tudo isso sob efeito de fortes psicotrópicos!

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Arrisco dizer, contudo, sabendo que a maior parte dos críticos brasileiros, e quase toda a esquerda vai discordar, que o filme de Quentin Tarantino é melhor. “Ah, mas não precisa ficar comparando”, de fato, mas como dito, os filmes têm a mesma trama, ou seja, partilham de uma mesma meta, de forma que torna-se então possível compará-los de um ponto de vista quase objetivo ao analisar a eficácia da apresentação de sua crítica, que é, grosso modo, à violência. Mas mais que isso, “Era uma vez em Hollywood”, na verdade, faz uma crítica a filmes como Bacurau! Mas antes de mais nada é mais eficiente ao lidar com a violência porque o espectador sai do cinema com a certeza de que os personagens de Brad Pitt e Leonardo DiCaprio são completamente malucos, e provavelmente deveriam ser presos, enquanto pode ver em Lunga um ícone de resistência, e ele é mesmo apresentando como um super-herói.

Esse ponto de vista, de Bacurau, é o que Tarantino explorou nos seus filmes anteriores, principalmente em “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”: a violência torna-se totalmente justificada quando é praticada contra as pessoas certas; nazistas e escravocatas racistas, respectivamente. Mais que justificada, a violência torna-se desejável e comemorada, que não é senão a lógica do clímax desses filmes. Dentro dessa discussão, “Bacurau” encontra-se exatamente nesse ponto: a violência é justificada porque é contra colonialistas assassinos filhos da puta, e a cena que gera a maior reação no filme é provavelmente a que o ancião do sertão, nu obviamente, explode a cara de um gringo, segurando a arma bem do jeito que seguravam os cangaceiros.

Em Era uma vez em Hollywood, Tarantino ironiza a coisa, ironiza sua carreira inteira, de certa forma, e faz piadas com filmes como “Bacurau”, que é justamente o tipo de filme que ele costuma fazer. Muito chamou-se atenção a esse fato, de que “Bacurau” tem muito dos filmes do Tarantino, e tem mesmo, não só na violência gráfica mas também no aspecto de serem filmes de gênero, assumida e orgulhosamente. Mas espanta-me que não seja objeto de discussão o fato de os filmes terem praticamente a mesma trama e, na verdade, de “Era uma vez em Hollywood” falar de filmes como “Bacurau”.

Em certo nível, “Bacurau” está pareado com os faroestes que o personagem Rick Dalton fazia, que é o mesmo nível em que Tarantino coloca seus próprios filmes em Era uma vez em Hollywood, na verdade, e “Bacurau” é perfeitamente equivalente a um de Dalton em específico, “The Fourteen Fists of McCluskey”, o que ele queima os nazistas vivos; é a mesma coisa do banho de sangue do Lunga, comemorado no cinema hoje da mesma forma com que filmes como esse do Rick Dalton eram há algumas décadas, e que é um modelo que o próprio Tarantino utilizou anteriormente, notadamente no clímax de Bastardos Inglórios, onde, também, os nazistas pegam fogo; ou mesmo na chacina que “Django” comete, equivalente a de Lunga. A repetição praticamente idêntica do clímax dos “Bastardos Inglórios” no “Era uma vez em Hollywood”, mas agora num filme de um ator fracassado e não numa obra-prima do ó tão grande Tarantino, revela, justamente, o ponto. “Bacurau” é um filme como “Bastardos Inglórios”, como “Django Livre”, e “Era uma vez em Hollywood” faz uma crítica a essa abordagem.

Se em “Bacurau” é tranquilo Lunga cometer a chacina, decapitar as pessoas, porque são gringos colonialistas assassinos filhos da puta, e se em “Bastardos Inglórios” é legal uma pessoa pegar fogo porque é o Hitler, em Era uma vez em Hollywood Leonardo DiCaprio taca fogo numa pessoa de maneira totalmente despropositada. “Ah, mas eram invasores assassinos”, certo. Mas é claramente desproporcional, o filme deixa isso evidente, é uma piada até. Em Bacurau, não; inclusive, logo no fim o filme fez questão de fazer um de seus personagens ressaltar esse fato, confirmando que não, aquilo não era um exagero.

Em “Era uma vez em Hollywood”, Tarantino, invés de glorificar a violência, busca destruí-la, mas não negando-a, como fizera antes no clímax de Kill Bill, em que o filme de repente apresenta uma explosão de fofura, uma cena absolutamente genial, mas sim esgotando-a. Diferente de seus outros filmes, nesse a violência torna-se muito rapidamente exagerada, e claramente despropositada e servindo como recurso cômico, até. A cena em que Brad Pitt taca uma lata na cabeça da moça, por exemplo, destruindo-lhe a cara; isso foi de explodir a sala do cinema em risada, e é provavelmente a cena mais brutal do filme.

Já em “Bacurau” a violência, igualmente gráfica mesmo em seus momentos extremos, é sempre levada a sério, e o clímax do filme é apenas tenso, totalmente tenso, do começo ao fim. A violência é glorificada em “Bacurau”, ela termina justificada; e essa é a fórmula dos melhores filmes do Tarantino. Mas, nesse último, eu diria que ele fez a infame autocrítica. É ao mesmo tempo algo como Tarantino: o Filme. É seu filme mais tarantinesco, a um ponto em que ele é totalmente autorreferente, praticamente um espelho, mas mais como um caleidoscópio. A constante metalinguagem que é uma marca de sua obra com a existência de filmes nos filmes é nesse filme acentuada, uma espécie de Tarantino em esteroides em que os filmes dentro deste são claramente referências à sua própria obra. É também o filme em que há a maior quantidade de pés. E eles estão todos sujos.

Acima de tudo, “Era uma vez em Hollywood” é um filme sobre alguns dos maiores responsáveis pela disseminação e a normalização da violência no mundo: os produtores de entretenimento, e evidentemente Tarantino utiliza a si mesmo como objeto. Observa-se então que não é sem sentido a crítica da família Manson, muito pelo contrário, e não deve haver outro motivo para Tarantino ter escolhido essa história para provar esse ponto. É esse o argumento do filme, pelo menos, e ele o constrói de uma maneira muito eficiente: a primeira e última vez em que as motivações da família Manson são mencionadas é imediatamente antes do clímax, quando os três assassinos estão no carro tentando apaziguar suas angústias e justificar racionalmente o que estão prestes a fazer. Foram esses artistas malditos que nos ensinaram a violência, eles dizem, Vamos matá-los!

Esse momento serve para você construir um certo resguardo por Rick Dalton, que eles acabam de decidir matar. Ele é o protagonista do filme, e você não quer que ele morra; esses são os vilões, e eles claramente estão enganados e, como vilões, é bom que se fodam. Pouco depois é provado que não, não, Rick Dalton não era digno de qualquer tipo de compaixão: ele incinera uma pessoa à toa, uma pessoa praticamente inválida. Uma pessoa, inclusive, que meia hora antes vimos estar claramente indecisa e insegura quanto a seus atos, numa cena em que o filme muito bem ressaltou quão perdidos eram os vilões. Especificamente, a pessoa cuja face Brad Pitt quebrara com a lata de ração para cães, no momento mais engraçado do filme.

O filme tenta ironicamente provar o ponto de Charles Manson, no que faz sua crítica à indústria do entretenimento. E ela faz sentido porque me questiono, justamente, que tipo de ideia filmes como “Bacurau” estão a disseminar. Veja bem, o ponto é que essas pessoas se safam, Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles, Quentin Tarantino, Rick Dalton, Cliff Booth, porque são imediatamente compreendidas como excêntricas – são artistas, e artistas, como tudo mundo sabe, são loucos, e é esperado que façam loucuras. Mas e a população de “Bacurau”? É normal que cometam uma chacina? É todo mundo louco no sertão pernambucano, é isso que você está me dizendo?

São pessoas loucas cuja excentricidade é normalizada – artistas, e uma comunidade meio messiânica no sertão. Mas pra ressaltar esse aspecto, ambos os filmes, os dois!, fazem questão de introduzir ‘fortes psicotrópicos’ à trama- a fim de sublinhar o absurdo que é agir dessa maneira com que os personagens agem. Eu me pergunto apenas se é saudável cultivar essa imagem, se é Bacurau que nós queremos.