“Entre Quintas”

Como estou estreando por aqui, achei que seria legal contar pra você um pouco sobre mim. Aí, pensando em como poderia fazer isso, me lembrei de um texto que escrevi quando completei 50 anos. Na época me dei conta de que nasci e completei 50 anos numa 5ª feira. Minha vida tem trilha sonora, então, resolvi usar a música como fio condutor nesta retrospectiva.
Batizei o texto de “Entre Quintas”. Vem comigo!

Nasci numa 5ª feira pós-carnaval e segundo minha mãe dei algum trabalho pra vir ao mundo. Foram dois alarmes falsos até que nasci as 10h30, daquele 27 de fevereiro do ano de 1964, em São Paulo. A música mais tocada pelo mundo era “My Girl” – The Temptation. Aqui no Brasil, contrariando os padrões, o que tocava era “Datemi un Martello” com a Rita Pavone. “Aquarela Brasileira” foi o Samba Enredo da Império Serrano, os Beatles cantavam “I Want To Hold Your Hand” e Roberto Carlos “Parei na Contramão”.
Com pouco mais de 1 ano, chorava parada em frente à TV ao som do comercial dos cobertores Parahyba.“Tá na hora de dormir, não espere a mamãe mandar, um bom sonho pra você, e um alegre despertar”. Um sinal claro do que seria uma das minhas caraterísticas: boemia.

Quando fiz onze anos, meus pais no maior sacrifício me mandaram pra Disney e a música que me leva de volta aos braços do Mickey é “Loving you” de Minnie Riperton. Com doze, numa festa da escola – eu que era apaixonada pelo galã – senti a maior emoção quando ele me tirou pra dançar de rostinho colado ao som de “Mandy” do Barry Manilow.
Dois anos depois, no baile de debutante na Recreativa de Pontal, dancei minha primeira valsa – a famosa “Valsa do Imperador”- Strauss – nos braços do ator Global Mário Cardoso – “Nossa, você dança melhor que A Moreninha” – gracejou, numa referência à novela em que atuava na época ao lado de Nívea Maria.

Com dezesseis, namorando o meu grande amor da adolescência, vivi dias de glória no carnaval ao som de “Balancê” e das boas e velhas marchinhas que até hoje me fazem fechar os olhos e reviver aquelas emoções.
Foi com ele que aprendi a dirigir ao som de “Saudade” – Jane Duboc, o que me tornou uma das mais fervorosas fãs desta cantora que considero das melhores no mundo. Tinha quase vinte anos, quando fui passar férias sozinha em Salvador e o que embalava minhas manhãs era “Ursinho Blau Blau” – Absyntho.

Anos 80 – estudante de Publicidade e Propaganda na Cásper Líbero, não perdia uma só gravação do Programa Raul Gil. Foi um período delicioso, onde ao lado da Nanci, conheci um monte de gente famosa. Adorava quando o Léo Jaime ia ao programa, por exemplo. Ficava paralisada ouvindo ele cantar: ência, vivi dias de glória no carnaval ao som de “Balancê” e das boas e velhas marchinhas que até hoje me fazem fechar os olhos e reviver aquelas emoções.
Foi com ele que aprendi a dirigir ao som de “Saudade” – Jane Duboc, o que me tornou uma das mais fervorosas fãs desta cantora que considero das melhores no mundo. Tinha quase vinte anos, quando fui passar férias sozinha em Salvador e o que embalava minhas manhãs era “Ursinho Blau Blau” – Absyntho.
Anos 80 – estudante de Publicidade e Propaganda na Cásper Líbero, não perdia uma só gravação do Programa Raul Gil. Foi um período delicioso, onde ao lado da Nanci, conheci um monte de gente famosa. Adorava quando o Léo Jaime ia ao programa, por exemplo. Ficava paralisada ouvindo ele cantar:

“Alguém sabe o que é ficar em casa só e chapadão, olhando pela madrugada o Polteirgeist na televisão”…
Me apaixonei platonicamente cantores, atores e apresentadores de TV , na melhor versão tardia de adolescente que alguém possa ter tido. Dentre os meus “sonhos de consumo” estava César Filho. Ah, como ele era fofo atrás daquela bancada do extinto TV MULHER. Imagina minha emoção ao encontrá-lo num lançamento de disco? Foi na Roof – boate bacanuda de Sampa, numa noite em que, além do Jorge Benjor – era só Bem – conheci o Chacrinha. O disco era do Guilherme Arantes e “Cheia de Charme” foi a música mais aplaudida.
Tempos depois, já formada e trabalhando na Almap presenciei um show histórico. Ultraje a Rigor, cantando na laje do Top Center, em plena Paulista na hora do almoço. Entre “Marylou”, “Ciúme” e “Nós Vamos Invadir sua Praia”, quase morremos de congestão de tanto dançar no meio da avenida.
“Don’t Dream It’s Over” – Crowded House me faz lembrar um namorado que tive logo depois e com quem quase me casei. É, coloquei fim na história com apartamento, móveis e eletrodomésticos comprados, igreja marcada e vestido de noiva pago.

Casei com meu primeiro marido um ano e meio depois. A cerimônia foi linda, do jeito que a gente queria. Nada de igreja, de padre, de promessas que não poderiam ser cumpridas. E cheia de amor, de amigos de música e dança. Entrei ao som de “As quatro estações” de Vivaldi – Primavera, mais conhecida como a música do comercial do sabonete Vinólia. E saímos ao som de “Juntos”, do Ivan Lins. Foi lindo!!!

Um ano depois, enquanto Whitney Houston cantava “I Will Always Love You”, eu já embalava minha primogênita Marcella.

Mudei para Ribeirão em 1994 e conheci José Adolfo, na época dono da Rádio Difusora. Afinidade imediata, cumplicidade inesperada. O Zé era um querido. Quando ele morreu 2 anos depois, perdi um pouco do chão. Hoje, quando ouço “Onde você mora” do Cidade Negra, sinto o cheiro da lasanha do Feola, na velha cantina da rua São José e vejo aquele o gesto de arrumar os óculos no rosto que o Zé fazia.

Os meus filhos gêmeos, João Pedro e Raphael, nasceram na mesma época em que João Paulo e Daniel estouraram e diante da confusão que faziam com os nomes deles, todas as vezes que ouço “Estou apaixonado” me lembro dessa época.

Separada, uma noite me deparei com um amor inesperado, proibido, impossível, que me fez viver as mais fortes emoções que tive na vida. Tony Braxton com seu disco “Secrets”, embalou o romance, assim como “Let’s talk about love” da Celine Dion e “Destiny” da Gloria Estefan. A música das músicas foi “I Hate then I Love you” gravação espetacular de Celine com Pavarotti.

Aí veio o câncer e minha memória me fez um favor: não registrou nada musical por três anos, com exceção da canção que escolhi para raspar meus cabelos, num plágio desavergonhado da Carolina Dickeman: “ Love By Grace” – Lara Fabian .

Alguns meses depois de achar que estava curada, enquanto chacoalhava o esqueleto, no Club Med ao som de “Can´t get you out of my head” – Kylie Minogue – descobri outro nódulo no mesmo seio, no mesmo lugar.

Oh Shit! Here we are go, again!!!
Junto com o câncer, tive relacionamentos confusos, superficiais e que foram devidamente esquecidos.
Mas, não saí ilesa. A baixa autoestima me aproximou de um psicopata. Um namoro que me tirou a alegria, a paz e o direito de ir e vir. Durante quatro anos, fragilizada pelo período de tratamento, pela falta de cabelo e de dinheiro, pelo excesso de peso e pela mastectomia, me submeti aos caprichos, mandos, abusos e violência emocional de um homem doente. Não me orgulho nem um pouco disso, demorei anos para me perdoar e até hoje qualquer música do Legião Urbana é motivo para trocar a estação do rádio.
Um grande amor, amigo e companheiro delicioso, veio em seguida como que para me devolver a confiança. Muitas afinidades, muita cumplicidade, muito carinho, muitos planos, mas nada disso foi capaz de nos manter juntos. Desses seis anos carrego boas lembranças. A superação de alguns traumas, muito aprendizado, muitas festas, muito cinema, algumas viagens, sons como o da Duffy e da Banda “Sua Mãe” do Wagner Moura e a certeza de que foi eterno enquanto durou. Nunca mais ouvirei “Um amor puro” do Djavan sem me emocionar. Ele também não.

Fiz 50 anos numa quinta-feira. Sozinha, “num intervalo entre duas felicidades” – como diria Vinícius.
Depois disso, tive um relacionamento que me fez ver o quanto estava forte, com autoestima restaurada e que não me permitiria jamais, ser novamente desrespeitada. “Quem me dera” – Maria Gadu e Ivan Lins – foi uma música que marcou a fase.

Há três anos tenho aprendido muito sobre o assunto mais importante da minha vida: Eu mesma. Entre tropeços, acertos, retrocessos, erros e muita vontade de evoluir, aprendi a trocar expectativa por oportunidade. Aceitei que sou a única responsável pela minha vida. Entendi que posso criar a minha realidade e que devo me livrar de crenças limitantes. Fiz as pazes com o passado que não posso mudar, me mantenho atenta ao presente e não anseio por um futuro que não posso controlar. Alguns mantras como o “OM MANI PADME HUM” na belíssima versão de Imee Ooim, são companheiros desta viagem longa e deliciosa que faço diariamente por dentro de mim.
Nunca perdi a fé, meu nome do meio é resiliência e tenho a mais absoluta certeza de que muitas outras canções farão parte das histórias que estão por vir.