Educação em tempos de pandemia

A educação sempre foi uma porta para muitas oportunidades e um instrumento de transformação. Contudo, pode nos servir como um valioso termômetro de nossas desigualdades e um reflexo de nossas mazelas, especialmente em tempos como o que enfrentamos.

Um dos efeitos da pandemia do Corona Vírus foi o de expor e escancarar as diferenças abissais entre os estudantes de nosso país e as diversas realidades de ensino, isso somado à absoluta falta de liderança, de condução e coordenação política da situação por parte do Governo Federal, de modo a administrar e reverter a já existente crise na educação ainda mais agravada com a atual pandemia.

Primeiramente deve-se pontuar que nessa realidade, não há quem ganhe, mas muito embora ninguém passe incólume por essa pandemia, seus efeitos não são sentidos igualmente por todos. Uma constatação já de anos em nosso país é a dificuldade e, muitas vezes, inclusive, a
impossibilidade de dezenas de milhares de jovens de acessarem o ensino superior. Não falarei aqui do ensino básico, cuja realidade é ainda mais complexa e delicada.

Venho de uma família pobre e tive a oportunidade de acessar o ensino público de qualidade e iniciar minha carreira acadêmica na universidade pública, sei das dificuldades que o alunado periférico tem de acessar esse espaço. A docência, por outro lado, deu-me a oportunidade de conhecer a realidade do ensino privado e de um outro perfil de alunado. Hoje, conhecendo um pouco dessas duas
realidades e acumulando experiências e vivências nesses dois espaços, posso dizer que a educação em nosso país vai de mal a pior. E uma educação insuficiente representa um triste saldo de oportunidades perdidas e o anúncio de uma tragédia social.

Olhando para a realidade da Universidade Pública deparamo-nos com o abandono, o desmonte e muito mais do que isso, com discursos e manifestações de descrédito e descaso com a própria ciência e o conhecimento. Isso em um momento em que mais precisaríamos fortalecer a pesquisa, não apenas para a investigação de tratamentos e vacinas, mas em todos os campos do conhecimento de modo a pensarem conjuntamente soluções para nossos crescentes e urgentes desafios. Isso porque a Universidade, muito mais do que preparar profissionais e ensinar as novas gerações, também produz conhecimento e esse conhecimento pode mudar vidas e melhorar nossa realidade.

Por isso, seria crucial estreitar os laços do poder público com essas instituições, destinar recursos e fomentar a produção de conhecimento e de soluções para nossos desafios locais. A realidade, no entanto, é de uma universidade precarizada e sob constante ataque.

No âmbito do ensino privado, mais uma vez constatamos os efeitos perversos do abandono da educação e da ausência, cada vez mais sentida, de uma política educacional. Opção para milhares de jovens e adultos que não conseguem ou não podem acessar o ensino superior público, as instituições privadas desempenham esse importante papel de serem um reforço e complemento ao direito básico de acesso à educação.

Contudo, boa parte dessas instituições atende sobretudo a um público com particularidades e, em geral, com sérias dificuldades. Primeiramente, dificuldades de ordem financeira, necessitando, inclusive do auxílio de políticas públicas e programas sociais que lhes
garantam o financiamento ou ao menos subsídios parciais com que possam arcar com os custos, nem sempre pequenos, das mensalidades, equilibrando-se entre estudos e trabalho. Com a redução dessas políticas de financiamento, o enxugamento e corte de despesas cada vez mais agravadas pelo cenário das nossas muitas crises (que sempre sacrificam os serviços e direitos mais básicos e comprometem acima de tudo os mais pobres) dezenas de jovens estão hoje sem possibilidade de acessar ou se manter no ensino privado. Dos que conseguiram acesso, muitos lutam e temem a perda de suas bolsas, ou, ainda pior, a perda dos seus trabalhos, a inadimplência e a impossibilidade
de seguir seus projetos e seus sonhos.

Outra dificuldade ainda diz respeito às muitas deficiências trazidas da formação básica, na maior parte das vezes, pública e quase sempre precária, que faz do aprendizado um desafio ainda maior.

Com a pandemia, o ensino presencial foi, por força e necessidade das circunstâncias, transferido para o mundo virtual e com isso, alguns de nossos já conhecidos problemas tornaram-se ainda maiores. Não se trata mais e apenas do desafio de superar as deficiências e falhas de formação em um aspecto conceitual teórico. Trata-se de uma impossibilidade real e concreta de acompanhar o processo e aqui, falamos no sentido mais prático e direto possível, em um sentido material. Isso porque muitos dos nossos alunos de instituições privadas não possuem sequer condições instrumentais de acessar as aulas, seja pela falta de equipamentos básicos como um computador ou pela falta ou baixa qualidade de acesso à internet. Vemos ainda o quanto nos falta preparo para enfrentar a realidade de um mundo cada vez mais digital, já que entre os que conseguem acesso, um número não pequeno de alunos apresenta enormes dificuldades em lidar com plataformas,
programas e mesmo com tarefas cotidianas do universo digital.

Há anos temos ouvido falar da era digital e de como poderia representar uma aliada na democratização do ensino. Hoje vê-se que essa democratização é uma falácia. Pressupor que o simples avanço da tecnologia faça desaparecer as barreiras e universalizar as oportunidades é uma crença bastante ingênua, já que o próprio acesso à tecnologia não é universal ou democratizado.

Todo esse trabalho requer preparo, capacitação e mesmo, o reconhecimento de que nem tudo se resolver por e com tecnologia. Não nos esqueçamos de que educação também é um processo de humanização, que muitas vezes exige e demanda contato, proximidade, troca, afeto e essa é uma ausência muito fácil de se constatar e sentir nesses nossos tempos de pandemia.

E é aí que voltamos, mais uma vez, para a formação básica e para os problemas estruturais do nosso ensino que resvalam sempre na nossa falta de planejamento, na ausência ou ineficiência dos poderes ou das políticas públicas. Quando pensamos a forma como nossos alunos do ensino básico tem sofrido com a pandemia, vemos mais uma vez nosso abismo de desigualdade que já se observa desde a educação de base e que se aprofunda cada vez mais nesse momento. De um lado, jovens que conseguem acessar as aulas e conteúdos, que possuem um espaço e condições para o estudo doméstico, de outro, centenas de milhares de jovens sem aulas, sem merendas, sem acesso à
tecnologia e à internet.

Diversos municípios não possuem qualquer estrutura, preparo ou condições para contornar o problema e muitos estudam fazer uso de canais de televisão e rádio para tentar garantir algum acesso por parte desses jovens, como se apenas fazer chegar a informação fosse suficiente para compensar as diversas outras dificuldades e carências desse alunado tão vulnerável e abandonado, sem qualquer acompanhamento ou assistência, muita vezes nem mesmo em suas próprias casas. Pois esse é mais um dos muitos retratos da nossa pandemia e do nosso pandemônio educacional, jovens recorrendo a tecnologia do século passado (sem nenhum demérito ao rádio e à
sua importância histórica e cultural) como única forma de acesso ao conhecimento.

Estamos perdendo oportunidades, estamos sacrificando jovens, estamos arruinando o futuro. Importante também lembrar que embora possua boa parte da culpa, esse caos educacional não se deve apenas ao Governo Federal. Ainda que a fatura da pandemia lhe caiba em grande medida, a dívida também já se arrasta há muitos anos na conta dos Estados e municípios. Há poucos dias, tivemos uma importante conquista no campo da educação, a aprovação da PEC do novo FUNDEB, a qual torna permanente esse importante Fundo para o custeio da Educação Básica.

Criado em 2006 com o objetivo de melhorar a qualidade do ensino brasileiro e aumentar a participação e apoio da esfera federal no custeio da educação básica, trouxe inúmeros ganhos e garantiu avanços. Contudo,revelou também que a educação é um desafio ainda mais sério do que se imaginava, uma luta e uma responsabilidade de todos. Um importante passo foi dado com a aprovação do novo FUNDEB, contudo, mais de uma década depois de sua criação sabemos que ainda há muito a ser feito e que precisamos todos, mais do que nunca, nos engajar e participar da defesada educação de nosso país.