‘Decisões políticas’ deveriam ser, antes de tudo, ‘decisões humanas’

Uma frase pode causar um efeito diferente em cada leitor. Isso vai depender da educação familiar, escolar ou das histórias e pontos de vista em que passamos a acreditar. O mundo é vasto e múltiplo. Mas a essência da vida não mudou. E não mudará, creio, por todo o tempo em que estivermos aqui, vivos ou encarnados, como dizem alguns. A maioria de nós, brasileiros, é formada por cristãos. Porque acreditamos no que falam sobre Jesus Cristo (ele não deixou nada escrito). Há povos que nem sequer aceitam que ele tenha existido. Eu, particularmente, converso com ele todos os dias. Somos amigos e isso me torna melhor. Parece tolice. Mas é possível, real. E o faço com consciência e lucidez, e também com alegria.

O Brasil passa por muitas disputas políticas em meio à pandemia da Covid-19, que já tirou a vida de quase trezentas mil pessoas só em nosso país. E uma dessas disputas de hoje nasceu lá atrás com a palavra inventada nas eleições de 2018: o BOLSODORIA.

Eu não sei. A primeira coisa que me vem à cabeça, toda vez que ouço a expressão “decisão política”, é que ela deveria ser, antes de tudo, uma “decisão humana”. Essa comparação parece ter a mesma origem, já que são as pessoas, os humanos, que tomam decisões políticas. Mas peço que compreendam a diferença que busco mostrar. O grande filósofo Aristóteles, que viveu trezentos e poucos anos antes de Jesus, na Grécia, disse que “o ser humano é um animal político”. Ele se referia à necessidade que todos temos de viver em comunidade, na pólis (que significa “cidade” em grego). A palavra “política” também tem origem em pólis. Pois juntos, segundo ele, e por meio da linguagem, que nos diferencia dos outros animais, construiríamos uma sociedade justa, que buscasse o bem comum, a felicidade coletiva, e todos com o direito de se expressar livremente.

Jesus, volto ao ponto inicial, em seu governo não reconhecido pelos romanos, nunca falou nada que não carregasse consigo exemplos e práticas de amor. E suas decisões e escolhas foram sempre para o bem de seu povo, para a diminuição da pobreza, uma pobreza muito mais de sentimentos, de pensamentos e ações, do que material. Já as escolhas políticas de milhares de governantes, entre tantos que passaram até aqui, se distanciaram significativamente do que Aristóteles pensava. Mesmo naquela época havia discriminação e nem todos tinham direitos. Hoje, como temos certeza, a maioria dessas decisões políticas não acontece para definir o bem comum, nem para tornar o mundo mais justo. E não estou e nem devemos generalizar. Também não há justiça quando colocamos todos os políticos como iguais.

O que vivenciamos, por conta de tudo isso que está nos envolvendo, é o estranho fato de como nos afastamos, também, de quem nos era querido, porque essas pessoas tomaram um lado na guerra política, um lado diferente do nosso.

Os antropólogos, que estudam o ser humano e sua vida em sociedade, dizem que quase todos nós precisamos de um “líder”. Que as pessoas não sabem o que fazer com a vida, sem uma orientação, alguém que lhe sirva de exemplo. Hoje, temos acesso a todo tipo de perfil humano no mundo, por meio das redes sociais, da internet. Podemos escolher qualquer um para ser nosso “modelo”, se realmente isso for necessário. Mas quem temos para escolher? As emissoras de TV, sites, jornais mostram bons líderes para nos inspirarmos? Sobre o que esses líderes falam? Sobre a grandiosidade da vida, a busca do bem comum, da paz e da justiça, como os gregos imaginavam? Para alguns, sim. Para outros, talvez.

Talvez, também, haja um bom líder bem perto da nossa casa, alguém que saiba conversar, que estenda a mão, que pense com respeito, que aja com respeito, que respeite as diferenças, que fale de coisas bonitas e pratique coisas bonitas. Que saiba mais ouvir do que falar. Mas ele não está na televisão. Nem nas redes sociais. E agora: isso vale? Ele serve também? Talvez esse líder seja o pai de uma família de um bairro na periferia, que ganha pouco e faz milagre com um salário mínimo por mês. Ou uma avó que cuida dos netos, porque a filha dela, a mãe das crianças, foi morta pelo companheiro, que nunca assumiu os filhos. Ou uma menina, uma jovem, que luta para trabalhar e pagar a faculdade, ajudando ainda nos serviços domésticos. E, sim, podemos buscar um exemplo dentro da política. Afinal, se todos fossem igualmente ruins, nosso planeta teria sido destruído há algum tempo. Claro que não estamos numa situação confortável, há muito em que avançar, sempre haverá. Mas poderíamos estar em condição ainda pior, acredite.

Jesus, e é importante que você entenda isso, foi um bom amigo de seu povo. Sentou com as pessoas para conversar, sorriu, brincou, amou sua gente. Foi sempre educado com todos, doce com as crianças, gentil e respeitoso com os mais velhos. Estimulou a prática de boas ações, o bonito valor da amizade, falou da importância do perdão, da generosidade, da compreensão. Falou da empatia, quando impediu que aquela mulher fosse apedrejada. Conseguiu fazer com que os agressores se colocassem no lugar dela. Afinal, todos temos erros e oportunidades de recomeçar. Jesus também ressaltou o poder da fé e da oração. Dizem que ele teria passado a noite anterior à escolha dos discípulos em oração, pedindo inspiração a Deus. Exceção ele fazia com os donos do poder. E então usava a força de suas palavras e de seu espírito para defender o povo. Bem diferente do comportamento da maioria dos nossos líderes de hoje.

Nossa sociedade, infelizmente, ainda é muito imatura. A sociedade mundial, digo. Precisamos de um novo diálogo que pacifique, que engrandeça e amplie a vida. Pois é da vida que nascem todas as outras coisas. Mas tais disputas, aqui no Brasil e lá fora, expuseram o que há de pior em nós: agressão, violência, ameaça, notícias falsas, mentiras. E tudo isso usado como se fosse, apenas, uma “posição política”.

A vida em sociedade não é fácil, sim, concordo. Mas pode ser melhor. É assim que ela foi concebida por Deus, a quem Jesus chamava de Pai. E Aristóteles não podia entender a vida fora do ambiente coletivo, uns ajudando os outros.

Busque ajuda. Mas principalmente, se puder, ofereça ajuda.

Por fim, você se chegou até aqui, na leitura, vai perceber que não falo de uma religião que supere outras. Não. Mas apenas trato de um fato: os brasileiros, em maioria, são cristãos, ou pelo menos se declaram assim nos censos, nas pesquisas. E tornei pública minha fé. Também não falei de “esquerda” ou de “direita”. Muitos de nós não sabem, ao certo, o que é isso. É confuso, realmente. E eu, por não entrar no tema, posso receber críticas dos dois lados. Mas não falo porque, se notarmos bem, não são esses conceitos que nos levaram para um extremo, a nos separar como iguais. Houve e há governos de terror, violentos, autoritários, fundamentados nessas duas “orientações econômicas”. Elas não podem, portanto, nos servir mais como orientação de nada. Muito menos como orientação de vida. O que nos afasta e nos impede de pensar e agir diferente é o erro de achar que as “decisões políticas” são responsáveis por nossa situação. Não. O que nos condena ao que estamos passando, em verdade, são nossas “decisões humanas” (minha, sua e de quem ocupa cargo político). Decisões que deixamos de exercer quando colocamos também de lado a própria importância da vida, esquecida em algum lugar pelo caminho. Mas ainda há tempo. Sim, sempre há. O relógio do universo continua batendo e nos oferecendo a oportunidade de dar um novo passo, de iniciar um novo diálogo com nós mesmos e com o mundo. É possível. Pode ser aos poucos. O importante é começar.