De um republicano, com carinho

Após ler o último artigo do excelente Eduardo Schiavoni, resolvi abandonar meu voluntário exílio, instigado pelo plural espaço do portal, para, respeitosamente, discordar veementemente de meu nobre colega. Oportunamente, seu texto abre espaço para que se estabeleça publicamente um debate que permita maior compreensão da filosofia política conservadora, essencial para qualquer análise política contemporânea, mas sob a qual rondam incontáveis achismos e paranoias.

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Recorro, primordialmente, ao ferramentário metodológico dos gregos antigos para rebater um equívoco. Segundo Schiavoni, “não há sentido em se dizer de direita e defender, por exemplo, a intervenção estatal, seja na economia seja nos costumes. Liberal é liberal, não dá pra ser meio liberal”. Não sou adepto da insuficiente rotulagem esquerda e direita. Não se pode tomar um boi por cachorro somente porque ambos são quadrúpedes, possuem dois olhos, cauda e orelhas. Ao contrário, a prática filosófica/científica aponta para o caminho inverso. São as diferenciações que permitem a plena compreensão do objeto de estudo. Ser liberal possui diversos significados, os quais variam com o autor do ideal adotado, contexto e, principalmente, sua viabilidade prática.

Abraçar a ideia do livre-mercado, da concorrência e da abertura econômica não fará do evangélico menos evangélico. Objetivamente, são prismas completamente distintos. Demandar menos tributos não fará do cristão um abortista -como uma parcela significativa dos liberais o é- porque “não dá para ser meio liberal”. É a plenitude do bovinismo intelectual abordar temas tão complexos de forma tão simplória. Ao afirmar que “não dá para ser meio botafoguense”, Eduardo apenas legitima a argumentação acima. É a filosofia de arquibancada, irracional e maniqueísta.

O autor refere-se brevemente às obras de Russel Kirk, Milton Friedman e Edmund Burke, mas, concomitantemente, releva os inúmeros pontos divergentes e contextos históricos de tais autores, principalmente entre Friedman e Kirk. Multiplicaremos então por -1 seus argumentos bipolares: todo esquerdista é trotskista (Hey, Libelu, vai…!). Stalinistas, morenistas e maoistas -outras vertentes revolucionárias marxistas, por exemplo, são apenas picuinhas irrelevantes. Todavia, cada uma delas é responsável por, no mínimo, 10 milhões de mortes. Percebem?

Tratar algo complexo e rico de forma genérica fomentou, também, uma grande injustiça, digna da crítica do complexo de vira-lata de Nelson Rodrigues: o brilhantismo desbravador dos pensadores tupiniquins que, mesmo frente às adversidades contextuais, contribuíram para o pensamento filosófico de forma tão significativa quanto os estrangeiros acima citados. Como referência, amigos leitores, indico a obra de Mário Ferreira dos Santos, pai da Filosofia Concreta, uma das mais brilhantes mentes da humanidade. Além dele, João Camilo Torres, José Guilherme Merquior e Antônio Paim são outros grandes expoentes conservadores intelectualizados. Deles, emana uma garantia: não há piada alguma. Não que o conservadorismo não seja fonte abundante de bom humor. Nelson Rodrigues, G. K. Chesterton e Machado de Assis não me deixam mentir. Ou então a acidez frasista de Winston Churchill e Ronald Reagan.

Politicamente, não pretendo me alongar no assunto, que seria melhor debatido pessoalmente. Ressalto, apenas, que Jair Bolsonaro não é expoente intelectual do conservadorismo. Tratá-lo desta forma equivale a referenciar Lula como teórico marxista. Trata-se de um indivíduo que, pelo sistema representativo, condensou sentimentos e percepções populares identificados com o ideario conservador. Nunca houve qualquer pretensão em ser o parturiente dessas concepções. Esta compreensão é fundamental para qualquer análise contemporânea. É preciso conhecer com propriedade o objeto criticado.

Em suma, este artigo tem como objetivo propôr, em primeiro lugar, a disseminação da honestidade intelectual. A grande massa da academia brasileira é como uma bússola sem ponteiros e apenas uma direção. Rasa e acomodada. Em segundo lugar, uma maior amplitude do debate intelectual, ponderações. Que a exposição de ideias, conflituosas ou não, seja uma constante. A crítica só é válida quando bem fundamentada. Não obstante, que configure um debate propositivo, dialético. Muitas vezes, ceder em alguns pontos, buscar o meio termo em prol do bem comum. Vale destacar também que mudar de ideia, repensar, não configura pecado algum. Objetivamente, sábio é aquele que reconhece sua própria ignorância, como alardeava Sócrates. Ou, como cantava Raúl, ele mesmo um ícone de esquerda, “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante; do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.