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Das amizades e inimizades presidenciais

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Das amizades e inimizades presidenciais
Rubens Russomanno Ricciardi, colunista do Portal Thathi

É no mínimo constrangedora a política do atual presidente do Brasil. Tal como ele havia prometido, agora está cumprindo – para que ninguém se diga surpreso com a atual tragédia nacional.

A imprensa internacional, tanto mais à esquerda, quanto mais à direita, o define invariavelmente como “populista de extrema direita”. Outros, de modo mais drástico, o definem como “fascista”. Ou ainda: o “Trump dos trópicos” (numa versão piorada em tudo).

Os diversos grupos, de acordo com as experiências sofridas, o definem ora como “inimigo das mulheres”, ora como “inimigo dos negros”, “inimigos dos povos indígenas”, “inimigo dos animais e das florestas”, “inimigo das universidades, das ciências e da pesquisa”, “inimigo do pensamento crítico e da filosofia”, “inimigo das artes”, “inimigo da liberdade de imprensa”, “inimigo da democracia”, “inimigo do setor produtivo”, “inimigo dos trabalhadores”, “inimigo da carteira de trabalho”, “inimigo dos aposentados”, “inimigo da previdência social” e, ainda, até mesmo, “inimigo dos LGBT” – e, quanto a esta última inimizade, diga-se de passagem, não obstante a obsessão compulsiva do presidente na apreciação de sua dualidade fisiológica predileta: “o pênis e o ânus”. São raros os dias nos quais o presidente não se refere, em seus discursos, a um ou outro “órgão excretor” (sua expressão sempre reiterada). É impossível não ser chulo quando se cita o presidente.

Em meio a tais contradições bizarras, contudo, o presidente, de modo algum, vem sendo definido apenas por suas “inimizades”. Há aqueles que reconhecem, com exaltação, suas mais sólidas e inabaláveis amizades: “amigo dos funcionários fantasmas” (ditos “laranjas” ou “rachadinhas”), “amigo do trabalho infantil”, “amigo do trabalho escravo”, “amigo das notícias falsas” (ditas “fake news”), “amigo do congresso com igreja”, “amigo da igreja com partido”, “amigo dos ministros com diplomas fraudulentos”, “amigo da delegacia do faz de conta da moral e dos bons costumes”, “amigo do nepotismo” (a família dele acima de tudo), “amigo do agrotóxico”, “amigo das queimadas”, “amigo das armas e dos fuzilamentos”, “amigo das milícias”, “amigo do assassinato sob emoção” (que seu ministro da justiça procura legalizar por meio de um “pacote da morte”), “amigo da tortura”, “amigo da ditadura”, “amigo da CIA” e ainda “mais amigo dos estadunidenses que dos próprios brasileiros”.

Contudo, destaca-se, em especial, a “amizade com o sistema financeiro” (ditos processos de capitalização dos já bem capitalizados) – amizade que respalda o apoio que o presidente recebe nos momentos decisivos, sempre intermediada por seu “Primeiro-Ministro-Posto-Ipiranga”, o banqueiro Paulo Guedes, também conhecido pelo epíteto de “Tchutchuca”.

Fotógrafo anônimo retratando a noite paulistana nos dias atuais

Como chefe de Estado, o atual presidente é simploriamente inepto (incapaz, incompetente), talvez o administrador mais despreparado no Brasil desde Martim Afonso de Sousa. Ele se encontra aquém (abaixo) das dimensões do cargo para o qual fora eleito. Sua capacidade de cognição (processo de aprendizagem) é gravemente redutiva (incapacidade crônica de organizar o pensamento, de compreender e raciocinar). Seu incontornável mau gosto e suas expressões sempre agressivas e violentas, se antes atingiam autoridades brasileiras, como foi o caso recente envolvendo o pai do presidente da OAB, morto pela ditadura, agora ofendem também chefes de Estado de outros países, como foram os casos, entre outros, do presidente da França (disse que “a esposa dele é feia”, entre outras barbaridades) e da ex-presidente do Chile e atual alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, cujo pai foi morto pela ditadura de Pinochet. O Brasil só tem passado vergonha ultimamente e se tornou o assunto pejorativo do momento no mundo. Todos estão assustados com o que se passa aqui. A pergunta que se coloca lá fora é: “como os brasileiros puderam eleger alguém com perfil tão destrutivo?”

Enfim, seu repertório político contempla uma coleção de indignidades que viraram chacota internacional: currículos fraudulentos, funcionários laranjas, notícias falsas, congresso e STF com igreja, igreja com partido, matar sob emoção, veneno na comida, devastação da natureza, minorias perseguidas, ódio ao conhecimento, guru da maldade, arte aniquilada e velhice na miséria.

Vamos encerrar citando o jornalista Bruno Bimbi, que resumiu a recepção do presidente, ainda bastante problemática por parte da opinião pública:

Bolsonaro não “criticou” Bachelet, mas sim desrespeitou a memória do pai dela. Não devemos cometer o mesmo tipo de erro de boa parte da imprensa brasileira, quando publica que o presidente “afirmou”, quando na verdade ele mentiu. Quanto toma determinada declaração por “polêmica”, quando, de fato, foi racista ou homofóbica. O presidente não “criticou”, mas ofendeu; não “advertiu”, mas ameaçou. E jamais devemos aceitar, toda vez que nega a ciência, que o presidente tenha emitido sua “opinião”.

Além de alguns jornalistas, há também milhares de eleitores, ainda fieis ao presidente, que não querem enxergar a realidade. Alegam que o presidente não é fascista, e também dizem até que o fascismo é de esquerda. No próximo artigo, de maior fôlego, vamos tratar destas duas questões. Este artigo aqui foi apenas um panorama introdutório. Aguardem.