Cuba e o Cameraman: uma viagem no tempo e ao país de Fidel Castro

Fidel Castro em sua viagem à ONU, com o presente que ganhou de Alpert

Voltando a escrever neste espaço, depois de um tempo dedicado a estudos por meio dos quais consegui entrar em um novo mestrado e um novo doutorado, ambos em Educação, mas sob perspectivas teóricas diferentes, pensei em um texto que poderia ser mais leve e educativo ao mesmo tempo. Nisso, voltei o olhar para meus estudos em linguística e linguagem cinematográfica. A base para este texto veio de um documentário incrível e, considero eu, imperdível e presente no Netflix: Cuba e o Cameraman.

Considerando que a plataforma de streaming é acessada por um número expressivo de pessoas, que assinam ou compartilham assinatura, o documentário pode ser considerado acessível. Tratando já do documentário, “Cuba e o Cameraman” apresenta uma visão íntima e apaixonante dos 50 anos de vida em Cuba.

Ao pensar em um lugar como Cuba, sempre tendemos a fantasiar o lugar e não o seu povo. Isso valia também quando analisávamos a Alemanha Oriental ou mesmo a Coreia do Norte. Isso ocorre porque as fronteiras que separam nos deixam cegos e a inacessibilidade fortalece a imaginação. Analisar Cuba é assim. Dos Estados Unidos, menos de 200 quilômetros os separam. Contudo, um norte-americano que olhar para o horizonte não poderá ver a ilha de Fidel Castro. Daí, a imaginação e a construção ideológica do pensamento imperam.

Alpert e Fidel Castro: amizade improvável

 O documentário foi realizado por Jon Alpert, um cineasta que passou quase toda a sua vida entre os dois países. Em quase 50 anos de viagens a Cuba, ele registrou imagens que encantam e fazem pensar. Alpert já conquistou dois Oscar, ambos em Melhor documentário em curta-metragem. Contudo, foi com seu trabalho em Cuba, analisando, filmando e arquivando imagens que nasceu o documentário para o Netflix. Pode-se dizer que Alpert reuniu grandes partes de sua carreira e reciclou em uma obra magistral.

A energia vital da obra cinematográfica encontra-se em seu tecido conjuntivo. Alpert nos mostra por diversas vezes os mesmos elementos humanos, revisitando continuamente ao longo dos anos algumas pessoas com as quais fez amizade. Memorável e emocionante são os encontros com os Borrego, camponeses cubanos. Alpert convida os espectadores a analisarem as políticas de Fidel Castro por meio da perspectiva de seu povo. Isso muda muito em relação a obras pautadas pela ideologia. Dependendo do lado em que se encontra do espectro ideológico, muita coisa pode mudar. É por isso que ele dá uma abordagem humanística e pitoresca para seu documentário. Chega a nos comover de tanta simpatia. Ainda que Fidel Castro tenha sido acusado de violações dos direitos humanos, Alpert, que conseguiu fazer amizade com o grande líder cubano, fornece ao espectador uma visão do homem, não do mito.

Isso pode ser percebido também na vida cotidiana das pessoas e das cidades. Havana, a capital, é mostrada de uma maneira que poucos turistas que lá se aventurarem poderiam perceber. “Cuba e o cameraman” inicia-se pouco antes do amanhecer do dia 26 de novembro de 2016, quando esse mostra uma havana esvaziada e arrebatada. Era a primeira vez desde 1959, Cuba não tinha o seu líder máximo. Poucas horas depois, no documentário, é possível ver milhares de cidadãos que se reuniram no centro da cidade para um luto conjunto. “Yo soy Fidel”, afirma um deles a Alpert, que ao mesmo tempo, saber-se-á no andamento do documentário tanto triste quanto orgulhoso. Daí, o filme voltará aos anos 1970 e apresenta-nos o documentarista Alpert e sua arte, a qual ele usa para denunciar injustiças sociais. Por ser um ativista, Alpert fica sabendo que Cuba está fazendo as obras sociais com as quais ele sonha para Nova Iorque. E para lá parte para filmar. Alpert é um protagonista em sua própria história. De um idealista que vai para o estrangeiro filmar o sonho, ele deixa sua curiosidade guiá-lo.

Os irmãos Borrego e Alpert: amizade sincera

O cineasta consegue a amizade de Fidel por causa da curiosidade do comandante. O espectador vai descobrir como essa amizade começou de modo pitoresco. A partir daí, a amizade se aprofunda a ponto de Alpert ser o único norte-americano a estar presente no avião e comitiva do Presidente Fidel Castro quando de sua ida à ONU, em Nova Iorque. Em todo o documentário, a voz de Alpert medeia tudo e é sempre amistosa e sem julgamentos.

A filmagem sincera que o cineasta consegue da viagem de Fidel é incrível. Pode-se ver ali um Castro naturalmente humano, sem a mitologia que o cerca. Um ser divertido, piadista, um homem comum que mostra até seu quarto de hotel para o cineasta. Porém, há nestas cenas algumas frases profundas do comandante, tais como ele afirmar usar um colete a prova de balas moral, enquanto abre a camisa e mostra sua carne, sem colete de proteção. Tudo isso devido a ameaças de morte que ele sofrera quando anunciou sua viagem à ONU.

Percebe-se no comandante um fervor revolucionário latente ainda. A ilha não passava pelas dificuldades da derrocada do comunismo no mundo, encabeçada pela queda da União Soviética. O povo cubano naquela época parecia feliz e crente na revolução. Daí surge a imagem dos Borrego, três irmãos e uma irmã camponeses, ambos na casa dos 60 anos que vivem em uma fazenda nos arredores de Havana. São gente pobre e trabalhadora que vivem sem água corrente e eletricidade, mas trabalham todos os dias de sol a sol e acreditam no Estado de Fidel. Infelizmente, o espectador poderá perceber que a cada vez que Alpert volta a situação dos irmãos está pior.

Vizinhos sem escrúpulos fazem a vida dos Borrego piorarem continuamente. Eles têm seus animais roubados para serem comidos por estes vizinhos, sinal da fome que tomou a ilha após a queda do comunismo. Também roubam suas colheitas. Os Borrego chegam ao ponto de arar o solo arrastando os arados, pois seus bois que faziam o trabalho foram roubados e mortos. Nas cidades, tudo é racionado. As pessoas são magras. A fuga para os Estados Unidos é uma presença constante durante grande parte do documentário.

Outro ponto importante é a escola que Alpert visita em 1975. Repleta de alunos e de sonhos de profissões que cimentariam a revolução, anos depois percebe-se aqueles futuros médicos, engenheiros, enfermeiras e tantos outros vivendo por meio de subemprego ou então fugindo para uma vida melhor nos Estados Unidos. Alpert não julga. Ele mostra a vida das pessoas como ela é. E sempre retorna para revisitar os amigos que faz.

Alpert demonstra animação mesmo quando o país está em ruínas. Ele não deixa de demonstrar as adversidades que o povo da ilha está vivendo, mas ele se mostra tão bom, tão cuidadoso em não ofender ninguém. A realidade de Cuba, por um lado causada pela escolha política da revolução de Fidel e por outro lado promovida pelo embargo dos Estados Unidos, é demonstrada sem filtros, com um olhar focado nos habitantes da ilha, nos humanos, seus vícios e virtudes.

A grandeza do filme de Alpert reside não apenas em sua captura magistral de Cuba e seu povo, mas também em sua tenacidade em permanecer com a história e seguir Castro por décadas – 45 anos para ser exato. Imagens nunca antes vistas do homem por trás da figura pública se misturam facilmente com as conversas que Alpert capturou com os fazendeiros locais e suas famílias. Está tudo ali: o que Cuba foi, o que poderia ter sido e o que se tornou. Tudo isso torna a exibição mágica de “Cuba e o Cameraman” um documentário imperdível.

Quem assistir, não vai se arrepender.

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