Crônica de uma morte anunciada

Em 7 de maio de 2020, início do início da pandemia, escrevíamos, aqui mesmo, que a cabal transposição da pandemia passaria pela imunização massiva e que até lá algumas medidas poderiam facilitar nossa passagem até lá. Claro que a postura pessoal de cada um quanto a observância do distanciamento social seriam fundamentais. Mas ao lado dessa conscientização outras medidas de interferência no modo como organizamos nossa vida social e econômica seriam essenciais. Um escalonamento nos horários de entrada e saída, diferenciados para as atividades de comércio, indústria e serviços. E dentre estes, outros escalonamentos de modo que o comércio de bens essenciais não coincidisse com de vestuário, veículos, máquinas etc. Enfim uma alteração de horários que a par de permitir o conjunto da economia manter-se em funcionamento evitaria as aglomerações no transporte e no trânsito.

Nos perdemos no meio do caminho entre o negacionismo de uns, o desespero de outros pela sobrevivência de seus empreendimentos e a necessidade da renda do trabalho de outros. Nos perdemos agitando espantalhos imaginários do passado, como se eles pudessem se repetir literalmente como dantes e nada tivéssemos apreendido da história. Prometido socorro econômico às empresas não se materializou na medida da necessidade, assim como os programas de renda básica foram facilmente burlados e não continuados a lugar e tempo.

Na crença da infalibilidade de uns e na maldição de outros, chegamos, agora aqui em Ribeirão onde o não sai de casa não é um apelo, uma orientação. Agora é uma determinação legal, porque a falta de coordenação nacional associada a uma gestão errática e claudicante é o porto a que chegamos. Óbitos crescem semana a semana e a capacidade hospitalar, ainda que possível de expansão, nem tem como crescer com a limitação de pessoal disponível.

Agora é reduzir a velocidade de contágio na marra. O que era para ser um distanciamento relativo de cuidado consigo e com os outros, em nossa querida Ribeirão, tornou-se um distanciamento absoluto para a maioria da população.

Que possamos atravessá-lo com dignidade e paciência. Que o retorno venha acompanhado de medidas concretas de responsabilidade do poder público local em estabelecer, finalmente um escalonamento de horário, nos diversos setores da economia, e não sua manutenção em benefício de um sistema cartorial de transporte público. Que nossas ruas sejam acompanhadas pela administração pública não só nas ruas centrais, mas também nos bairros. Ao longo do dia e das noites.

Estamos todos cansados. Mas mais cansados ainda da inépcia, do desacerto e da histérica polarização que uns e outros insistem em fermentar.