Considerações sobre o hospital, o bar e o velho culpado

Da janela do meu quarto, vejo dois hospitais e da janela do quartinho que uso para escrever, vejo um boteco. São dois universos diferentes, duas sinfonias distintas. Ontem, enquanto os noticiários apontavam para o mais trágico dos dias (por enquanto), do hospital vinham as sirenes das ambulâncias, buscando, perdigueiramente, por leitos para acolher os infectados pela Covid; do bar, ecoavam gritos de alegria, sons do parabéns a você, e música de todo gênero. Ali estavam jovens felizes, sem qualquer proteção, alheios às ambulâncias, aos infectados e aos mortos. A cena me lembrou o Juízo Final de Michelangelo ou A queda dos Anjos Rebeldes de Pieter Bruegel, o Velho – pintor belga. Ainda nos noticiários, o Presidente chamava de idiotas todos os que exigiam a vacina, e perguntava por quanto tempo ainda iremos chorar a morte. Inconformado e rebelde, atordoado na antítese do bar e dos hospitais, na oligofrenia presidencial, o meu mundo perdia encanto. Quarenta e dois anos na sala de aula, tentando iluminar o caminho daqueles que por mim passavam, levando à trilha do pensamento, da argumentação, do bom senso e da valorização do homem em todos os seus fatores, perdendo-se na poeira do tempo. Por que errei tanto? Essa pergunta rasga o meu interior como adaga afiada. Fui juntando cacos, na ânsia de obter respostas que me convencessem e me perdoassem.

Quanto quis xingar o presidente, aprendi que ele não estava sozinho. Aqueles jovens que davam ombros ao caos, que festejavam a vida, sapateado a morte, aqueles jovens, eram representados pelo seu presidente. Frutos, todos, da mesma figueira. A figueira do individualismo, da frieza dos sentimentos, da plenitude do egoísmo. Houve um tempo em que as famílias se juntavam à mesa, discutiam seus problemas, aprendiam a conviver. Esse tempo deu lugar aos feudos familiares. Cada qual acastelado em seus quartos, moldando seus mundos, entendendo a vida como patrimônio pessoal e intransferível. Extinguiram uma pessoa do discurso: a primeira do plural, nós. Conjugaram apenas o eu, tu,ele, vós e eles. O nós foi expulso sem direito à volta. E o mundo ficou assim, a guerra silenciosa ou não do eu contra ele ou eles. Se ficam doentes, se precisam de amparo e carinho, procurem nas estrelas e não amolem quem se diverte na angústia de quem sofre. O mundo é dos que sobrevivem fortes e aprendem a discriminar os fracos. A natureza age assim, eles são aliados da natureza irracional.

Não haverá retrocesso, não cabe no mundo em que ter é muito mais sofisticado e sólido do que ser. “Ao vencedor as batatas, ao vencido ódio e compaixão” já dizia Machado de Assis. As sirenes continuam tocando, dentro dos hospitais, os profissionais da saúde continuam firmes no propósito da vida. O bar continua ecoando seu desprezo à empatia. Eu, dentro de mim, como algoz da minha culpa, expiando meu erro, repito em forma de cantilena: onde foi que eu errei?