Castigo pior do que morrer

A prisão do ex-ministro da educação, Milton Ribeiro, me trouxe uma profunda decepção comigo mesmo. Não votei nesse governo que aí está, não votarei e nem tenho qualquer relação que não seja o asco pelo que fazem neste país. Entretanto, como educador, como quem viveu quarenta e quatro anos educando e tentando construir um mundo melhor para os meus alunos, sinto-me  culpado pelo que não fiz.

Educar é construir, abrir janelas, escancarar portas, deixar o vento limpar a sujeira do tempo, recompor as peças, brilhar a casa. Educar tem um papel de estimular, de propor, de renovar. A mitologia grega tem um personagem extraordinário, Sísifo. Segundo ela, esse personagem enganou os deuses e por isso fora castigado da maneira mais cruel do que a própria morte, ele teria que rolar uma enorme pedra num penhasco íngreme. Ao chegar com a pedra no topo, esta voltaria e Sísifo deveria recomeçar o trabalho, assim eternamente. Educadores são Sísifos modernos. Empurram a pedra, esgotam-se no cansaço, mas ela volta ao lugar de onde partiu e a história recomeça. E assim é educar, um eterno recomeçar.

Fiz isso quarenta e quatro anos. A cada nova turma, uma nova pedra. Por isso, quando leio que um ex-ministro da educação foi preso, todas as pedras voltam do penhasco sobre mim. É um castigo mais cruel do que morrer. Educadores antagonizam prisões, são chaves que libertam, jamais grades, gaiolas.

Não me importa aqui o governo de quem. Não discuto nesse texto o aspecto político ou ideológico de ninguém, faço um desabafo de quem sente que nada valeu a pena, de quem tem a alma pequena, como diria Fernando Pessoa. Um ministro da educação, seja ele de que governo for, tem a obrigação de reger a orquestra do saber, de renovar os ares, de ter a delicadeza e o encantamento do universo dos construtores. Educação é para os que bebem a seiva da ética e se comprometem com o desenvolvimento do universo, sem apelos políticos. Educação não é ferramenta de governança, mas o forno da sabedoria.

Eu me sinto um criminoso das minhas ideias. Um fracasso. Tenho medo de olhar nos olhos dos meus alunos e receber deles o raio do desprezo. Em nenhum momento da minha vida projetei um cenário tão grotesco. Em nenhum momento da minha vida, imaginei que algum educador pudesse tomar banho de lama e deixar corroer a alma. Não dediquei parte essencial da minha vida para não valer nada.

Se o ex-ministro é culpado ou não, pouco importa. O alicerce foi corrompido, a prisão, mesmo temporária foi decretada. Não há inocência nisso, claro está. Há podridão, tecido fétido e coberto de vermes. A educação, de uma forma ou outra, alimenta o câncer da vergonha.

Ponho o luto de mim. Não sei o que fazer. Olho para a lousa da minha alma, tomo nas mãos o giz , como um cinzel, mas o mármore não se compõe, continua mármore. Verto lágrimas. Exorto cada corvo que me rodeia. Maldito seja aquele que trai o instinto de educar. Cuspo o fel do ódio. Morro mais cedo. Empurrarei mais uma pedra? Castigo pior do que morrer.

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