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Carta aberta ao amigo Pimont

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Carta aberta ao amigo Pimont
Carlos Cezar Barbosa é Promotor de Justiça licenciado em Ribeirão Preto. Mestre em direito penal, atualmente ocupa o cargo de Vice-Prefeito de Ribeirão Preto

Caro amigo Pimont* 

Você partiu para uma longa viagem faz bom tempo. Não mandou noticia até agora. Temos a certeza de que estás muito bem, mas a curiosidade é grande para saber o que acontece no seu meio. Sei que uma turma boa tem chegado por aí. Não sei se já teve contato com eles. Tomo a liberdade de sugerir que fale com o Boechat, novato no seu pedaço. Quem sabe possa ele transmitir as notícias das quais tanto reclamamos por algum satélite oculto. Fico imaginando que neste momento você deva estar numa boa mesa de conversa com o Suassuna, o Ferreira Gular e o Mário Quintana, ou, quem sabe, assistindo a uma apresentação de João Gilberto ou Luiz Melodia. Duvido que aos sábados não sirvam uma suculenta feijoada, em meio a uma roda de samba, comandada por Almir Guineto, Beth Carvalho e Dona Ivone Lara. Aliás, se encontrar o Simonal por ai, lembre-o de que, numa bela noite, dividi com ele o palco de uma casa noturna aqui em Ribeirão, para cantar “Samarina”. Foi uma farra.

Aqui, para nós mortais, o mundo está meio chato. Surgiu uma onda de politicamente correto que está travando a todos. Piadinhas estão quase proibidas. Cochichar no ouvido de uma mulher pode dar cadeia. Teve gente que partiu na hora certa. Se estivessem por aqui, estariam perdidos. Gênios como Nelson Rodrigues, Paulo Francis e Costinha poderiam estar atrás das grades, por conta de sua obra provocadora.

Aqueles encontros semanais de amigos lá no Pinguim, regados a bom chopp, não existem mais. Foram substituídos por conversas em grupos de WhatsApp. Calma, eu explico: WhatsApp é um aplicativo de telefone celular que permite a troca de mensagens em tempo real. Aqueles telefones celulares da sua época, que agora são chamados de “tijolões”, viraram peças de museu. Entraram em cena os smartphones. É praticamente proibido não possuir um. Quem não tem é tratado como indigente. Já se cogita até da implantação de smartphones no próprio corpo, em cirurgia custeada pelo SUS.

Pois bem, o WhatsApp é uma ferramenta do smartphone. Virou o principal meio de comunicação entre as pessoas e exige respostas imediatas, sob pena de graves consequências. Nele se concentra a maior rede de propagação de fofocas e notícias falsas. É mais escravizante do que um par de algemas ou um cárcere privado. E tem mais, agora existem também Facebook, Instagram e Twitter. São as chamadas redes sociais – espaços curiosos, onde as pessoas fingem que estão felizes; se transformam em filósofos, cientistas sociais e gurus de autoajuda. Frequentemente, servem também para se lavar roupa suja, no pior nível possível. Quem não tem conta em pelo menos um deles está à margem da sociedade. Acho que você não iria gostar dessas novidades.

Falando um pouco das coisas do meio jurídico, aquele Supremo da nossa época, que tinha Carlos Velloso, Sydney Sanches e Moreira Alves, hoje está em baixa. Tem até manifestação de rua para pedir a cabeça de ministros. A política, então, nem se fala. Lembra-se do Lula? Está preso, condenado por corrupção. Agora, o “mito” assumiu a presidência. É um capitão reformado do exército. Uma espécie de cover tupiniquim do Donald Trump. Exatamente, aquele milionário norte-americano virou presidente por lá. Os dois têm dado o que falar. O capitão tem feito desaforos a chefes de Estado de toda a parte do mundo, e reimplantando a censura no País. Aposto que você morreria de rir das confusões que ele arruma.

Chega de coisa séria. Sean Connery, o eterno James Bond, que a gente não cansava de assistir, está com 89 anos e anda acompanhado de um cuidador. Clint Eastwood está com a mesma idade, mas continua trabalhando. Você ficaria triste de assistir a seus últimos filmes. Num deles é assassinado, no outro é preso por tráfico de entorpecentes. Melhor ficar com a imagem do valentão de “Harry ‘Dirty’ Callahan”, “Por um Punhado de Dólares” e “Três Homens em Conflito”.  Tarantino continua mandando bem. Você perdeu “Era uma vez em Hollywood” e “Bastardos Inglórios”, mas nada que se compare a “Pulp Fiction”, que você deve ter assistido umas quatro vezes. A cena da dança do Travolta com a Uma Turman e a outra, do Samuel L. Jackson fazendo um estrago na lanchonete, são inesquecíveis.

Algo que, com certeza, você gostaria de saber: a fanta uva continua no mercado e o sanduba do mau-mau continua sendo um dos melhores da cidade.

Continue em paz em seu espaço sagrado.

Abraço do amigo.

 *Ricardo Guimarães Pimont foi Promotor de Justiça de Sertãozinho. Faleceu em 07 de fevereiro de 2002, com 43 anos de idade.